
Índios brasileiros teriam aprendido
cultivo com povos do norte e não dos Andes, sugere uma pesquisa da
Embrapa
Milho chegou ao Brasil do México, diz DNA
REINALDO JOSÉ LOPES
ENVIADO ESPECIAL A ÁGUAS DE LINDÓIA
Ninguém duvida de que o milho cultivado hoje virou planta doméstica em
algum lugar do México. O que pouca gente imaginaria é que os índios
brasileiros podem ter aprendido a arte de cultivar a planta diretamente
com seus colegas agricultores da América do Norte e da América
Central, e não com as populações dos Andes.
A tese é de um pesquisador da Embrapa que analisou o DNA de sementes
antigas e modernas de milho plantadas pelos índios das Américas. O
estudo revelou que o milho plantado aqui tinha parentes próximos entre
os mexicanos, mas nada do tipo nos Andes.
Fábio de Oliveira Freitas, 33, agrônomo da Embrapa Recursos Genéticos
e Biotecnologia, apresentou os resultados da análise no 48º Congresso
Brasileiro de Genética, em Águas de Lindóia (SP). "Assumia-se
que existia uma influência andina, mas não dá para ver isso nas
amostras que nós estudamos", disse o pesquisador.
Freitas examinou grãos com idade entre 1.000 e 500 anos encontrados em
sítios arqueológicos do norte de Minas Gerais. Também foi esmiuçado
o DNA de grãos plantados por índios contemporâneos na região do
Xingu e nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná.
A análise levou em conta uma região do gene Adh2. As variantes nesse
trecho de DNA, já bem conhecidas, são três. O milho mexicano inclui
representantes das três formas, enquanto nos Andes só se encontra o
tipo GAn (também chamado de tipo simples). Acontece que o milho nativo
do Brasil só tem representantes dos tipos complexos, de origem mexicana
-sem intermediários incas.
"O milho teria sido domesticado primeiro para regiões de terras
altas no México, vindo depois para os Andes há 5.000 anos.". Esse
cultivo de montanha jamais daria certo no Brasil, e por isso teria sido
necessária outra adaptação, ou nova domesticação do teosinto,
ancestral selvagem do milho.
Ainda é difícil dizer se a chegada da planta ocorreu graças a migrações.
Para investigar a hipótese, Freitas quer descobrir agora qual foi a
rota seguida pelo milho.
|