
DNA revela índios desaparecidos no
Brasil
Genes achados em esqueletos de
Pernambuco apóiam tese de que diversidade era maior antes da conquista
REINALDO JOSÉ LOPES
ENVIADO ESPECIAL A ÁGUAS DE LINDÓIA
Um grupo de pesquisadores da UFPA (Universidade Federal do Pará)
encontrou uma linhagem de DNA desconhecida nas Américas nos ossos de índios
nordestinos que viveram há quase 2.000 anos. O achado indica que a
diversidade genética dos nativos americanos foi muito maior antes do
descobrimento e pode ajudar a confirmar a hipótese de que povos
biologicamente bem distintos colonizaram o continente.
De acordo com a geneticista Ândrea Ribeiro-dos-Santos, 33, do Centro de
Ciências Biológicas da UFPA, a linhagem de DNA recém-descoberta só
é encontrada hoje no sudeste da China.
"Ela aparece entre os han [principal grupo étnico do país]",
afirmou a cientista à Folha durante o 48º Congresso Nacional de Genética,
em Águas de Lindóia (interior de São Paulo).
As amostras saíram de nove esqueletos encontrados no abrigo rochoso de
Furna do Estrago, em Pernambuco, e têm entre 1.600 e 1.900 anos de
idade.
O material genético em questão é o DNA mitocondrial, encontrado nas
mitocôndrias (as usinas de energia das células).
Diferentemente da maior parte do material genético humano, que fica no
núcleo das células, o DNA mitocondrial não se mistura durante a
fecundação. É transmitido fielmente da mãe para os filhos. Por isso,
serve como uma espécie de "etiqueta" genética das populações
-descendentes de uma mesma mulher o compartilham (veja o quadro abaixo).
No caso dos nativos americanos, até pouco tempo atrás havia quatro
grupos identificados desse tipo de DNA, conhecidos como A, B, C e D. Um
quinto grupo, o X, aparecia só na América do Norte.
Ribeiro-dos-Santos e seus colegas já haviam mostrado que amostras de
DNA mitocondrial de índios amazônicos que viveram de 4.000 a 500 anos
atrás continham o grupo X. Nessa análise, feita em 1996, apareceu também
uma porcentagem de amostras misteriosas, que não pertenciam a nenhum
grupo conhecido.
Com os índios pernambucanos, contudo, além da presença do grupo X,
apareceu também um novo grupo. A comparação com outros povos do
planeta revelou que se tratava do grupo M, presente na China.
No Brasil, esse grupo poderia ter se perdido após a conquista -que
eliminou 95% da população indígena original. A pesquisadora calcula
que pelo menos 37% da diversidade genética do DNA mitocondrial das Américas
sumiu com a chegada dos europeus.
A descoberta foi comemorada pelo antropólogo Walter Neves, da USP. Ele
é o principal defensor de um modelo de povoamento da América que
incluiria dois povos de aspecto bem distinto: um com traços que lembram
os atuais africanos e australianos e outro com traços mongolóides, que
teria dado origem aos índios de hoje.
Medições em crânios americanos com mais de 8.000 anos, entre eles a célebre
Luzia (de 11.500 anos), apóiam a tese de Neves. Mas, até agora, os
geneticistas não haviam encontrado evidências a favor dela -os índios
atuais são geneticamente parecidos e nada levava a crer que pudesse ter
sido diferente no passado.
O geneticista de populações Sandro Bonatto, da PUC (Pontifícia
Universidade Católica) do Rio Grande do Sul, confessou que não
acreditava que um novo grupo mitocondrial fosse aparecer.
"Claro que houve perda da diversidade. Mas a gente imaginava que,
se uma determinada tribo perdia uma linhagem, seria improvável que a
mesma linhagem se perdesse em todas as outras tribos do
continente", afirmou Bonatto, co-autor de um estudo recente que
usou o DNA mitocondrial para estimar em 20 mil anos a chegada do homem
à América.
"Por isso, essa nova linhagem é inesperada, apesar da perda da
diversidade. O difícil é dizer qual será o efeito disso na reconstrução
do povoamento", afirmou o geneticista gaúcho.