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As metas estabelecidas no Rio, há dez anos, não perderam nada da sua urgência |
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Países industrializados têm de abrir seus mercados aos países em desenvolvimento |
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Fazem parte da qualidade de vida também trabalho satisfatório, saúde e moradia adequada |
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Muitas pessoas se interrogam se não estamos desperdiçando tempo em Johannesburgo |
As inundações devastadoras na Europa não são apenas forças da
natureza terríveis que extinguiram, da noite para o dia, vidas humanas,
existências materiais e a obra de reconstrução de cidades inteiras. São
também indicações, ou melhor, sinais de alarme gritantes da natureza
para os homens que habitam o planeta e que têm de mantê-lo habitável.
Em vez de nos perdermos na disputa entre peritos sobre a verdadeira
dimensão da contribuição dos próprios homens para essas calamidades
-por meio do aquecimento do clima, da retificação do curso dos rios ou
da interdição da natureza-, convém darmo-nos conta de que não temos
outro planeta, a não ser este.
A nossa sobrevivência, e também a dos nossos filhos e netos, dependerá
do grau de proteção que dispensarmos aos nossos recursos finitos, da
nossa capacidade de assegurar e distribuir equitativamente os meios de
vida para todos os homens e também as riquezas e as oportunidades de
desenvolvimento no globo -da maneira como preservamos a viabilidade e a
habitabilidade do nosso ambiente comum. Resumindo: nossa sobrevivência
dependerá da maneira como conseguirmos harmonizar o direito ao
desenvolvimento e à prosperidade com o nosso dever de superar a fome e
de preservar a terra para nós e para nossos filhos.
Esses pensamentos já estavam no centro das negociações da cúpula do
Rio, há dez anos. Naquele tempo, os Estados participantes tinham
acordado objetivos ambiciosos: a visão de um mundo além das guerras e
dos conflitos, da pobreza e da destruição da natureza, parecia mais próxima,
após o fim da Guerra Fria e do antagonismo entre os blocos.
Dez anos depois, na Rio +10, trata-se de muito mais do que fazer um
balanço e rever juntos quantos progressos fizemos no caminho então
acordado e enveredado. Não há dúvida: será necessário agir. As
metas estabelecidas no Rio não perderam nada da sua urgência.
Acrescentaram-se, porém, ainda outros desafios; dos riscos conhecidos,
resultaram perigos agudos. A segurança individual e coletiva passou a
ser um bem precioso -ameaçado por conflitos regionais, crimes,
terrorismo, epidemias e riscos ambientais globais. O que alcançamos por
um lado -por exemplo, a despoluição do rio Elba em toda a Europa- foi
levado pela força das águas dentro de poucos dias.
Progressos impressionantes alcançados no campo da proteção ambiental
nos países industrializados, mas também no âmbito do desenvolvimento
de algumas economias nacionais nos assim chamados "países
emergentes", se defrontam, por outro lado, com reveses
desalentadores. As alterações climáticas globais transformaram-se em
realidade palpável para muitas pessoas. A pobreza mundial se alastrou
ainda mais -mais de 2 bilhões de pessoas, quase a metade da humanidade,
vivem com menos de dois euros por dia; 1,5 bilhão de homens, mulheres e
crianças jamais tomarão um copo de água limpa.
O choque dos atentados do 11 de setembro de 2001 fez com que os governos
e as sociedades no mundo inteiro se aproximassem mais, para fazer face
à ameaça do terrorismo. Ao mesmo tempo, porém, ficou bem claro: a paz
e a segurança não podem ser alcançadas e preservadas apenas com meios
militares e policiais.
Embora não haja uma relação direta entre economia globalizada e
terrorismo internacional, a verdade é que sem uma agenda para a justiça
global não haverá segurança global. Precisamos definir um novo
conceito de segurança que abranja aspectos econômicos, ecológicos e
sociais. Trabalhamos para isso e precisamos, em Johannesburgo, acertar
os ponteiros também nesse sentido.
É evidente: a globalização se tornou a característica determinante
da nossa economia mundial. Mas ela não é uma força da natureza que não
possamos influenciar, e sim uma rede de relações econômicas,
comerciais e de comunicação que precisamos tecer com meios políticos.
Significa que temos de elaborar regras e normas de comportamento que
contribuam para que o maior número possível de pessoas possa
participar nas vantagens indiscutíveis da globalização e para que
sejam entravados desenvolvimentos prejudiciais para nós e para as gerações
vindouras. Os mercados por si sós não podem conseguir isso.
Sabemos, por exemplo, que nos países que se abriram completamente ao
comércio mundial a prosperidade da população vai crescendo, em vez de
diminuir. Quem combate indiscriminadamente a abertura dos mercados
internacionais não ajuda de maneira alguma os países em
desenvolvimento, mas lhes veda o acesso ao caminho de saída da pobreza.
"Trade is aid" é uma das máximas comprovadamente corretas da
política de desenvolvimento: ajuda pelo comércio -pelo comércio
justo, bem-entendido.
Essa percepção confere aos países ricos do mundo desenvolvido, ao
mesmo tempo, uma responsabilidade especial. Os países industrializados
têm de abrir efetivamente os seus mercados aos produtos provenientes
dos países em desenvolvimento -mesmo que isso seja, a curto prazo,
desfavorável para os seus próprios privilégios, tais como os subsídios
agrícolas nos EUA e na Europa. A longo prazo, todos nós poderemos nos
beneficiar de mercados verdadeiramente abertos.
Acabar com o abismo entre pobres e ricos, ou, pelo menos, reduzi-lo
consideravelmente, está também no interesse genuíno de um país como
a Alemanha, que vive mais que outros da exportação dos seus bens e
serviços. Queremos ampliar e fomentar o comércio e o intercâmbio com
países menos desenvolvidos do planeta. Tarifas protetoras e outras
barreiras comerciais não condizem com a nossa época.
Por outro lado, estratégias nacionais, por exemplo para reduzir os
gases de efeito estufa, só têm utilidade limitada. Sendo poucos os países
a cumprir as metas acordadas em conjunto, e havendo, por outro lado, um
aumento constante das emissões de dióxido de carbono, o resultado
permanece dramático: o aquecimento global não pára diante das
fronteiras nacionais.
Mesmo assim, a Alemanha continuará, também no futuro, na vanguarda da
proteção do clima. Solicitamos com ênfase aos outros Estados-membros
das Nações Unidas que façam tudo para ratificar o Protocolo de Kyoto,
o mais rapidamente possível, e para cumprir as metas nele acordadas.
Dirijo um apelo sobretudo aos Estados Unidos para que assumam a sua
responsabilidade na proteção do clima e prestem uma contribuição
equivalente à redução dos gases de efeito estufa. Continua a ser
nossa intenção conseguir que os EUA, num segundo passo, voltem a
participar plenamente nos acordos internacionais sobre proteção do
clima.
Trata-se, antes de mais nada, do aumento contínuo da eficiência energética.
Nessa área, a Alemanha já está hoje no topo do ranking dos países
industrializados.
Melhorar o grau de eficiência das centrais elétricas, evitar a geração
de resíduos, ter automóveis pouco poluentes nas nossas estradas e
aparelhos que consumam bem menos energia do que os usados nos tempos dos
nossos pais são investimentos no futuro dos nossos filhos. Não só
porque abandonamos energias obsoletas, como a atômica, cujos riscos
constituem um ônus irresponsável para muitas gerações, mas também
porque desenvolvemos, no seu lugar, novas fontes energéticas renováveis,
que não só economizam despesas em medida considerável, mas também
desencadeiam um novo surto de inovações industriais. Já é previsível
que novas tecnologias energéticas possam desencadear, nos países
industrializados, um verdadeiro "milagre dos empregos".
Estou convencido de que a eficiência energética e de recursos será
futuramente a marca registrada de economias de mercado bem-sucedidas a
longo prazo. Assim, servimos ao mesmo tempo de exemplo para países com
economias menos desenvolvidas: com uma política energética sustentável,
será possível compatibilizar a defesa dos recursos naturais e o
desenvolvimento econômico bem-sucedido.
Sabemos que os países em desenvolvimento não conseguirão, por si sós,
implementar uma concepção energética tão ambiciosa. Por isso
apoiamos com outros países europeus o reforço do mecanismo central
para a proteção do ambiente em nível mundial.
Alocando adicionalmente 2,7 bilhões de dólares, os Estados europeus
pretendem garantir que os países em desenvolvimento recebam os recursos
necessários para a implantação de um abastecimento energético
sustentável.
Além disso, apresentarei em Johannesburgo três propostas concretas
sobre como podemos fazer progredir em escala mundial o uso de energias
renováveis.
Primeiro, a Alemanha será anfitriã (a exemplo da bem-sucedida Conferência
sobre a Água em Bonn) de uma conferência internacional sobre energias
renováveis. Seu objetivo consiste no desenvolvimento duma estratégia
internacional para a extensão dessas modalidades energéticas.
Segundo, proporei que seja dado a um organismo da ONU um mandato bem
definido para apoiar sobretudo os países em desenvolvimento na implantação
de um sistema energético que preserve o clima e os recursos. Nesse âmbito,
as energias renováveis deverão constituir prioridade.
Terceiro, a Alemanha concluirá parcerias estratégicas com países em
desenvolvimento e emergentes, acordando nesse âmbito metas adaptadas às
realidades existentes no respectivo país parceiro, metas a serem alcançadas
em conjunto. Trata-se, paralelamente à extensão das energias renováveis,
da modernização das centrais elétricas existentes e da identificação
dos potenciais de redução do consumo de energia.
Essas propostas se inserem perfeitamente na nossa estratégia nacional
de sustentabilidade, que igualmente apresentarei em Johannesburgo -não
como modelo a ser necessariamente imitado, mas como trilha de
crescimento viável, que poderá oferecer orientação a outros. A nossa
estratégia se orienta por quatro diretrizes:
Justiça entre gerações - Pretendemos construir nossas economias de
forma tal que os interesses legítimos de nossos filhos, netos e
bisnetos estejam em harmonia com as necessidades das gerações
presentes. Por isso as dívidas públicas são reduzidas, para assegurar
às gerações vindouras o seu espaço político de manobra. Ao mesmo
tempo, queremos tomar providências, através do manejo cuidadoso dos
recursos naturais, para que as bases naturais da nossa vida fiquem
preservadas.
Qualidade de vida - Tal meta ultrapassa em muito a mera tarefa de
preservar intactas a natureza e a paisagem. Fazem parte da qualidade de
vida também trabalho satisfatório, saúde e moradia adequada, além de
segurança pessoal e social. Um ambiente habitável consiste também na
melhor formação possível, em cidades com qualidade de vida e seguras,
com múltiplas ofertas culturais, e na promoção do indivíduo e de
seus mais diversos talentos, capacitando-o a levar uma vida
autodeterminada na sua família e no seu contexto de vizinhança. Por
isso defendemos o princípio de um Estado ativo e também ativador.
Coesão da sociedade - As rápidas mudanças estruturais na economia,
com suas consequências para os ambientes de trabalho e a adaptação
indispensável a condições de vida alteradas, representam para muitas
pessoas um tipo de "matéria-prima do temor". Reformas sociais
que exijam e fomentem a participação do cidadão na vida comunitária
impedem a divisão da população em vencedores e vencidos.
Responsabilidade internacional - O nosso desenvolvimento futuro está
inserido no contexto europeu e internacional. Sabemos que não há nação
no mundo que possa sozinha garantir a prosperidade e a segurança dos
seus cidadãos. Tampouco será possível preservar isoladamente as bases
naturais da nossa vida.
A União Européia assumiu, nos últimos dez anos desde a conferência
do Rio, um papel exemplar no que se refere à mediação entre os
interesses dos países industrializados e dos em desenvolvimento.
Continuaremos a apoiar as Nações Unidas na implementação das suas
metas, assim como o fizemos no passado, apoiando energicamente os seus
programas. Saúdo expressamente o fato de que o Banco Mundial e o Fundo
Monetário Internacional tenham compreendido os sinais dos novos tempos,
vinculando as suas ajudas menos a idéias dogmáticas de liberalização
de mercados e mais às metas de desenvolvimento sustentável.
Admitimos que, em face dos consideráveis esforços materiais e técnicos
necessários para a realização de uma cúpula, muitas pessoas se
interrogam se, em Johannesburgo, não estamos desperdiçando tempo,
energia e material em nome da defesa dos recursos naturais. Respondo que
assim seria se não aproveitássemos as oportunidades que se nos
oferecem para construir em conjunto processos de aprendizagem e para
alcançar progressos eficazes e visíveis. Mas a tarefa que temos é
outra. A humanidade dispõe hoje do conhecimento, das riquezas, das
potencialidades técnicas e também do sentido de responsabilidade comum
para resolver os problemas do nosso planeta.
Temos de assumir essa responsabilidade -os nossos filhos nos agradecerão.
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