
Novo livro do autor de "Como a
Mente Funciona" parte para o ataque contra quem defende a primazia
da cultura: Pinker apóia biologia da natureza humana
DA REDAÇÃO
O popstar da ciência cognitiva está de volta à carga. Steven Pinker,
psicólogo da linguagem do MIT (Instituto de Tecnologia de
Massachusetts) que se tornou celebridade com os livros "Como a
Mente Funciona" e "O Instinto da Linguagem", acaba de lançar
nos EUA uma obra na qual retoma a questão da natureza vs. cultura -e
defende a primeira.
Em "The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature" (A Tábula
Rasa: A Negação Moderna da Natureza Humana), o pesquisador e
divulgador ataca os pensadores tidos por "politicamente
corretos" para os quais a mente humana é inteiramente moldada pela
cultura, não existindo, portanto, capacidades inatas e diferenciadas
entre indivíduos.
A tese contrária -ou seja, os genes têm, sim, um papel no
comportamento- lançada nos anos 70 pelo biólogo Edward O. Wilson com a
criação da sociobiologia, tem sido combatida por pensadores como o
paleontólogo Stephen Jay Gould (morto em maio) e o geneticista Richard
Lewontin.
Para Pinker, os proponentes da "tábula rasa" têm atrapalhado
o desenvolvimento daquilo que ele chama de "ciência honesta da
natureza humana".
"Há o temor de que, se você reconhecer que as pessoas nascem com
alguma coisa, isso implique que algumas pessoas têm mais do que outras
e, portanto, se abra a porta para desigualdade política e opressão",
diz o cientista, um canadense de 48 anos.
Pinker falou sobre seu novo livro em entrevista a David Rakoff, do
jornal "The New York Times". Leia abaixo trechos da conversa.
Pergunta - Seu novo livro
ressalta a importância da natureza humana na maneira como pensamos
sobre nós mesmos. Por que o sr. o intitulou "A Tábula Rasa"?
Steven Pinker - A crença comum é que a mente seja só isso,
uma tábula rasa -as pessoas não nascem com talentos ou temperamentos,
e a mente toda é produto de cultura e socialização. Mais
especificamente, o livro é uma tentativa de confrontar a fobia que as
pessoas têm de discussões sobre a natureza humana.
Pergunta - O que causa tal fobia?
Pinker - O fato de que a compreensão da natureza humana possa
ameaçar valores fundamentais de igualdade política, progresso social,
responsabilidade pessoal , significado e propósito. E você não pode
avançar nas pesquisas em psicologia sem confrontar esses sentimentos tácitos,
mas muito poderosos. Há o temor de que, se você reconhecer que as
pessoas nascem com alguma coisa, isso implique que algumas pessoas têm
mais do que outras e, portanto, se abra a porta para desigualdade política
e opressão.
Pergunta - O que torna mais
confortável pensar nos seres humanos como meros pedaços de carne
marcados pela cultura.
Pinker - Eu não acho que qualquer um que tenha mais de um filho
acredite que crianças são pedaços de massinha esperando para serem
modelados. Há um conjunto de trabalhos sobre educação de filhos que
olha para a correlação entre o que os pais fazem e como isso se
reflete nas crianças: pais que conversam com as crianças têm filhos
com habilidades avançadas de linguagem; pais que espancam as crianças
têm filhos que se tornam mais violentos; e assim por diante.
Poderia ser assim, mas correlação não prova causa. O fato é que pais
dão aos filhos não só o ambiente, mas também genes. Os mesmos genes
que fazem dos pais pessoas falantes podem tornar filhos mais hábeis em
linguagem. Os estudos originais raramente são feitos com crianças
adotadas.
Pergunta - Então, a criação
("nurture", em inglês) é uma extensão da natureza
("nature")? Tudo, até mesmo a cultura, é redutível à
biologia evolucionista?
Pinker - Eu prefiro a palavra "unificação" a
"redução". Uma analogia é que, mesmo que nós saibamos que
a areia, as montanhas e o barro não são nada além de moléculas -não
se trata de nada especial-, um físico não poderia explicar a geografia
da Europa, ainda que a Europa não passe de um monte de prótons, nêutrons
e elétrons. Da mesma forma, com a história da humanidade, a política
e os assuntos culturais, esse nível de análise não vai dizer a você
qual é a melhor maneira de organizar uma sociedade ou como mudar uma
lei ou tentar influenciar um valor social.
A compreensão da história e da cultura só pode se beneficiar do
melhor entendimento da emoção e do pensamento humano. Mas você não
consegue saber muito sobre o cotidiano das pessoas pensando em centenas
de bilhões de neurônios disparando em padrões complexos. Isso não
ajuda em nada para saber como agradar o chefe, arrumar um encontro,
fazer amigos e influenciar pessoas.
Pergunta - E onde isso coloca
nossa autodeterminação e nosso livre-arbítrio?
Pinker - Autodeterminação, responsabilidade pessoal e todo o
restante podem ser ligados ao funcionamento do cérebro, mas essas funções
cerebrais são tão absurdamente complexas que não há perigo de elas
serem reduzidas a um mero reflexo no futuro próximo, se é que o serão
algum dia. É uma falácia pensar que fome, sede e desejo sexual são
biológicos, mas que o raciocínio, o aprendizado e a tomada de decisões
são outra coisa, algo não-biológico. Trata-se apenas de um tipo
diferente de biologia.
Pergunta - Se tudo são processos
biológicos, então é ultrajante dizer que indivíduos são
predispostos a ter uma inteligência maior ou menor. O sr. tem medo de
ser cooptado pelos deterministas?
Pinker - Acho que isso seria um grande salto. Em vez de
construir uma bomba, eu espero que esse livro trate de como desarmá-la.
O potencial explosivo vem de um medo de que certas possibilidades empíricas
abram a porta para males políticos e sociais. Não é o caso. Nós
podemos ter uma ciência honesta da natureza humana sem uma caixa de
Pandora de consequências negativas. Quem quer que tenha lido o livro não
pode atacá-lo dizendo: "Se nós aceitarmos o que você está
dizendo sobre a natureza humana, as portas do inferno vão se
abrir".
O cerne do livro é que as portas do inferno não vão se abrir.
|