O que restou da Floresta com Araucária
 
      

06 de Dezembro de 2002 

O fotógrafo Zig Koch e a jornalista Maria Celeste Corrêa lançaram nesta quarta, em Curitiba, o projeto Araucária: a floresta do Brasil Meridional.

O extenso trabalho fotográfico e de pesquisa que começou a ser desenvolvido em 1998, mas idealizado há mais de 15 anos, resultou em um belíssimo livro de arte, que reúne 200 fotos e informações sobre o ecossistema que um dia já foi maior que a Floresta Amazônica em quantidade de madeira, devido ao diâmetro superior das araucárias e à proximidade entre as árvores, e que hoje não passa de áreas isoladas que juntas somam algo como sete vezes o tamanho de Curitiba.

      Para se ter uma idéia, em sua formação original, o bioma ocupava uma área de 200 mil quilômetros quadrados, que cobriam boa parte do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além da ocorrência em áreas menores em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o que equivaleria a 457 vezes o município de Curitiba. 

A devastação, que começou durante a Primeira Guerra Mundial e perdeu intensidade na década de 60, deixou apenas 1,2% da floresta original e menos de 6% de áreas alteradas, isto é, que sofreram um desmatamento seletivo. Destes, 85% se encontram em propriedades particulares e apenas um pequeno percentual conta com o abrigo oficial das unidades de conservação, em Parques Nacionais como o de São Joaquim, em Santa Catarina.

      O risco de extinção é grande e recairia sobre 3 mil espécies de plantas, mais de 100 espécies de aves e 35 espécies de mamíferos. Segundo Maria Celeste, o que restou não consegue mais sobreviver sozinho, exigindo o trabalho de preservação. 

´O projeto Araucária se dispõe justamente a despertar a atenção da comunidade, do empresariado e do governo para a importância desse ecossistema, que perde espaço nas livrarias e na mídia para outros biomas brasileiros´, afirma. ´

Pois apesar de ser muito admirada, lembrada pelo seu porte e por nomear várias cidades da região, onde inclusive não existem mais do que algumas unidades isoladas, ainda poucos têm a consciência da sua importância, vendo-as como uma fonte de renda.´

      Segundo ela, não é raro encontrar proprietários que vão cortando as araucárias de suas terras de acordo com as suas necessidades financeiras e até trabalhadores sem-terras que invadem áreas particulares onde são preservadas as árvores justamente para extrair a madeira. ´Eu mesma presenciei tal cena em Santa Catarina, quando trabalhava na região. As cerras não paravam de funcionar´, lembra Maria Celeste.

      Pesquisa

      A escassez de informações sobre a Floresta com Araucária levou a dupla a consultar inúmeros profissionais, que ajudaram a escrever a história dessa espécie de árvore que data de 250 milhões de anos. 

O livro passa pela riqueza da flora e da fauna, revelando o modo de vida de seus primeiros habitantes, os índios Kaingáng, e delineando a ocupação do território pelos colonizadores, bem como a exploração comercial da madeira, fator determinante para o seu quase extermínio. É interessante observar as fotos captadas há 15 anos pelo fotógrafo, quando atuava como arquiteto e sobrevoava as regiões para fotografar loteamentos, e compará-las com as imagens mais recentes.

      Também traz depoimentos de pessoas que acompanharam o processo de desmatamento, como Gerdt Hatschbach, curitibano considerado um dos mais respeitados botânicos do mundo, e do madeireiro Alcides Rozzo, que derrubou cerca de 80 mil pinheiros em suas propriedades, mas em contrapartida plantou um milhão de árvores nativas e nove milhões de exóticas. 

´Nossa história poderia ter sido outra, se os madeireiros tivessem pensado diferente´, diz ele. Atualmente, Rozzo mantém 40 homens trabalhando apenas no replantio de árvores e possui hoje uma das maiores áreas contínuas de Floresta com Araucária, localizada em Santa Catarina.



      Paralelamente ao lançamento do livro, foi lançada uma exposição com 45 fotografias e cinco painéis de textos, que ficará exposta até o final do ano no átrio do Cietep. Posteriormente, a exposição será doada para a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), que dará ao projeto um perfil itinerante, utilizando-a em ações voltadas para a educação ambiental

 

 

RETORNAR INDEX SUBIR DOCUMENTO