
Índios ajudam pesquisa a queimar várias etapas de pesquisa
Manaus, 18 de Junho de 2002 - Os
cientistas têm no conhecimento dos índios e caboclos sobre a
biodiversidade amazônica uma fonte para novas descobertas e
aprimoramento de produtos de consumo em larga escala. Tecnologias
desenvolvidas pelos habitantes das florestas e rios reduzem
procedimentos científicos e geram ganhos em tempo e dinheiro a instituições
de pesquisa. "Os índios e os caboclos são um arquivo vivo de
dados sobre a utilidade da biodiversidade", reconhece o cientista
francês Charles Clement, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas
da Amazônia (Inpa).
Ao longo de 25 anos, Clement se
especializou em práticas agronômicas em sistemas agroflorestais para
frutos e palmito. Ele disse que, na sua área, os índios desenvolveram
sofisticadas tecnologias de melhoramento genético, manejo e
desenvolvimento de produtos que só resta aperfeiçoá-las às
necessidades do consumo em larga escala, a principal característica do
mercado moderno.
Clement cita o exemplo da pupunheira, que
produz a pupunha. Essa palmeira foi domesticada pelos índios em um período
estimado de cinco a dez anos atrás e devido à essa característica
possui tolerância ecológica muito mais ampla que qualquer um de seus
prováveis ancestrais. O volume de polpa do fruto domesticado em relação
a espécies menos desenvolvidas ultrapassa os 1000%, segundo o
cientista.
Na Amazônia, o manejo ecológico e a
seleção genética criaram frutos de pupunha para diferentes tipos de
utilização, possivelmente de acordo com as necessidades dos habitantes
das áreas em que foram desenvolvidos. Na região do alto Solimões, na
fronteira do Brasil com a Colômbia, é cultivada uma espécie que
produz frutos secos, próprios para a fabricação de farinha de consumo
humano ou animal. Do mais oleoso, com maior incidência no Médio Solimões,
os índios obtinham óleo comestível. Nas proximidades de Manaus se
desenvolveu um fruto mais apropriado ao consumo direto.
Camu-camu, exemplo contrário
O cientista explica que, quando a planta
não é domesticada ou pelo menos semi-domesticada, esses conhecimentos
são adquiridos em etapas da investigação científica no decorrer de vários
anos. "Os índios desenvolveram essas tecnologias por meios da seleção
de sementes, de solos, da rigorosa observação do meio ambiente".
No caso camu-camu, arbusto que produz uma
fruta com teor de Vitamina C 60 vezes maior que o do limão, os
pesquisadores terão que criar tecnologias de melhoramento genético, de
manejo e de desenvolvimento de produtos para então inseri-lo no
mercado. "O camu-camu é ácido e por isso não é utilizado como
alimento pelos índios, logo eles não produziram informações sobre a
sua utilização", explica o cientista Kaoru Yuyama, doutor em
agronomia e fruticultura tropical.
A domesticação de uma planta, mesmo sob
o aparato científico moderno, corresponde à montagem de um quebra-cabeça.
O camu-camu em estado silvestre produz até 12 toneladas por
hectare/ano. Cultivado, atinge a uma produção máxima de 3 toneladas
por hectare/ano, sem que ocorra diferença de produtividade entre as
plantas adubadas e as não adubadas. Para selecionar as sementes das
melhores árvores, o cientista precisa fazer incursões "no
escuro" em vários lugares.
O conhecimento dos índios e caboclos
também é substancial na catalogação das plantas medicinais. Informações
de comunidades tradicionais ou correntes no meio urbano sobre prováveis
benefícios terapêuticos de plantas são absorvidas na Coordenação de
Pesquisas em Produtos Naturais (CPPN) do Inpa como ferramenta para a
investigação científica. A coordenadora do CPPN, Maria da Paz Lima,
atesta que é alta a taxa de comprovação, em laboratório, da eficácia
medicinal de determinadas plantas.
(Gazeta Mercantil/Página C9)(Wilson
Nogueira)