
Miniusina
integra produção de álcool com a pecuária
São Paulo, 26 de Junho de 2002 - Projeto
prevê uso do biogás, biofertilizantes e proteção do solo. Imagine
uma miniusina que produza 40 mil litros de álcool por dia, 3.630
toneladas de produtos agrícolas por ano e ainda permita a criação de
2,8 mil cabeças de gado. Tudo em um único espaço, em torno de 4.310
hectares, onde nenhum potencial deve ser perdido, mas reprocessado e
reciclado. Esta é a proposta dos professores Geraldo Lombardi e Romeu
Corsini, da Escola de Engenharia de São Carlos , da Universidade de São
Paulo (USP), que estudam a integração entre indústria, pecuária e
agricultura em torno da produção do álcool em um único complexo,
batizado por eles de Miniusinas de Álcool Integradas (Muais).
No projeto dos professores, segundo eles
inédito no Brasil e no mundo, a palha de cana-de-açúcar é usada na
proteção do solo contra ervas daninhas e destina-se também à produção
de vapor para geração de eletricidade e à alimentação do gado. Já
o biogás para queima na caldeira e o biofertilizante para uso no
canavial tem sua origem nos dejetos dos animais, criados em confinamento
parcial, cinco meses fora com rodízio de pasto, o que permite duplicar
o número de gados, evita estresse, reduz a incidência de doenças e
eleva sua qualidade. "Cria-se um contexto altamente ecológico,
eficiente e rentável, tornando uma pequena alcooleira, produtora de 40
mil litros por dia, mais produtiva que uma grande de 220 mil litros diários,
que ocupa um terreno 45% maior", explica Lombardi.
Plantio de cana e sorgo
Segundo o professor, a combinação do
cultivo de cana-de-açúcar à plantação de sorgo sacarino, planta com
quase três metros de altura da mesma família das gramíneas de caule
doce e suculento, ainda permite aumentar para 10 a 12 meses o tempo de
trabalho anual da miniusina, ante os oito meses nas usinas
convencionais, uma vez que o sorgo cresce na entressafra da cana.Os
caules da cana e do sorgo produzem caldo e bagaço, explica o professor
da USP. O caldo fermentado pode originar 1.130 toneladas por ano de
levedura desidratada, altamente rica em proteína. O bagaço, 40% da
palha seca e o biogás (natural na entressafra) são queimados numa
caldeira para a produção de vapor superaquecido a 450ºC. O vapor
aciona um turbogerador de alta potência, com saída de 6,36 megawatts
(MW) de energia elétrica excedente a um custo de US$ 6,58 o MW por hora
produzido, que se constituiria na segunda fonte de receita da Muai - no
projeto dos professores, 45% da receita é produzida pelo álcool e 55%
pelo restante.
Com toda a sua produção, a Muai não
apenas atenderia às necessidades básicas de uma cidade de 17,3 mil
habitantes, caracterizando-se como pólo de desenvolvimento autônomo e
estratégico, como ainda poderia gerar 131 empregos fixos, sendo 25%
deles terceirizados.
Para avaliar a viabilidade econômica do
projeto, os professores contaram com o apoio da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que investiu cerca de R$ 56
mil na visita do professor cubano Pedro Antonio Rodrigues Ramos, do
Instituto Superior Politécnico José Antonio Echeverria, de Havana.
Depois de estudar as miniusinas durante um ano, até o final de 2001,
Ramos constatou que para substituir a importação de 600 mil barris de
petróleo por dia pelo Brasil seria preciso instalar 3.870 Muais.
Juntas, elas seriam responsáveis por uma produção em torno de 155
milhões de litros de álcool por dia, potência térmica equivalente à
do petróleo importado, e tornariam disponíveis 20.100 MW em
eletricidade excedente, produção equivalente a quase duas usinas de
Itaipu. Seriam economizados US$ 6,9 bilhões anuais em importações e
US$ 5,8 bilhões arrecadados em impostos diretos, totalizando redução
de US$ 12,7 bilhões anuais.
Retorno do investimento
A instalação de cada Muai exige um
investimento de US$ 11,8 milhões, segundo seus idealizadores. O
professor Lombardi afirma que, com 50% financiado pelo Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o tempo de retorno de
investimento é 5,3 anos. "Os bancos nacionais financiam usinas com
até sete anos de retorno. No caso de alcooleiras, a produção diária
mínima é de 260 mil litros por dia, como a de Caldema-Sertãozinho, a
um custo de aproximadamente US$ 50 milhões, ou seja, quatro vezes o da
Muai", compara o professor.
(Gazeta Mercantil/Página C6)(Christiane
Hato)