Relatório inédito
compilado pelo instituto mostra que modelo de desenvolvimento é
incompatível com preservação
12/10/2002
Dez anos após a Eco-92, o Brasil adota um padrão de
desenvolvimento insustentável do ponto de vista ambiental. A
conclusão é da publicação "Indicadores de Desenvolvimento
Sustentável", do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), divulgada ontem no Rio de Janeiro.
Essa insustentabilidade -que é global, segundo o presidente do
IBGE, Sérgio Besserman- se traduz no dado da publicação que
mostra que a taxa de desmatamento na Amazônia aumentou de 0,37%
da área remanescente em 1991/1992 para 0,48% em 1998/1999 (a última
projeção do governo aponta uma queda de 13,4% em 2000/2001, mas
o dado não indica uma tendência).
A taxa já foi maior na década de 90, quando chegou a 0,81% em
1994/1995. Um dos fatores que podem explicar o aumento é que foi
justamente nesse período, logo após o lançamento do Plano Real,
que o país teve os maiores índices de investimento na década
(20,75% do PIB em 1994), o que indica que o país ainda não
consegue equilibrar desenvolvimento econômico e proteção
ambiental.
Na avaliação do assessor especial da Presidência da República
para assuntos ambientais, Fábio Feldmann, esse índice de
desflorestamento ainda é "absolutamente inaceitável".
Ele diz, no entanto, que o Brasil está dando um salto
significativo ao divulgar, de forma transparente, seus dados sobre
sustentabilidade.
A publicação não traz dados novos, mas junta em um só
documento, pela primeira vez no país, 50 indicadores ambientais,
sociais e econômicos para serem relacionados entre si, seguindo
orientação da Comissão para o Desenvolvimento Sustentável da
ONU.
Os dados do IBGE mostram o aumento de 2000 para 2001 de focos de
calor detectados por satélite no país, que podem indicar tanto a
existência de queimadas autorizadas pelo poder público como incêndios
com graves consequências para o ambiente. O número de focos
detectados cresceu de 104 mil para 145 mil.
Os focos foram concentrados principalmente no Pará e no Mato
Grosso, Estados amazônicos campeões de desmatamento.
Segundo o ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, o
Brasil já esgotou o modelo de gestão ambiental baseado nos
mecanismos estatais de controle.
"O país conseguiu ser eficiente nesta década no
desenvolvimento da legislação ambiental e da modernização de
seu aparato legal de fiscalização. Agora, para reverter o quadro
de uso predatório e degradação ambiental do país, teremos de
trabalhar com instrumentos econômicos que não degradem o
ambiente."
O ministro cita a região Norte como exemplo de desenvolvimento
predatório. "A economia amazônica está organizada em torno
de atividades que induzem o desmatamento. Temos de mudar esse
modelo. A Sudam [Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia",
em geral, financiava projetos de alto grau de desmatamento da
floresta. Isso não pode acontecer no futuro."
CFCs em queda
Os indicadores compilados pelo IBGE mostram também avanços, como
a redução do consumo de CFCs (clorofluorcarbonetos, gases que
destroem a camada de ozônio) no país. De 1997 para 2000, houve
uma redução de 21% no consumo dessas substâncias.
É um dado positivo, mas que apenas reflete uma tendência global.
O Brasil é signatário do Protocolo de Montreal, acordo mundial
produzido em 1987 para banir os CFCs do planeta. O protocolo só
deu certo porque a eliminação dos CFCs não afetaria a
competitividade industrial das nações.
Para o presidente do IBGE, o Brasil tem trunfos extraordinários
para mostrar na conferência Rio +10, que começa em agosto na África
do Sul, e discutirá os avanços ambientais dez anos depois da
Eco-92, primeira conferência sobre desenvolvimento sustentável,
realizada no Rio.
"Temos uma natureza riquíssima e uma população consciente
e alerta para as questões do ambiente. No entanto, o país
precisa combater a desigualdade", diz.
Para ele, não é a pobreza que causa as maiores agressões ao
planeta. "Quem está agredindo mais os ecossistemas do Brasil
e do planeta é a riqueza. O padrão de consumo que existe no
Brasil e no mundo hoje é insustentável."
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