
Cooperativas têm
conscientizado produtores a liquidar no prazo financiamentos bancários
São Paulo, 12 de Dezembro de 2002 - Cooperativas
têm conscientizado produtores a liquidar no prazo financiamentos bancários. Os
produtores rurais, que chegaram a ser rotulados de "caloteiros" em períodos
anteriores, hoje são considerados pelos próprios agentes financeiros
fornecedores de crédito um dos mais confiáveis setores da economia para se
emprestar dinheiro. O Banco do Brasil (BB), principal banco do País financiador
da produção e comercialização dos produtos agrícolas, encerrará o ano
safra 2001/02 com uma taxa de inadimplência que varia entre 0,5% e 1%. Os índices
estão um pouco acima dos registrados na safra passada, quando a inadimplência
do BB, para os créditos concedidos a produtores rurais, chegou a 0,4%.
"Nossa carteira rural é uma das mais
sadias. A maioria das culturas não sofreu problemas climáticos nos últimos
anos, o que contribuiu para que os produtores honrassem suas dívidas",
afirma Biramar Nunes de Lima, diretor de agronegócios do Banco do Brasil.
Segundo ele, apesar do pequeno avanço na taxa de inadimplência que deve ser
registrado nessa safra, o nível está dentro do esperado. "Uma taxa de até
3% é normal", afirma o executivo.
Produtor capitalizado
Os índices de inadimplência do banco têm
recuado desde a safra 1995/96. Naquela ocasião, a taxa fechou o período em
6,3%, passando para 4,2% na safra seguinte e 3,1% na safra 1997/98 (ver gráfico
abaixo). "A agricultura brasileira passa por um momento de capitalização,
com os preços de algumas commodities registrando fortes elevações",
afirma.
Se por um lado as recentes elevações dos preços
das commodities agrícolas no mercado internacional contribuíram para a queda
da inadimplência, por outro o governo Fernando Henrique teve sua parcela de
colaboração. A partir de 1995 uma série de programas para renegociação da dívida
rural foram lançados, como a Securitização, o Programa Especial de Saneamento
de Ativos (Pesa) - realizado em 1998 - e o Programa de Recuperação das
Cooperativas Agropecuárias (Recoop), feito em 1997.
"Os programas lançados nos últimos anos
deram fôlego aos produtores, já que a dívida que eles possuíam pôde ser
dividida. E esse parcelamento está sendo cumprido", afirma Nunes de Lima.
O diretor do Banco do Brasil informa que antes de 1995 houve um período de
problemas de estabilização econômica que fizeram com que os encargos
financeiros fossem fixados em níveis muito elevados para o setor.
Além dos planos lançados pelo governo, as mudanças
nas taxas de juros cobradas nos financiamentos agrícolas também foi
fundamental, na avaliação de Getúlio Pernambuco, chefe do departamento econômico
da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
"Hoje, as taxas de juros são fixas, o que
colaborou muito para a queda na inadimplência, já que antes era cobrado dos
produtores a TR (Taxa Referencial) mais os juros." Pernambuco diz que nos
últimos dois anos a renda do produtor aumentou, favorecendo o pagamento de suas
dívidas.
O diretor de agribusiness do Unibanco, Ângelo
Vasconcelos, aposta que a queda na inadimplência será mantida para os próximos
anos. "Os produtores estão mais conscientes no que se refere à
necessidade de honrar seus compromissos, já que caso não os cumpram
dificilmente tomarão recursos novamente", diz Vasconcelos, ao informar que
os próprios critérios de liberação de financiamentos do Unibanco estão mais
rigorosos.
Demanda maior
O executivo diz que nos últimos dois anos as
taxas de inadimplência são inferiores a 0,5%. "Depois dos programas do
governo nossos índices de inadimplência estão bem próximos de zero. O que
permite esse situação também o fato da demanda por crédito ser maior que a
oferta, já que podemos selecionar melhor os tomadores", afirma
Vasconcelos.
O trabalho de conscientização dos produtores
rurais no sentido de sempre honrar suas dívidas é rigorosamente cobrado dos
associados da Cooperativa Agropecuária Mourãoense (Coamo). "Formamos a
cultura que conta se paga. Em condições normais de safra, não há motivos
para atrasar os pagamentos", diz Aroldo Galassini, presidente da
cooperativa paranaense.
Para Aroldo Galassini, a alta do dólar nesse ano
teve forte contribuição para uma queda significativa da inadimplência dentro
da própria cooperativa.
"O dólar alto e preço da soja no mercado
internacional fizeram com que a inadimplência da Coamo ficasse em torno de
0,15% nesse ano", diz Galassini, lembrando que por sempre ter um baixo grau
de inadimplência, a Coamo não precisou entrar no Recoop.