Parcerias na busca da sustentabilidade
 
13/12/2002
 
Empresários querem alianças com governos e sociedade para evitar as tragédias do futuro. A manutenção dos atuais sistemas de produção e consumo mundiais pode levar metade do mundo a enfrentar o caos no sistema de abastecimento de água, num regime de grande escassez. 
 
A previsão, feita por cientistas, foi apresentada pelo chairman do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Fêlix Bulhões, durante a reunião anual do grupo. "Em 50 anos vamos ter sérios problemas com a qualidade do ar, com a disseminação de doenças e chuva ácida. Pouco tempo depois teremos um descontrole climático ainda maior com um aumento do nível do mar e o desaparecimento de grandes faixas litorâneas", relata o executivo.

      A reunião do Conselho, que ocorreu ontem na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), teve como pauta as possíveis formas de implementação de parcerias entre governos, empresários e sociedade civil para por em prática projetos para o desenvolvimento sustentável. 
A reunião incluiu uma vídeo conferência com cientistas do Millennium Ecosystem Assessment - projeto desenvolvido por organismos internacionais com o objetivo de avaliar a atual situação dos ecossistemas do mundo - transmitida diretamente do Canadá.

      Governos e empresários

      De acordo com o pesquisador Robert Watson, que faz parte do Banco Mundial, a solução dos principais problemas do planeta - água, energia, agricultura, biodiversidade e saúde, conforme sugerido durante a reunião Rio + 10, em Johannesburgo, na África do Sul - vai exigir parcerias "muito fortes" entre governos e o setor privado. "Neste caso, os governos vão determinar padrões e metas e caberá à iniciativa privada estudar formas e viabilizar meios para atingi-las", diz o cientista, ao mostrar que os governos, sozinhos, não vão ter como solucionar todos estes problemas.


      O presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, concorda com a fórmula de parcerias para a solução destes problemas - onde os governos assumem um papel de reguladores e a iniciativa privada de executores - e diz que o setor privado, por sua vez, passou da fase do discurso, para a de investimentos. "As indústrias estão cientes e colocam dinheiro nisso, seja investindo em melhorias no processo de produção em suas plantas ou apoiando entidades e instituições do Terceiro Setor. Esse é o sinal mais claro que isso é sustentável", garante o empresário.

      Piva reconhece que a atual forma de produção industrial - onde os combustíveis fósseis são mais utilizados que os renováveis - trará "em algum momento" problemas para as populações. Mas, segundo ele, as fontes de energia renováveis são interessantes para as industriais do ponto de vista econômico. "Tem business neste negócio e como dizem que o bolso é a parte mais sensível do corpo, certamente ele vai adiante", prevê Lafer Piva.


      Subsídios agrícolas

      O cientista Robert Watson afirma também que os subsídios agrícolas, concedidos pelos países desenvolvidos, causam uma grave distorção nos mercados, impedindo que países em desenvolvimento - inclusive o Brasil - consigam alavancar suas exportações e assim ter uma política de sustentabilidade. "Os subsídios agrícolas devem ser substituídos, até eliminados do processo comercial", diz. 
Atualmente, de acordo com dados do Banco Mundial, os países que fazem parte da Organização para Cooperação de Desenvolvimento Econômico (OCDE) subsidiam seus agricultores com US$ 300 bilhões à US$ 350 bilhões por ano. O cientista afirma que este é um assunto central no que diz respeito ao desenvolvimento sustentável. "Este foi um tema muito debatido na Rio+10", lembra.

      (Gazeta Mercantil/Página C4)(Carla Éboli)

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