Desenvolvimento rima com insustentabilidade
13/12/2002
A
Agenda 21 brasileira, que deveria ser um documento com diretrizes
bastante precisas para que os recursos naturais do país fossem
gerenciados, na entrada do século XXI, sob os preceitos do
desenvolvimento sustentável, ficou pronta apenas esta semana,
data em que o novo milênio já começou há algum tempo. O mesmo
documento, em termos globais, está em vigor desde 1992. Não
cabem também desculpas pelo desconhecimento do seu teor, uma vez
que a assinatura destes papéis ocorreu no próprio solo
brasileiro. Eles são da época da ECO-92, encontro que acaba de
completar dez anos.
Uma nova conferência, agora em
Johannesburgo, África do Sul, terá início no mês que vem. Um
dos objetivos desta grande reunião é, pelo menos no papel, o de
analisar a colocação em prática da Agenda 21 nos diversos países
que estiveram presentes à Conferência do Rio. A maioria das
propostas, mesmo com todo o esforço de Organizações Não-Governamentais
(ONGs) e de membros do governo, ainda não saiu do papel.
Descontando o cenário apocalíptico
que muitas entidades do terceiro setor gostam de pintar sobre o
futuro do planeta, a situação é crítica. Segundo, por exemplo,
o relatório Planeta Vivo 2002 da ONG WWF, divulgado este mês em
Genebra, na Suíça, a humanidade está usando 20% a mais de
recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. Em outras
palavras, as gerações atuais e futuras estão comprometidas
porque o ataque sobre os recursos naturais do globo está acima da
capacidade que eles podem agüentar. No ranking elaborado pela
entidade ambientalista com os países que mais causam impactos
negativos sobre o meio ambiente, o Brasil está em 55º lugar. Se
em termos de áreas destinadas à pesca, por exemplo, a posição
do país é confortável (78º lugar), em termos de pastagens ela
é alarmante: sétimo lugar.
"É claro que precisam ocorrer
mudanças dos padrões de produção", diz Fernando Almeida,
engenheiro civil-sanitário e presidente executivo do Conselho
Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável
(CEBDS), entidade ligada ao Banco Mundial. Ele mesmo cita uma
estatística que oferece o real estado de super-exploração dos
recursos naturais do globo. "Nos Estados Unidos, existem números
que mostram que, em determinadas regiões, apenas 4% da população
é responsável por 25% do consumo de energia daquela área",
diz Almeida.
Segundo o também professor da
Universidade Federal Fluminense, o empresário que não adequar
sua produção às exigências existentes para que aquele sistema
produtivo se encaixe no conceito de desenvolvimento sustentável
com certeza irá assistir à próxima reunião sobre meio
ambiente, daqui a dez anos, de pijama. "Ou ele perdeu o
emprego ou então levou a sua empresa à falência", diz.
Apesar de o quadro, na atualidade, ser bastante favorável, ainda,
ao desenvolvimento insustentável, Almeida se diz um otimista, se
for considerada uma escala de tempo de décadas. Grande parte da
sua forma positiva de pensar, e vários exemplos bem-sucedidos no
setor empresarial, seja ele público ou privado, estão
apresentados em seu livro "O Bom Negócio da
Sustentabilidade" (Nova Fronteira), lançado esta semana em São
Paulo.
"O setor empresarial, em sua
grande parte, já decidiu que não quer ter passivo
ambiental", diz. Na visão do engenheiro carioca, a adesão
aos processos de produção em conformidade com o desenvolvimento
sustentável ocorre por pulsos. "Existe um otimismo no livro,
mas sem ilusão." Para exemplificar sua teoria, Almeida cita,
como um dos exemplos positivos que devem ser conhecidos, o índice
Dow Jones de Sustentabilidade.
Criado em 1999, nos Estados Unidos,
para ajudar investidores internacionais que estivessem buscando
aplicações diferenciadas no mercado e, além disso, privilegiar
empresas que procuram aliar desenvolvimento com ecoeficiência e
responsabilidade social, o índice tem hoje quatro empresas
nacionais. Em 2001, o Índice Dow Jones de Sustentabilidade reuniu
a performance de 312 empreendimentos. Ao todo, 2.500 empresas, de
26 países, foram avaliadas. Do Brasil estão a Cemig, os bancos
Itaú e Unibanco e a empresa do setor aeronáutico Embraer. Agora
em setembro, uma nova avaliação das empresas será feita. O
questionário, de 500 perguntas, engloba as dimensões econômica,
ambiental e social. A Pricewaterhouse Coopers é a auditora da
composição deste índice, que ocorre todos os anos.
Como membro ativo das discussões
sobre desenvolvimento sustentável que ocorrem pelo mundo, Almeida
também defendeu a não desvirtualização das discussões da
Conferência da África do Sul, do mês que vem. Segundo ele, como
a reunião vai ocorrer no continente africano, existia uma forte
tendência de que tudo girasse ao redor da pobreza do continente.
"Não concordamos com isto. É possível exercer o
desenvolvimento sustentável e, além disso, combater a
pobreza", diz. O presidente Fernando Henrique Cardoso, terça-feira,
em Brasília, na solenidade de lançamento da Agenda 21 nacional,
também mostrou uma posição contrária a que a discussão na África
não abordasse as questões ambientais.
Para o ambientalista da ONG Vitae
Civilis Rubens Born, a questão que procura confrontar meio
ambiente com pobreza costuma ser vista sob uma perspectiva
equivocada. Em uma de suas palestras no Instituto de Defesa do
Consumidor (Idec), ele afirmou: "É preciso que a sociedade
civil e as lideranças empresariais atinjam um nível de consciência
mais amadurecido, a fim de exigir e participar do desenvolvimento
de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento sustentável
com eqüidade social." Neste contexto, questões bastante
delicadas como, por exemplo, a produção de energia dentro do
Brasil, ganham um peso bastante importante. A crise energética do
ano passado pode ser vista como um preâmbulo do futuro. Megalópoles
como São Paulo estão precisando captar água cada vez mais
longe. Além do custo que estas operações provocam, o problema
da poluição não está sendo devidamente contornado. As áreas
de mananciais estão cada vez mais adensadas. Esta questão polêmica,
como tantas outras, é apenas um dos itens presentes na Agenda 21
nacional que foi lançada esta semana em Brasília. Ações
importantes ainda não saíram do campo das intenções de
gabinete.
"É claro que não podemos
cobrar ações na direção do desenvolvimento sustentável dos 22
milhões de miseráveis que existem no país", diz Almeida.
"A solução está nas mãos da elite e dos empresários."
Mesmo concordando que em muitos casos a transformação está
lenta, ele reafirma sua posição otimista. "É um processo
que está em curso. As coisas, mesmo devagar, estão
ocorrendo", avalia.
Dentro da ciclotimia histórica,
uma volta ao passado, apesar de interessante, pode se tornar
bastante aflitiva também. Como mostra o especialista em história
e política ambiental José Augusto Pádua no livro "Sopro de
Destruição" (Jorge Zahar), a discussão ambiental, no país,
não tem nada de contemporânea.
Ao investigar os textos de
intelectuais brasileiros durante o Brasil escravista (1786-1888),
o autor descobriu verdadeiras preciosidades. José Bonifácio de
Andrada e Silva, que apesar de brasileiro nascido em Santos viveu
dos 20 anos aos 54 anos na Europa, era um dos defensores do meio
ambiente, mesmo tendo posição marcadamente favorável ao
desenvolvimento de Portugal e, por conseguinte, de suas colônias.
A volta ao passado se mostra importante, por exemplo, quando Bonifácio
lembra, em seus textos, a desertificação ocorrida, no século
XIX, no Oriente Médio. "Todos os que conhecem por estudo a
grande influência dos bosques e arvoredos na economia geral da
natureza sabem que os países que perderam suas matas estão quase
de todos estéreis e sem gente. Assim sucedeu à Síria, Fenícia,
Palestina, Chipre, e outras terras, e vai se sucedendo ao nosso
Portugal", escreveu. Anos depois, em 1823, José Bonifácio
voltou à carga, já no Brasil, que começava a viver o seu período
imperial. Conforme mostram as pesquisas de Pádua, o intelectual
brasileiro profetizou "que esse rico território tropical, em
menos de dois séculos poderia se converter nos ‘páramos e
desertos áridos da Líbia’".
Os brasileiros do período
escravista que se preocupavam com o meio ambiente talvez
estivessem à frente de seu tempo. Eles, por exemplo, não
conheciam as discussões sobre desenvolvimento sustentável e
muito menos as ações ecologicamente responsáveis que ocorrem
hoje na Amazônia e outras regiões do Brasil. Mesmo assim, como
mostra o livro "Um Sopro de Destruição", com riqueza
de detalhes, eles conheciam bem as conseqüências de um
gerenciamento equivocado dos recursos naturais de uma determinada
área. A pergunta que fica em tempos de Rio+10 é se a elite do
mundo será capaz de alterar os níveis de produção do planeta -
segundo a avaliação de Fernando Almeida a política de George
Bush, neste caso, é um grande retrocesso - ou se a mudança lenta
e gradual que existe em determinados setores vai conseguir
resultados práticos importantes em tempo. No caso específico do
Brasil, a profecia de José Bonifácio ainda tem mais quase 20
anos para se confirmar, ou não.
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