Conceito ambiental surge em condomínio da Barra
 
      Rio, 31 de Maio de 2002 - Recursos para recuperação do ecossistema somam a R$ 200 milhões. Em lugar da ocupação desordenada, surge o desenvolvimento sustentável. Após sofrer por 30 anos com avanço imobiliário agressivo, o bairro da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, começa a caminhar para o lado oposto. Será lançado, no próximo mês, o Condomínio Península Green, empreendimento avaliado em R$ 240 milhões e que reuniu as incorporadoras Gafisa e o Grupo Multiplan, empresa responsável pela construção de alguns dos maiores shoppings do País, entre eles Barrashopping e Morumbi Shopping.

      Oito prédios, piscina, bar, playground, sáuna, sala de ginástica e três vagas na garagem. Todos os atributos que convêm a um megacondomínio do bairro estão presentes. O diferencial do empreendimento, no entanto, está na forma de ocupação. A urbanização do terreno acontece após 15 anos de investimento na revitalização da Península. "Invertemos o ciclo imobiliário da cidade. Antes, construía-se e então reparavam-se os danos. Acredito que este empreendimento será o primeiro passo para uma mudança de postura do setor", afirma Francisco Pedroso, diretor Geral da Gafisa.

      Terreno era degradado

      Em 1985, a construtora Carvalho Hosken adquiriu o terreno da Península, de 780 mil metros quadrados, já degradado. "Na época havia apenas fragmentos do que um dia havia sido um manguezal e nenhum testemunho de restinga", lembra Carlos Fernando Carvalho, presidente da Carvalho Hosken. Desde então, cerca de R$ 200 milhões foram aplicados na região. O resultado não ficou restrito apenas à recuperação do manguezal e da restinga nativa. Segundo Fernando Chacel, arquiteto e paisagista responsável pelo projeto, foram catalogadas cerca de 142 novas espécies de aves no local. "Estas espécies haviam desaparecido em função das sequentes queimadas e desmatamento", explica Chacel.

      Consolidada a recuperação ambiental, Carvalho achou que a região já estava apta a ser urbanizada. Após quase um ano de negociação, 80 mil metros quadrados foram vendidos à Gafisa e ao Grupo Multiplan. No terreno, serão erguidos oito prédios que vão ocupar 10% de uma área de 58 mil metros quadrados. O projeto final está avaliado em, aproximadamente, R$ 240 milhões.

      Venda rápida, preço alto

      A aceitação do empreendimento empolga os executivos. No evento que marcou o pré-venda, realizado na última terça-feira, 90% das unidades disponíveis foram reservadas. "É um índice excelente. Esta taxa de interesse demonstra a vontade da população em buscar outro conceito de moradia", afirma Marcello Barnes, diretor do Grupo Multiplan. Segundo o executivo, 50% dos apartamentos foram adquiridos por moradores. A outra metade, afirma Barnes, coube a investidores. "A Barra ainda continua com alto valor atrativo. Um imóvel similar na Zona Sul tem o preço até 50% superior", completa.

      Durante o processo de revitalização da Península, Carvalho contou com a consultoria de especialistas no meio ambiente. Entre eles o biólogo David Zee, professor do Departamento de Oceanografia da Universidade Estadual do Rio (Uerj) e diretor de Engenharia Ambiental da Universidade Gama Filho (UGF). Zee, que ainda acumula a vice-presidência da Câmara Comunitária da Barra, aponta que a iniciativa do executivo ainda é um primeiro passo para um grande desafio: "O empresário conseguiu enxergar que a não preservação do meio ambiente afetará o próprio bolso. Se ele não iniciar uma ocupação integrada ao ecossistema local, o imóvel vai-se desvalorizar, pois o grande diferencial da Barra sempre foi a proximidade com a natureza".

      Comunidade fez sua parte

      Para o biólogo, governos, municipais e estaduais, são os principais responsáveis pela degradação do bairro. "É uma irresponsabilidade licenciar terrenos se não há infra-estrutura. Apesar de concentrar grande parte da renda do município, a Barra não conta com estação de tratamento de esgotos estadual. Além disso, a rede de saneamento básico e o sistema de recolhimento de lixo são extremamente precários", destaca. "O que depende da sociedade está em execução. O Condomínio Península é um exemplo de que o empresariado também começa a adquirir consciência. Resta agora o poder executivo, que ainda capenga", afirma.

      Segundo Zee, 60% das doenças da região da Baixada de Jacarepaguá, que reúne os bairros da Barra da Tijuca, Jacarepaguá e Recreio dos Bandeirantes, são oriundas da água suja. "Os governantes têm de começar a prestar atenção no bairro. Se o Rio é vitrine do Brasil, a Barra é a vitrine do Rio", conclui o biólogo.

      (Gazeta Mercantil/Página C5)(Mariana Procópio)

 

 

 

 

 

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