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O cenário é familiar: o
crescimento desenfreado de uma espécie egoísta lança quantidades sem
precedentes de um perigoso gás na atmosfera da Terra, colocando em
risco toda a vida no planeta. Mas a familiaridade pára por aí: tudo
isso foi há 2 bilhões de anos, as formas de vida em questão são as
insuspeitas cianobactérias (até pouco tempo atrás chamadas de
"algas azuis") e o gás é o oxigênio, indispensável para
animais e plantas de hoje.
A comparação entre o oxigênio primordial e a poluição humana é um
dos argumentos do livro "O que É Vida?" para demonstrar a visão
peculiar de seus autores sobre o que chamam de "exuberância planetária":
incomparável em engenhosidade, a vida foi muito mais sujeito do que
objeto em seus 4 bilhões de anos de história. Sua ação forjou o
planeta e o recobriu com um tapete de matéria animada, das camadas
superiores da atmosfera ao fundo dos oceanos.
Quem se lembrou do termo "Gaia" (a Mãe Terra dos mitos
gregos) para definir esse planeta vivo acertou em cheio: a bióloga Lynn
Margulis, autora do livro com o escritor Dorion Sagan, ajudou a criar a
chamada "hipótese Gaia", que vê as formas de vida como um único
superorganismo. Para os dois, nada escapa ao abraço de Gaia: mesmo a
comunicação por satélite e os mercados globais não passariam de
novos órgãos da antiga criatura, prontos para levá-la a mais um estágio
de sua história.
Margulis e Sagan (ex-mulher e filho mais velho do astrônomo e
divulgador da ciência Carl Sagan, morto em 1996) deixam claro o
ambicioso objetivo da obra: "reintroduzir a vida na biologia".
Para eles, a vida é um fenômeno material, como qualquer outro no
Universo, mas de um tipo especial. Desafiando a segunda lei da termodinâmica
(que postula o aumento inexorável do grau de desordem, ou entropia, em
qualquer sistema), a vida lutaria de forma quase consciente para manter
sua organização interna.
A característica-chave desse fenômeno em guerra perpétua contra a
entropia não é a capacidade reprodutiva, argumenta a dupla, mas o que
eles chamam pelo nome grego de "autopoese": a capacidade de
fazer a si mesmo. Para continuar vivo, um organismo precisa exportar
entropia para o meio circundante e importar matéria-prima e energia,
refazendo-se constantemente.
Embora dediquem um capítulo a cada um dos cinco reinos da vida na Terra
(bactérias, eucariontes unicelulares, plantas, fungos e animais), os
autores não escondem a preferência pelos reais construtores da
biosfera, as bactérias.
Os seres vivos mais simples também são os que mais contribuíram para
fazer do planeta o que ele é hoje: usaram a luz do Sol como combustível
e liberaram no ar o então mortífero oxigênio; foram os primeiros a
respirar usando o antigo veneno; trocaram genes entre si numa orgia
global que dura até hoje e, numa fusão ainda pouco compreendida,
geraram todas as outras formas de vida.
Para Margulis, essa simbiose deixou seus rastros nas mitocôndrias, as
usinas celulares que guardam como relíquia desse passado bacteriano um
DNA próprio. E também nos cloroplastos das plantas, antigas cianobactérias
que hoje aprisionam luz solar para outros senhores, embora mantendo
material genético próprio. Animais e plantas seriam, assim, o fruto de
ao menos duas ou três fusões bacterianas, alianças aparentemente
improváveis que espelham a tendência da vida a interagir para
sobreviver.
É com base nessa capacidade da vida para lidar com os piores apuros que
a dupla faz sua afirmação mais instigante e difícil de provar: a
consciência, em maior ou menor grau, seria um fenômeno comum a todos
os seres vivos da Terra. O planeta de Margulis e Sagan não é mera
biosfera, mas também uma "noosfera" -um mundo repleto de
consciência e vontade, forças que teriam moldado a evolução.
Meras bactérias, dizem eles, conseguem nadar na direção do alimento e
se afastar do ácido. Protozoários "escolhem" os minerais
mais adequados para criar suas carapaças -escolhas minúsculas,
comparadas ao grau de livre arbítrio que se atribui a seres humanos,
mas que, cumulativamente, o teriam criado.
A ênfase nesse avanço consciente da vida durante o processo evolutivo
acaba sendo, talvez, o ponto fraco da obra. Ainda que pequenas decisões
"tomadas" por microrganismos contribuam para sua sobrevivência
individual, Margulis e Sagan não chegam nem perto de postular um
mecanismo que as incorpore na hereditariedade, que é a raiz de toda a
evolução. Mesmo assim, e a despeito de um otimismo exagerado que
parece enxergar a vida na Terra como um fenômeno invencível, pronto
para colonizar as estrelas e imune aos desmandos humanos, o livro toca
as cordas certas da razão e da imaginação: a biologia da obra
transcende o mecanicismo e recupera, de fato, o contato com a vida.
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Imagine um átomo. Na cabeça
logo surge a visão de várias bolinhas de bilhar, de duas cores
diferentes, grudadas, com outras tantas, menores, girando em torno do
centro -algo como um Sistema Solar em miniatura, só que mais
desordenado. Agora, imagine uma molécula de DNA. Duas fitas torcidas
formando uma escada. A função? Um programa de computador que codifica
instruções para fabricar um organismo.
Seja qual for a ciência de escolha, se começarmos a imaginar coisas
que não fazem parte de nosso universo sensorial, intuitivo, descobrimos
que todas as imagens que fazemos delas são "traduzidas" em
conceitos que somos capazes de assimilar. "Não se pode fazer ciência
sem usar uma linguagem cheia de metáforas", defende Richard
Lewontin, um dos biólogos mais celebrados da atualidade, logo na
abertura de seu último livro, "A Tripla Hélice", recém-chegado
ao Brasil.
Como de costume, Lewontin é a personificação da cautela. Na pequena
obra (composta pela adaptação de três palestras que ele havia dado
antes para biólogos e um capítulo de fechamento escrito especialmente
para a publicação), o objetivo é incentivar os cientistas a perder
todo e qualquer resquício de uma postura determinista, em todas as
esferas de análise da evolução e do comportamento dos organismos,
sobretudo humanos.
Para chegar a isso, ele começa do princípio, do método de raciocinar
em ciência, e pede cautela com as metáforas. "Embora não
possamos dispensar metáforas para tentar compreender a natureza",
escreve, "existe um grande risco de que venhamos a confundir a metáfora
com aquilo que realmente interessa." A hipótese Gaia, por exemplo,
nutrida por Lynn Margulis e James Lovelock (leia o texto à esq.), é
vista por Lewontin como uma metáfora fora de controle.
Partindo desse pressuposto, Lewontin dedica o primeiro capítulo a
demolir a noção de que o DNA não passa de um software a partir do
qual os organismos são criados. Com diversos exemplos e a típica
argumentação assertiva, ele mostra que o ambiente, os genes e o acaso
formam um trio em que não há real determinação de um sobre outro.
"O organismo não é determinado nem pelos seus genes, nem pelo seu
ambiente, nem mesmo pela interação entre eles, mas carrega uma marca
significativa de processos aleatórios", diz. "A metáfora da
computação (...) capta alguns aspectos da verdade, mas pode
desencaminhar-nos se a tomarmos ao pé da letra."
No segundo capítulo, é a vez de o ambiente sofrer a investida. Ele
sugere nada menos que uma reformulação da teoria da evolução, embora
reconheça o papel de Darwin de destacar a relação entre organismo e
ambiente, conformada pela seleção natural, como um passo essencial
para o desenvolvimento da biologia moderna. "Mas as condições
necessárias para o progresso em um estágio da história transformam-se
em obstáculos em outros estágios."
Para Lewontin, uma nova teoria satisfatória para explicar a evolução
precisaria enfocar a relação de dupla troca que existe entre organismo
e ambiente, sem colocar um na dependência do outro. Com isso, cai por
terra a premissa dos fãs do ambiente. "O crescente movimento
ambientalista que visa evitar alterações no mundo natural (...) não
poderá proceder racionalmente sob a falsa palavra de ordem
"Salvemos o ambiente". Não existe um ambiente a ser salvo. O
mundo habitado por organismos vivos está sendo constantemente
modificado e reconstruído."
No terceiro capítulo, o biólogo quer colocar um ponto final na noção
de que as relações que formam o ambiente e o organismo são de causa e
efeito, argumentando que é preciso adicionar à mistura uma boa
quantidade de acaso e processos que não necessariamente se relacionam
com funcionalidade ou sobrevivência. Se ainda havia alguma esperança,
para quem chegou até esse ponto do livro, de encontrar uma rota mais
segura para o estudo da biologia, ela parece acabar aqui. O próprio
Lewontin reconhece, no último capítulo: "Os capítulos anteriores
têm uma conotação caracteristicamente negativa", ele escreve.
"Eles se dedicam a explicar por que um enfoque reducionista pode
nos levar a formular respostas incompletas ou a ignorar características
essenciais dos processos biológicos."
Felizmente, ele oferece então uma nova rota. Argumentando não serem
essas novidades para os biólogos, ele diz que é preciso fazer mais:
incluir essas noções nos métodos de trabalho. "O progresso da
biologia não depende de novas conceitualizações revolucionárias, mas
sim de novas metodologias que permitam responder a perguntas em um mundo
de recursos finitos."
Não é muito para compensar o rolo compressor dos capítulos
anteriores, mas, como ele aponta, é mais fácil destruir do que
construir. Montando ou desmontando, porém, uma coisa é certa: Lewontin
é um mestre na arte de intrigar o leitor.
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