
Os solitários viajantes cósmicos
Marcelo Gleiser
especial para a Folha
São já passados 25 anos desde
o lançamento das duas sondas Voyager em 1977, a Voyager-1 e a
Voyager-2. Segundo os planos originais da Nasa, as sondas robotizadas,
pesando aproximadamente uma tonelada cada, deveriam durar apenas quatro
anos, chegando a Júpiter, em 1979, e a Saturno, em 1981. Sua missão
era coletar dados desses planetas, enviá-los por rádio até a Terra e,
em seguida, terminar a sua existência abandonadas na imensidão do espaço.
Surpreendentemente, as duas sondas, que revolucionaram a compreensão
dos quatro planetas gigantes e de suas luas, continuam muito vivas,
viajando em direção aos confins do Sistema Solar a uma velocidade de
50 quilômetros por segundo. O seu destino final, incerto, é o espaço
interestelar, pequenos brasões de uma civilização que habita um
modesto planeta girando em torno de uma estrela também modesta.
A sonda Voyager-1, o objeto mais distante da Terra já construído pelo
homem, se encontra atualmente a aproximadamente 12 bilhões de quilômetros;
a Voyager-2, a 9,5 bilhões. Entre 1979 e 1989 as duas sondas estudaram
48 luas dos planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.
A incrível longevidade das sondas se deve ao uso extremamente eficiente
de sua energia: o calor gerado pelo decaimento radioativo de uma amostra
de plutônio produz em torno de 310 watts, 23 dos quais são usados por
um transmissor a bordo. Muito provavelmente, ambas continuarão a
funcionar por mais 20 anos, antes de a eletrônica falhar
definitivamente.
Com o aumento da distância, a comunicação se torna cada vez mais difícil
e demorada. Mesmo que as ondas de rádio geradas pelas sondas viajem à
velocidade da luz, são 12 horas para um sinal saído da Voyager-1
chegar até a Terra.
O mecanismo usado pelos engenheiros da Nasa para impulsionar as sondas a
distâncias tão gigantescas sem o uso de combustível é conhecido como
catapulta gravitacional. Basicamente, a atração gravitacional entre a
sonda e o planeta é usada para "catapultá-la" adiante.
Uma pedra cai no chão devido à atração gravitacional entre a pedra e
a Terra. Ao cair, a pedra é acelerada devido a essa atração. Imagine
que a pedra seja atirada transversalmente ao chão, como um tiro de canhão.
Ao cair, a pedra será acelerada do mesmo jeito e a sua velocidade irá
aumentar, tal como se ela estivesse caindo verticalmente.
Agora, imagine que a pedra seja a sonda Voyager-1 e que o planeta seja Júpiter.
A sonda passa perto o suficiente de Júpiter para ser atraída
gravitacionalmente e, portanto, acelerada pelo planeta. A sua velocidade
transversal e a sua distância são tais que ela não cai no planeta,
mas, devido a essa aceleração extra, é catapultada para longe.
Esse truque da catapulta gravitacional é usado com frequência em
viagens interplanetárias. Só a Voyager-2 foi catapultada por Júpiter,
em 1979, por Saturno, em 1981, por Urano, em 1986, e por Netuno, em
1989, tal como um macaco pulando de galho em galho. Essa última manobra
lançou a sonda para fora do plano onde residem os planetas do Sistema
Solar, em direção ao espaço sideral.
Juntas, as duas viajantes revelaram mundos que jamais havíamos
imaginado possíveis: milhares de anéis em torno de Saturno, dotados de
uma estrutura extremamente complexa; anéis também em torno de Júpiter,
Urano e Netuno; vulcões em Io, uma lua de Júpiter, ejetando matéria a
altitudes de 200 quilômetros; detalhes da superfície de outra lua de Júpiter,
Europa, que é composta de um oceano coberto por uma crosta de gelo;
nuvens e furacões gigantescos em Netuno, semelhantes ao
"olho" (ou "grande mancha vermelha") de Júpiter. A
lista é enorme.
Mesmo que as sondas Voyager estejam já longe dos planetas de nosso
Sistema Solar, sua missão ainda não terminou. Ambas carregam uma placa
(idêntica à de uma outra sonda que foi catapultada além do Sistema
Solar, a Pioneer-10), com informações detalhadas de como localizar o
nosso Sistema Solar e a Terra na galáxia, uma imagem de um homem e de
uma mulher e o dado de quando a sonda foi lançada.
Quem sabe um dia uma outra civilização extraterrestre irá encontrar
uma dessas sondas? Só espero que, se eles resolverem nos fazer uma
visita, que seja com fins pacíficos.
Marcelo Gleiser é professor de física
teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro
"O Fim da Terra e do Céu"
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