
Biodiversidade
e empresa brasileira
13/12/2002
A
biodiversidade é um assunto de capital importância para a economia
brasileira e, ao contrário do que muita gente pensa, seu equacionamento
é urgente. Isso porque, segundo pesquisadores mais exigentes, da mesma
forma que o mundo passará um dia a prescindir do petróleo, a
biotecnologia talvez possa prescindir no futuro do material genético,
cuja única fonte atual é nossa biodiversidade. Embora hoje possa
parecer exagero, esse enorme patrimônio genético que o País dispõe
hoje poderá, então, virar frustração nacional, como ocorreu no século
passado com a Hevea brasiliensis, a seringueira nativa que teve mudas
transportadas e cultivadas na Malásia, criando lá fora as riquezas
imaginadas para a Amazônia.
A biodiversidade compreende toda a
variedade de vida existente no mundo, incluindo variedades genéticas de
espécies encontradas na flora, na fauna ou em microorganismos, bem como
as funções ecológicas desempenhadas por tais organismos nos
respectivos ecossistemas. Princípios ativos exsudados ou extraídos de
espécies vegetais, utilizados desde sempre em comunidades primitivas,
definem todo um arsenal terapêutico e fitossanitário que hoje é,
predominantemente, industrializado pelos países de primeiro mundo para,
a seguir, nos exportarem na forma de medicamentos ou defensivos agrícolas.
O faturamento desse mercado no mundo ultrapassa a casa de centenas de
bilhões de dólares/ano.
O valor patrimonial da biodiversidade
brasileira está sendo levantado pelo Ipea em parceria com o Ibama.
Preliminarmente se estima um valor não inferior a US$ 2 trilhões, ou
seja, quatro vezes o PIB do Brasil, incluindo-se aí os principais
`serviços oferecidos` pela nossa biodiversidade, tais como a `oferta`
de oxigênio e água imprescindíveis à subsistência do primeiro mundo
em sua faina poluidora, além do banco de dados sobre princípios ativos
necessários para a produção de medicamentos, alimentos etc.
Calcula-se que o Brasil possui o maior
patrimônio biológico do mundo, representado por 23% de todas as espécies
de plantas, fungos e animais do planeta. Embora ainda não exista um
inventário biológico confiável sobre nossa fauna ou flora, já se
admite que nem 1% da biodiversidade brasileira é conhecida, fato este
que tem trazido desconfortáveis conseqüências para delegações
brasileiras no âmbito de negociações internacionais nessa área.
Visando assegurar a conservação da diversidade biológica, a utilização
sustentável dos seus elementos e a partilha justa e eqüitativa das
vantagens provenientes da utilização dos recursos genéticos, em 1992
foi aberta para assinaturas a Convenção sobre a Diversidade Biológica,
conhecida como ECO-92.
Constituída como o primeiro acordo
mundial sobre diversidade biológica, essa Convenção estabelece que a
conservação da biodiversidade constitui uma preocupação comum da
humanidade e é parte integrante do processo de desenvolvimento das nações.
Para realizar os seus objetivos, a ECO-92 definiu uma nova parceria
entre as nações, visando a cooperação científica e tecnológica, o
acesso a recursos financeiros e genéticos e a transferência de
tecnologias.
A informação contida na biodiversidade
brasileira, pelo seu significado econômico e social em nível mundial,
constitui um dos maiores patrimônios nacionais e, como tal, merece
constante preocupação de toda a sociedade. Como a exploração
comercial dessa riqueza não pode ser conduzida de forma desregrada,
preliminarmente o governo federal disciplinou a matéria através de
Medida Provisória, que vem sendo discutida e deverá ser, ainda,
bastante aperfeiçoada.
De acordo com essa norma legal, uma
instituição estrangeira só poderá ter acesso ao patrimônio genético
de espécies nativas do Brasil (plantas, animais ou microorganismos) sob
a coordenação e responsabilidade de uma entidade de pesquisa nacional.
A MP define regras para acessar o patrimônio genético nacional,
protege conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade e cria
um conselho responsável pela fiscalização das atividades pertinentes
à matéria.
O arcabouço legislativo nacional assim
definido é abrangente, mas ainda é carente num ponto de extrema relevância:
o que mais interessa ao País é transformar a informação contida na
biodiversidade sustentada em mercadoria fabricada localmente, para
resultar em efetivo desenvolvimento tecnológico, na criação de
empregos pela indústria e na conseqüente geração de renda nacional
em toda a cadeia produtiva. Os incentivos aos centros de P&D
brasileiros para atuarem nessa área são de grande importância, mas se
tal medida não for complementada por instrumentos que viabilizem a
transferência dessa tecnologia para empresas industriais, instaladas e
operando no Brasil, corremos o risco de propiciar a evasão dessa
riqueza para o exterior.
Ao restringirmos nossa política pública
ao simples monitoramento de P&D, propiciamos a canalização direta
das informações contidas em nossa biodiversidade para empresas
localizadas no exterior que, lá fora, fabricarão os produtos farmacêuticos,
defensivos agrícolas e cosméticos para nos exportarem a seguir,
apropriando-se de todo esse imenso valor agregado.
Para que se torne realidade um efetivo
projeto de Nação, é necessário apostar na empresa brasileira,
viabilizando-a fiscal e financeiramente para cobrir os riscos da
pesquisa e da produção exploratória nessa área, bem como
estimulando-a através de outros mecanismos de política tecnológica,
industrial e de comércio exterior. A aposta na empresa privada como
motor da inovação tecnológica tem sido a receita infalível seguida
pelo primeiro mundo em suas práticas internas, e razão de seu sucesso
global.
* Vice-presidente da Associação
Brasileira das Indústrias de Quimica Fina (Abifina)