Começam testes para obtenção de sílica a partir da casca do arroz


 
13/12/2002

 Está pronto para entrar em funcionamento o projeto demonstração de aproveitamento da sílica a partir da casca do arroz, em Santa Rosa, Rio Grande do Sul - estado responsável por 50% do volume de cereal produzido no Brasil, ou cinco milhões de toneladas/ano. "Não poderíamos testar o processo em outro lugar", diz Milton Ferreira de Souza, professor titular de Física da USP São Carlos e descobridor da técnica, que contou com cerca de R$ 500 mil em recursos da União Européia, além da ajuda da Fundação de Apoio à Universidade do Rio Grande do Sul para a empreitada.

      A principal motivação para a pesquisa, que começou em 1997 no Instituto de Física e Química da universidade e contou, mais tarde, com o apoio da Fapesp, era solucionar um grave problema ecológico nas áreas de beneficiamento, já que a casca do arroz é de difícil degradação. "O produto fica armazenado e, à medida que é comercializado, as cascas vão sendo retiradas", conta o pesquisador, explicando que, em seguida, elas são queimadas para manter os silos aquecidos. O resultado desta queima é a sobra de sílica, responsável por 20% da composição em peso da casca do arroz, além de carvão, potássio, cálcio, fósforo e magnésio, entre outros componentes. Segundo o professor, a primeira é responsável pela causa da silicose, uma doença do sistema respiratório que mina a elasticidade do pulmão.

      Espaço no mercado

      A solução vislumbrada por Milton foi o aproveitamento do composto químico no mercado brasileiro - que importa ou usa um equivalente feito a partir da areia por grupos multinacionais locados no País - toda a sílica necessária para a produção de pasta de dente, sabonetes, pneumáticos, concreto de alto desempenho e, até pouco tempo, condimentos à base de tomate, como catchup. Para isso, o processo proposto por Milton consiste em tratar a casca do arroz, antes da queima, de forma que todas as impurezas sejam removidas e que, durante o aquecimento obrigatório para a conservação do produto, sobre apenas a sílica - pura e não mais contaminada pela presença dos outros componentes. Para isso, a casca é lavada e colocada em um autoclave (maquinário parecido com uma panela de pressão), com água e ácido. "Quanto mais ácido, mais pura a sílica", explica Milton. "Bastam 30 minutos de aquecimento, a 150ºC. Em seguida, é só secar e queimar - em um forno de leito fluidizado ou em termelétricas, gerando energia", diz o professor. Depois da lavagem, o adubo volta para a lavoura.

      Fonte de renda

      De acordo com Milton, o aproveitamento da sílica representa inúmeros benefícios. "Para os produtores é uma forma de aumentar seu rendimento", diz, estimando que o produto possa valer - em sua forma mais pura, para a indústria química, por exemplo - algo em torno de US$ 250 o quilo. "Em cada tonelada extraímos 200 quilos do produto que, atualmente, são jogados no lixo. É justamente essa quantidade que estamos prontos para operar em Santa Rosa, com um grau de pureza que pode chegar a valer cerca de R$ 700 a tonelada."

      Para a indústria, significaria a redução das importações e a possibilidade de melhorar e ampliar a oferta de produtos. "No caso do concreto, por exemplo, o uso da sílica aumenta em dez vezes a resistência ao peso - que passa de 20 Mpa do produto tradicional para 200 Mpa (medida de resistência)", conta Milton, prevendo os desdobramentos que sua invenção pode ter. "Estamos tentando obter a supersílica."

      O professor explica que a sílica obtida atualmente é do tipo micro, mas que grande parte das plantas, incluindo a do arroz, são verdadeiras usinas de nanomateriais. "O que estamos pesquisando é um processo que produza sílica com partículas nanométricas separadas, cuja decomposição resultaria em um pó muito fino", explica. A pesquisa deve terminar em sete meses. A nanosílica, composta com o polímero, poderia resultar numa carroceria de plástico com resistência suficiente para suportar altos impactos e reciclável. "Os testes mostraram que uma matriz suporta até dez reciclagens", conta o professor, lembrando a demanda pelo fim da poluição.

     
(Gazeta Mercantil/Página C5)(Gabriela Gutierrez Arbex)

 

 

 

 

 

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