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O
selvagem ambiente amazônico em pleno funcionamento
Vila Progresso (AP), 13
de Dezembro de 2002 - O selvagem ambiente amazônico
em pleno funcionamento. A implacável lei da evolução
em ação e a preponderância, sempre, da espécie
mais forte.
Com este
cenário, composto ainda pelo absoluto isolamento
geográfico, a comunidade de Vila Progresso,
localizada no distrito de Bailique, a dez horas de
barco de Macapá, poderia ser um terreno fértil para
que a lei dos homens fosse esquecida. Na verdade, o
que se vê, quando se visita o local, é que, pelo
menos nos últimos seis anos, a lei da selva deixou de
regular as relações humanas da comunidade.
Amanhã, quando o barco
"Tribuna, a Justiça vai a bordo" voltar a
atracar na cidade de Macapá, a única capital
brasileira que é cortada pela linha do Equador, mais
uma missão da justiça itinerante do estado terá
chegado ao fim. Foram realizadas 49 até hoje.
Nas
comunidades visitadas, todas têm como acesso
principal o rio Amazonas ou um de seus afluentes, a
maioria dos que procuraram resolver problemas pelas
vias legais ficou satisfeita com o resultado das audiências
realizadas no próprio local em que vivem. Além de
ver o desfecho de seus casos, solução pouco
encontrada em territórios brasileiros, os moradores
puderam constatar a rapidez com que a justiça chegou
para atuar.
Ao contrário
de outros locais do País, no Amapá, o despacho do
juiz, nestes casos específicos tratados pela justiça
itinerante, tem saído em questão de meses, ou até
minutos, se o problema for bastante simples, ou passível
de uma conciliação imediata.
Na última
segunda-feira, dentro do barco recém-inaugurado pela
justiça amapaense - a embarcação teve o
financiamento da Fundação Banco do Brasil, que
investiu R$ 216.300 no projeto com uma contrapartida
de R$ 56.100 do Poder Judiciário local - ocorreu a
primeira audiência do dia desta última missão do
ano. A conciliação, assinada pelo juiz Mario Cézar
Kaskelis, saiu em menos de 20 minutos. "É o
jeito né, se contentar com o acordo", disse
Francilene Bruno, que admitiu ter ficado satisfeita
com a conciliação.
Grávida
do quinto filho - "já está tudo certo que este
será o último" - ela entrou na justiça para
reclamar de um problema bastante comum na área do
arquipélago situado na foz do rio Amazonas. Reinaldo
Vilhena, ex-marido de Francilene, não estava pagando
a pensão alimentícia e, por este motivo, teve de
comparecer à frente do juiz para se explicar. Eles
inauguraram a sala de audiência itinerante.
É a primeira vez que o
Poder Judiciário do Amapá tem o seu próprio barco
para realizar o trabalho de atender os moradores das
comunidades ribeirinhas mais distantes. Antes, era
tudo feito com infra-estrutura improvisada.
"Agora temos excelentes condições de levar mais
cidadania à população", diz o jovem presidente
do Tribunal de Justiça do estado, o desembargador
Carmo Antônio de Souza. Nascido em Goiânia ele está,
por opção própria, há oito anos no norte do país.
"O Amapá foi uma grata surpresa", diz.
Alegando estar sem
dinheiro, Vilhena afirmou, perante o juiz, não ter os
R$ 35,00 mensais considerados ideais, pela mãe, para
sustentar sua filha. "Vivo de descarregar barcos
aqui. Recebo uns R$ 15,00 pelo serviço", diz.
No
final das contas, com habilidade e vontade de resolver
logo o caso, o árbitro da audiência conseguiu do réu
o aceite da proposta inicial. A partir do dia 27 de
dezembro ele vai pagar, por mês, R$ 35,00 para o
sustento de sua filha.
Mesmo
quando surgiu um problema de última hora - Vilhena não
queria pagar a pensão diretamente na casa de sua
ex-mulher para não encontrar o atual marido dela -, o
juiz mais uma vez interveio. O pagamento será feito a
uma terceira pessoa. Ambas as partes concordaram e o
caso, pelo menos se Vilhena cumprir a sua parte, foi
encerrado. O ex-marido de Francilene saiu da audiência
consciente de que a pena, para estes casos, é passar
uma temporada na prisão.
A economia bastante
inconsistente da região de Bailique - a maioria vive
da pesca ou de algumas atividades extrativistas, como
o palmito - torna a renda das famílias também
bastante instável. Grande parte das mil pessoas que
vivem na Vila Progresso, segundo Sueli Pini, juíza
coordenadora do Tribunal Especial do Amapá, não
sobrevive com mais de um salário mínimo por mês.
Nestas regiões, também, é normal a mulher começar
a reproduzir com 11 ou 12 anos de idade, após a
menarca.
Casos
extremos, no interior do Amapá, são conhecidos.
Segundo a juíza, existe a história real de uma
mulher que, com menos de 50 anos de idade, tem 22
filhos vivos. "É comum nestas regiões famílias
com gestações simultâneas em quatro gerações
distintas", diz Sueli. A infra-estrutura, apenas
nos últimos tempos é tem chegado à região do
Bailique. Na Vila Progresso, apenas em abril deste ano
é que o fornecimento de luz elétrica passou a ser
feito as 24 horas do dia. Mesmo o telefone público
ainda é considerado uma grande novidade pelos
habitantes do local.
O caso de Francilene é
apenas mais um resolvido naquele dia. O ritmo das audiências
é bastante rápido por causa da forte procura.
"De 80 a 90% das nossas audiências feitas nestas
viagens são resolvidas com a conciliação", diz
o juiz. Para ele, o fato de não ter que ostentar a
toga tradicional dos magistrados e atender o povo de
forma simples e objetiva é um motivo de orgulho.
"Sou um funcionário público como outro
qualquer. É o povo que paga o meu salário",
diz. Para o juiz, apesar da rapidez com que ele age
muitas das vezes, existe a noção clara de que errar
nestes casos é algo bastante grave. "Aqui,
muitas vezes, eles não tem como recorrer. Mesmo
assim, é importante que a justiça atue de forma rápida.
Muitas vezes a burocracia apenas atrapalha e prejudica
a vida daqueles que resolveram entrar com uma ação",
diz o magistrado. Nascido no Paraná, Kaskelis está há
quatro anos em Macapá. "Depois da semente
plantada pela juíza Sueli no estado - ela é outra
paranaense que há 21 anos atua na Amazônia - esta
mentalidade, de tornar a justiça rápida e eficiente,
tem sido implantada com bastante êxito", diz o
juiz.
Tanto ele como Sueli, a
justiça coordenadora do Tribunal Especial de Macapá,
sabem que são minoria no Brasil. "Muitos juízes
se impressionam com o poder e com a toga", diz
Kaskelis. Além de desenvolver os seus trabalhos como
representantes do poder judiciário, ambos sabem também
que é preciso uma certa psicologia e uma preocupação
social para que tudo seja feito da melhor forma possível.
A
criatividade, também, é outro fator que pode ser
crucial para a solução de um problema qualquer que
esteja ocorrendo na comunidade. Uma outra audiência
realizada também na segunda-feira, no primeiro dia
dos trabalhos na Vila Progresso, mostra que para bater
o martelo, às vezes, é preciso procurar uma saída
diferente para o problema.
O caso era,
aparentemente, simples. Claudete Amanajás estava grávida.
Depois de uma discussão, bastante nervosa, com sua
ex-amiga também chamada Claudete (Silva dos Santos)
ela teve uma aborto espontâneo.
Conclusão
dela: a amiga deveria ser responsável pela perda do
bebê. Ambas estão com pouco mais de 20 anos. Depois
de ouvir, em audiência, as duas pessoas envolvidas, o
juiz percebeu que não havia nenhuma relação direta
entre o caso. Sem provas de nenhum dos dois lados, a
forma mais coerente foi selar um acordo. Como não
havia nada palpável para ser feito, eis a saída.
"Vou tomar uma decisão atípica. Desde já, fica
estabelecida multa de R$ 200, para aquela que voltar a
molestar a outra", decidiu o meritíssimo.
Nenhuma das duas quis trocar um aperto de mão ao fim
da audiência, mas saíram satisfeitas com o acordo.
Os casos apresentados
à justiça itinerante nem sempre são simples. Entre
os casos que apareceram para o juiz Kaskelis, o mais
grave foi um pedido de prisão que ele teve de
decretar contra um morador de Boa Vista do Pacuí.
Depois
de ver o seu próprio terreno invadido, decidiu
colocar fogo na casa de vários de seus vizinhos para
expulsá-los da terra. Preso, ele passou alguns dias
na penitenciária do estado, em Macapá, e já está
solto. Na última visita ao local, os membros do Poder
Judiciário viram que, agora, o ex-preso está tendo
boa conduta. Segundo Kaskelis, o ex-incendiário está
consciente de que "da próxima vez que alguém
invadir o meu terreno, o doutor virá aqui para
prender esta pessoa".
A lei número 9.099, de
1995, instituiu no país os juizados especiais. Dentro
desta categoria está inserida a justiça itinerante.
Nos
chamados tribunais especiais - que em alguns estados
da União também são chamados de pequenas causas -
é possível decidir por casos que envolvam até 40
salários mínimos. No caso específico do Amapá, o
juiz que se desloca a bordo tem também competência
de justiça comum, o que permite a ele tomar decisões
que extrapolem o que está previsto na lei de 1995.
O trabalho de levar
cidadania aos moradores não se restringe ao âmbito
judicial. Em toda a jornada, médicos e dentistas são
levados com a equipe. Os problemas, também, dão um
retrato típico das populações ribeirinhas da Amazônia.
O médico
cuida de diarréias e, às vezes, picadas de cobra. O
dentista perde a maior parte do seu tempo arrancando
dentes. Seja na justiça ou na medicina, apenas o
sonho, e a visita freqüente aos ribeirinhos, poderão,
talvez, mudar o hostil cotidiano da vida na floresta.
(Fim de Semana/Página12)(Eduardo
Geraque)
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