Ozônio deverá estar restaurado até 2040
12/10/2002
Quem é cético com relação à capacidade do ser humano para
lidar com os problemas ambientais que ele mesmo está causando
precisa ouvir esta: cientistas japoneses dizem que a camada de ozônio
voltará à plena saúde até 2040.
A recuperação, segundo os pesquisadores, é resultado direto da
contenção das emissões dos gases halógenos (que possuem em sua
composição átomos de cloro, flúor, bromo ou iodo), dos quais
fazem parte os famosos CFCs (clorofluorocarbonetos), antes
utilizados com frequência em dispositivos de sprays e em
refrigeradores. As reduções partiram de um protocolo
internacional assinado em Montréal em 1987.
Quando emitidos, esses gases vão para a alta atmosfera, onde
atuam como verdadeiras "marretas" do ozônio -um tipo de
gás oxigênio "turbinado" (altamente reativo e instável),
com três átomos de oxigênio por molécula em vez de dois. Ao
encontrar o ozônio, os CFCs induzem a quebra da molécula, e o
que sobra do desmanche é simples oxigênio (O2).
Embora ozônio não seja mesmo flor que se cheire (é altamente tóxico,
se inalado), é lamentável que ele suma da alta atmosfera da
Terra. Àquela altitude, o O3 passa de vilão a mocinho, formando
um escudo invisível que protege a superfície do planeta contra
os raios ultravioleta vindos do Sol, nocivos para a maioria das
formas de vida, inclusive os humanos.
Nas últimas décadas, com o avanço do progresso industrial, mais
e mais halógenos acabaram sendo liberados na atmosfera, e o
estrago na camada de ozônio não demorou a ser sentido. O
comportamento das massas de ar induziu à concentração da
destruição em regiões bem específicas. A maior delas fica
sobre a Antártida, onde um enorme buraco tem sido observado, cada
vez maior, ao longo dos últimos anos.
Entretanto, o corte nas emissões de halógenos a partir do
Protocolo de Montréal está eliminando o desenrolar de um futuro
catastrófico, ocasionado pelo crescimento desenfreado do rombo
"ozônico" -ao menos no computador.
O que já é uma boa coisa. O modelo atmosférico produzido por
Tatsuya Nagashima, do Instituto Nacional para Estudos Ambientais
japonês, e seus colegas reproduz com sucesso o comportamento do
ozônio ao longo dos últimos 14 anos e prevê sua evolução
durante os próximos 40.
Ele mostra que o buraco sobre a Antártida deve começar a reduzir
nos próximos anos, lentamente até 2015 e de forma acelerada até
o final da década de 2030. Em 2040, os pinguins antárticos poderão
respirar aliviados, com níveis normais de O3 sobre suas cabeças.
Muitas variáveis
Claro, se a camada de ozônio só se restaurar em 2043, não bata
à porta de Nagashima pedindo seu dinheiro de volta. "Um
valor do ozônio no modelo em um ano específico não é um valor
real do ozônio. O que quero dizer é que 2035 em nosso estudo não
vai ocorrer perfeitamente em 2035 na atmosfera real", afirma
o pesquisador, que publicou seus resultados na última edição da
revista científica "Geophysical Research Letters" (www.agu.org/grl).
Mesmo assim, ele considera sua pesquisa evidência sólida de como
a alta atmosfera vai se comportar durante as próximas décadas,
por ser um modelo mais completo que os anteriores. Outros já
haviam previsto o fechamento do buraco antártico, mas
apresentavam o surgimento de outro, no pólo Norte. O dele não
leva a esse resultado.
Está tudo dominado?
Os resultados observados e previstos são surpreendentes para
Nagashima, em um sentido até filosófico. "Acho que a atual
crise do ozônio inesperadamente mostra a habilidade dos humanos
para alterar as grandes variáveis em nosso planeta", afirma
o pesquisador. Em compensação, ainda há muitas incógnitas em
jogo para que a humanidade se declare senhora absoluta do planeta.
"Estudos de modelagem só podem indicar uma faixa de
probabilidades", diz Nagashima. Embora o modelo dele seja um
dos mais detalhados já desenvolvidos para responder à questão
do ozônio, ele não é completo, nem totalmente preciso -quando
outras variáveis forem computadas, ninguém garante que o
resultado será o mesmo. "Se há resultados vagos o
suficiente para incluir também futuros alternativos, isso está
longe de ser o "controle" da natureza pela espécie
humana."
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