Selo verde chega a seringueiros do Acre
Comunidade onde viveu Chico Mendes é primeira a produzir madeira de forma ambientalmente correta no país
Seringueiros de um assentamento em Xapuri, no Acre, estão
apostando em ganhar dinheiro com uma atividade que costumava ser
sinônimo de devastação na Amazônia: a extração madeireira.
Na semana passada eles receberam o selo verde do FSC (Conselho de Manejo Florestal, na sigla em inglês) e passaram a ser a primeira comunidade a produzir madeira por padrões ambientalmente corretos no Brasil.
Com a certificação, espera-se que 19 famílias do seringal
Cachoeira, no Assentamento Agroextrativista Chico Mendes, que hoje
vivem de agricultura e de extração de castanha-do-pará, tenham
sua renda -hoje de menos de R$ 1.000 por ano- triplicada por conta
da mudança da sua atividade econômica principal.
De quebra, ao se dedicar menos à agricultura, essas famílias
estarão evitando a perda de vários hectares de floresta
anualmente para roça e pasto -motivo pelo qual um membro ilustre
da comunidade, o líder sindical Chico Mendes, foi assassinado em
1988.
"Eles estão descobrindo que floresta em pé tem um valor
econômico maior que floresta derrubada", disse o engenheiro
florestal Virgílio Viana, da Esalq (Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz), que coordenou a implantação do
projeto de manejo florestal do assentamento.
Na verdade, trata-se de uma redescoberta. Os seringueiros de
Xapuri protagonizaram, nas décadas de 70 e 80, o movimento do
"empate" contra os fazendeiros da região, justamente
para impedir que a mata de onde tiravam seu sustento (castanha e
borracha) virasse pasto. O líder do movimento, Chico Mendes,
acabou morto por esses fazendeiros.
"Estamos agora no segundo empate, para impedir o desmatamento
feito pelo próprio seringueiro", afirmou Viana. "Só
que esse é um empate manso."
O selo do FSC, ONG sediada no México, é considerado a certificação
florestal mais importante do mundo. Embora ainda seja mais uma
promessa do que propriamente uma garantia de lucro, ele abre as
portas para mercados consumidores cada vez mais exigentes, como os
da Europa, dispostos a pagar mais por madeira produzida com o mínimo
impacto para a floresta tropical.
Para obter o selo, os produtores precisam cumprir uma série de
normas, desde só cortar árvores de um diâmetro específico até
arrastar as toras de maneira e não danificar a mata em volta.
Até agora, só seis projetos de manejo haviam conseguido a
certificação em toda a Amazônia brasileira -todos eles tocados
por grandes empresas. "Há cerca de outros 15 projetos
comunitários em fase de certificação", disse André de
Freitas, secretário-executivo do Imaflora, ONG que representa o
FSC no Brasil. Segundo ele, os seringueiros de Xapuri receberam rápido
o selo porque o manejo é "simples, baseado em conhecimentos
da comunidade".
O plano, batizado de "jardinagem florestal
participativa", usa conceitos locais, como o de árvore
"mãe" e "filha". Cada árvore madura ("mãe")
só é derrubada se tiver pelo menos uma "filha" em
idade reprodutiva e duas "netas", indivíduos jovens que
ainda não estão produzindo sementes.
Para retirar as toras do mato -o que é feito, pelas madeireiras,
por meio de tratores-, utiliza-se o bom e velho carro de boi.
"O manejo comunitário funciona muito com dinheiro a fundo
perdido. Doa-se para a comunidade tratores que ela não poderá
manter depois", disse Viana. "A idéia é que eles
trabalhem com recursos próprios", afirmou.
O sobrepreço a ser pago às famílias do Cachoeira pela madeira
certificada, que será vendida ao nascente pólo moveleiro de
Xapuri, é de 10%. Pode parecer pouco, mas quando se compara os R$
30 por homem/dia ganhos hoje com madeira com os R$ 5,50 ganhos com
a agricultura, a mudança compensa. Ainda mais quando não se
precisa trabalhar no sol.
CLAUDIO ANGELO
EDITOR-ASSISTENTE DE CIÊNCIA
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