BIOPIRATARIA, UMA QUESTÃO (QUASE) INSOLÚVEL
No
final do ano passado, Comissões do Senado Federal aprovaram um
projeto de lei destinado a regulamentar o artigo 225 da Constituição
que trata do acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento
tradicional associado. Esse procedimento preliminar da Câmara
Alta do país foi fartamente noticiado e, como não podia deixar
de ser, trouxe consigo a discussão sobre a chamada
"biopirataria".
Como
a Amazônia concentra a maior diversidade biológica do Brasil e
talvez do planeta, a discussão do tema sempre forte ligação com
a região, embora a mata Atlântica e o Pantanal detenham também
uma exuberante multiplicidade de espécies. Nesse contexto
contudo, quando o tema é biodiversidade amazônica, o INPA e seus
pesquisadores entram como principais protagonistas desse cenário
muito real embora seja quase sempre apresentado como revestimentos
míticos e místicos.
A
questão é de extrema relevância mas sua discussão precisa ser
despida do componente emocional que produz desde argumentos de
base ideológica até afirmações curiosas sobre o poder
milagroso das plantas amazônicas, formando um binômio filosófico-imaginário
totalmente desprovido de qualquer comprovação científica. Em
verdade, se esse poder terapêutico da biota estivesse próximo da
realidade, a média de vida dos povos da região seria similar à
dos habitantes dos países de alto desenvolvimento tecnológico.
É
verdade que muitas plantas amazônicas e brasileiras contêm princípios
ativos potencialmente eficazes no tratamento de certas patologias
e não se pode esquecer que a Humanidade deve essas descobertas às
populações nativas e tradicionais. Há, evidentemente, um forte
sinalizador de uso dessas substâncias pela
indústria farmacêutica mas, para que esses compostos
sejam realmente transformados em remédios devidamente incluídos
no elenco de medicamentos comercializados no mundo todo, ainda vai
ser necessário o uso de muita ciência, de muita experimentação
e de muita tecnologia.
Essa
conexão direta entre saúde e biota faz emergir um outro
componente que precisa ser melhor compreendido, pois aglutina de
forma quase indissociável, recursos biológicos e produção de
medicamentos pela indústria farmacêutica. Associar de forma
determinística plantas e remédios, além de ser um
posicionamento equivocado por sugerir uma única utilidade para a
biota, ainda situa a discussão em um terreno onde se exacerbam as
questões emocionais e ideológicas.
É
dentro dessa ambiência passional que surgem as denúncias sobre
prática de "biopirataria" tendo como alvo principal as
instituições oficiais de ensino e pesquisa. Essas acusações,
além de revelar um certo despreparo intelectual dos denunciantes,
ainda fazem ressurgir uma prática que se julgava definitivamente
abolida, pelo menos nos meios intelectualizados: de o denunciado
Ter que provar sua inocência.
O
termo "biopirataria", por ainda não Ter uma definição
jurídica formalizada, vem sendo utilizado como veículo para uma
deduragem inconseqüente e ignominiosa, que acaba criando n os
pesquisadores um certo receio para exercer em sua plenitude as
tarefas pertinentes às suas atividades profissionais. Essa agressão
descabida, além do efeito deletério sobre a investigação científica,
que é necessariamente uma atividade de globalizada direcionada
para o conforto e bem estar da Humanidade, ainda provoca danos
morais em pessoas que optaram pelo estudo em vez de se dedicar à
acumulação de riqueza em atividades intelectualmente menos
nobres.
Na
Amazônia especialmente, onde as instituições ainda estão
inadequadamente instrumentalizadas e o número de pesquisadores
qualificados é insuficiente para atender a demanda por
conhecimento científico, os convênios, os acordos e as parcerias
nacionais e internacionais são uma necessidade imprescindível.
Na
realidade, a experiência mostra que para retirar material biológico
da Amazônia não há necessidade de grandes aparatos ou de
estruturas formais. Na era da biotecnologia e da engenharia genética
tudo que se precisa para reproduzir uma espécie são algumas células
facilmente levadas e dificilmente detectadas por mecanismos de
vigilância e segurança. O bolso, a caneta, o frasco de perfume,
os estojos de maquiagem, os cigarros, os adornos artesanais, as
dobras e costuras das roupas, enfim, há milhares de maneiras de
esconder fragmentos de tecidos, culturas de microorganismos, minúsculas
gêmulas ou diminutas sementes, sem que seja necessário sequer o
uso de muita criatividade. Além disso não se pode esquecer que o
comércio legalizado de plantas medicinais e a indústria de
fitoterápicos disponibilizam livremente fragmentos e extratos
vegetais que podem ser adquiridos nos mercados e feiras e levados
sem nenhuma restrição.
Quanto
às práticas delituosas ou criminosas, elas podem ser praticadas
em qualquer ponto dos cinco milhões de quilômetros quadrados da
Amazônia que estão disponíveis para receber a visita autorizada
de vários tipos de pessoas, entre as quais se incluem turistas,
empresários, estudantes, missionários de várias seitas e religiões,
jornalistas de periódicos do mundo inteiro, equipes de cinema e
televisão, dirigentes e membros de ONGs nacionais e
internacionais, agentes comerciais, curiosos, contrabandistas,
narcotraficantes, etc. E existem ainda as visitas não autorizadas
que podem transpor os mais de 13 mil quilômetros de fronteira
terrestre e oceânica onde a fiscalização é quase nula, embora
seja heróica onde é exercida. Adicione-se a esse contigente de
peregrinos constantes e eventuais, os cerca de 19 milhões de
habitantes da região que são absolutamente livres para ir e vir
e teremos um universo de possibilidades onde o combate à essa prática
lesiva aos interesses nacionais, se torna uma tarefa inexequível.
"Biopirataria",
portanto, por ser uma atividade idealmente ilegal e moralmente
incorreta, incorpora a característica de questão puramente
policial, cuja única forma efetiva de evitar é "fazer
primeiro". Para isso no entanto é preciso investir
pesadamente em Ciência e Tecnologia na região, e esse
investimento deve começar pelo fim das discrepâncias regionais
na alocação de recursos.
Hoje
apenas pouco mais de 1% dos recursos para financiamento de
pesquisa e pagamento de bolsas é destinado à Amazônia. Para
minimizar essa distorção é necessário adotar como princípio
de justiça para a distribuição de recursos, critérios de
proporcionalidade que tanto pode ser a da relação entre população
e número de bolsistas, como a razão entre o PIB regional e o
volume de recursos destinados à pesquisa.
Não
se pode esquecer também que "biopirataria" não é uma
questão exclusivamente amazônica. A Mata Atlântica por exemplo,
possui enorme diversidade biológica, as regiões sul e sudeste
recebem a maior parte do bolo de recursos para pesquisa e ensino e
isso não é suficiente para criar uma ambiência de honestidade
capaz de impedir que saiam de lá remessas ilegais de material
biológico para o exterior.
Há
ainda um outro componente dessa difícil questão, sobre o qual é
preciso refletir. Parece claro e perfeitamente aceitável até
mesmo pelos mais empedernidos partidários do xenofobismo, que os
recursos naturais da Amazônia precisam ser exportados para gerar
riqueza e bem estar para as populações locais. Para os mais lúcidos
a inserção da Amazônia no
comércio internacional é imperiosa, não sendo admissível que
ela fique restrita a vender seus produtos apenas para o mercado
interno. Até porque haveria necessidade de proibir os empresários
do centro-sul de revender produtos
para o mercado externo num processo triangular irracional, indesejável
e que não resolve absolutamente nada.
Aceita
a comercialização dos produtos como uma atividade econômica e
socialmente desejável, não se pode esquecer que os compradores
externos podem mandar analisar os produtos que adquirirem por
compra e sobre os quais passam a exercer o direito de propriedade.
Há
muitos exemplos a serem considerados nesse caso. Como evitar, por
exemplo, que os pigmentos dos peixes ornamentais que fazem parte
da carteira de exportação sejam investigados em laboratórios de
pesquisa de qualquer instituição do planeta? Que substâncias
bio-ativas existirão nos frutos regionais, nas plantas
ornamentais, nas madeiras que são exportadas? Os exemplos são inúmeros
pois qualquer produtos retirado da floresta faz parte desse cenário
de organismos, genes e princípios ativos que precisamos defender,
sem provocar um isolamento da Amazônia nem fazer surgir uma
absurda reserva de mercado de seus produtos.
Claro
que o problema não pode ser deixado solto caminhando apenas pelos
caminhos determinados pelo interesse de empresas e nações ou
controlado pelos mecanismos do mercado. Na esfera internacional é
indispensável o fechamento de acordos que proíbam registros e
patenteamentos de organismos, de suas partes e dos produtos
derivados de seu metabolismo, sem que esteja claramente
especificada a origem e a forma de sua obtenção. Do mesmo modo
é necessário garantir o direito de propriedade intelectual às
populações que geraram o conhecimento, para que não haja também
uma pirataria cultural tão repugnante quanto a biológica. E há
ainda as questões ligadas à ética e à biosegurança que são
um outro capítulo desse complicado problema.
No
ambiente interno algumas providências são prementes. Do ponto de
vista legal é preciso uma normatização que organize
adequadamente o setor. Na face econômica é indispensável a criação
de uma parque industrial tecnologicamente moderno e direcionado
para processar a biota e seus produtos de forma a garantir um alto
índice de valor agregado indispensável para a construção da
sociedade moderna de biomassa preconizada pela Agenda Amazônica
21. Na face científica e tecnológica, a única das vertentes que
contém elementos portadores de futuro, é indispensável a alocação
de recursos e a formação de parcerias boas e leais que serão
melhores e tão mais leais quanto mais fiscalizadas e melhor
acompanhadas de forma competente por pesquisadores e técnicos de
alto nível.
De
qualquer forma, a contribuição de instituições nacionais e
internacionais é indispensável para ajudar a entender e resolver
os problemas da região, pois dependemos dessas soluções para
desenhar os caminhos que permitirão a manutenção dos
ecossistemas regionais que viabilizam e abrigam essa formidável
diversidade biológica amazônica.
Existe
hoje a certeza científica de que o futuro da Terra está
intimamente associado e dependente do futuro da Amazônia e essa
é a única base teórica com valor social, econômico político e
ambiental. Por causa disso, o objetivo essencial da sociedade
brasileira deve ser a construção de um modelo de desenvolvimento
regional capaz de promover uma significativa melhoria na qualidade
de vida de nossa gente, ao mesmo tempo em que possa garantir a
perpetuação desse complicado e formidável fenômeno da vida do
planeta Terra.
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