
Hendrik Schön, dos Laboratórios Bell,
cotado para o Prêmio Nobel de Física, teria manipulado dados em 16
trabalhos
"Gênio" tecnológico é demitido por fraude
Associated Press/Bell Labs
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Hendrik Schön,
demitido por fraude dos Laboratórios Bell, EUA |
CHARLES ARTHUR
DO "THE INDEPENDENT"
Alguns cientistas achavam que Jan Hendrik Schön estava destinado ao Prêmio
Nobel de Física. Entre os vários trabalhos de impacto que ele
publicara em apenas três anos -no campo da nanotecnologia, onde um
punhado de publicações anuais já significa alta produtividade-, um
relatava a criação de um transistor de uma molécula só. Ele
permitiria aos computadores encolher milhares de vezes e revolucionar o
mundo.
Mas agora esse alemão de 32 anos, ex-pesquisador dos Laboratórios
Bell, em Nova York, está desacreditado. Seu trabalho é efetivamente
inválido. Ele foi acusado do maior crime do mundo científico:
falsificação e manipulação de dados.
Sem poder montar uma defesa verossímil, ele foi demitido por má
conduta científica anteontem pela Lucent, empresa proprietária dos
Laboratórios Bell, após uma investigação de quatro meses. Foi a
primeira demissão do gênero nos Bell em 77 anos.
Um comitê de investigação montado pelo laboratório concluiu que Schön
havia falsificado dados em 16 de 24 trabalhos publicados entre 1999 e
2001.
A pista que o denunciou: dois artigos diferentes, um na revista "Nature"
e um na "Science", tinham um gráfico idêntico. Mas deveriam
ser "sobre materiais diferentes em condições diferentes",
disse Carl Ziemelis, editor de ciências físicas da "Nature"
em Londres. "E não se tratava de uma reapresentação de dados de
um outro estudo." Schön alegou que tinha só cometido um erro ao
escrever o artigo e mandou para a "Science" um gráfico
revisado.
No entanto, em abril deste ano, alguém dentro dos Bell contatou Lydia
Sohn, uma professora de física em Princeton, e sugeriu que havia algo
errado com os dados de Schön. Juntamente com Paul McEuen, da
Universidade Cornell, ela achou o que chama de "a prova do
crime".
A investigação revelou múltiplos exemplos, entre os artigos científicos
publicados por Schön, nos quais os gráficos eram os mesmos, ainda que
tivessem o objetivo de mostrar eventos diferentes. Quando pediram a Schön
que mostrasse os dados originais, ele disse que não os guardara.
A casa caiu
O edifício inteiro começou a ruir, até que a derrocada culminou
ontem, com pedidos das revistas científicas que publicaram os trabalhos
de Schön, como a "Nature e a "Science", para que ele se
retratasse. Efetivamente, uma admissão de que os trabalhos não eram
verdadeiros, nem nunca poderiam ser.
Isso lançou uma sombra sobre os Laboratórios Bell, uma instituição
de pesquisas que deu ao mundo o transistor, o laser e o sistema
operacional Unix, bem como dezenas de invenções ao longo dos anos -mas
que agora luta para justificar seus orçamentos astronômicos enquanto
sua empresa-mãe, a Lucent, demite milhares.
Schön parecia um desses raros gênios que a ciência produz de tempos
em tempos. A revista "Technology Review", do MIT
(Massachusetts Institute of Technology), o apontou neste ano como uma
das cem pessoas abaixo dos 35 anos cujo trabalho e idéias mudariam o
mundo.
"Eu vi alguns de seus trabalhos sendo apresentados para o público
alemão", disse um professor. "Lá eles batem nas cadeiras em
vez de aplaudir. E as batidas duravam." Agora, é completamente
diferente. Até a secretária do departamento de optoeletrônica da
Universidade de Cambridge, Reino Unido -que Schön nunca visitou e com
cuja equipe ele nunca trabalhou- já ouviu falar nele e reage a seu nome
como alguém que sente um mau cheiro.
Schön, que não pôde ser contatado durante esta semana, insistiu que não
fraudou nada.
Num apêndice do relatório de 127 páginas publicado pela comissão de
inquérito da Lucent, ele disse: "Eu devo admitir que cometi vários
erros em meu trabalho científico, o que eu lamento profundamente. No
entanto, gostaria de ressaltar que todas as publicações científicas
que eu preparei foram baseadas em observações experimentais. Eu
acredito que esses resultados serão reproduzidos no futuro."
Algumas pessoas têm também questionado o papel na história de Bernard
Batlogg, que levou Schön aos Bell em 1998 e era seu orientador lá. Ao
ser questionado sobre o papel no caso, Batlogg, que hoje mora na Suíça,
respondeu: "Se sou passageiro num carro que avança o sinal
vermelho, isso não é minha culpa".
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