Morre o último dos Villas Bôas, o maior indigenista brasileiro
 
      São Paulo, 13 de Dezembro de 2002 - Orlando Villas Bôas, morto ontem, aos 88 anos, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, após 28 dias de internação, foi o maior indigenista brasileiro. Ele morreu às 14h27, em decorrência de falência de múltiplos órgãos, desencadeada por um processo agudo de infecção intestinal. De 1941 até a morte, dedicou-se à luta e à defesa da cultura indígena, o que lhe rendeu reconhecimento em todo o mundo. Era o último vivo dos quatro famosos irmãos Villas Bôas (Cláudio, Leonardo e Álvaro).

      O sertanista nasceu no dia 12 de janeiro de 1914, em uma fazenda de café no município paulista de Botucatu, mas foi registrado como filho da cidade de Santa Cruz do Rio Pardo, também no interior do estado. Com a família, mudou-se para a capital antes da crise de 1929. Logo depois, os pais morreram e Orlando abandonou os estudos para cuidar dos oito irmãos.

      Líder nato da expedição Roncador-Xingu, lançada por Getúlio Vargas no final da Segunda Guerra Mundial, para desbravar o Centro- Oeste até o norte do Mato Grosso e sul do Pará, a convivência com mais de 13 grupos de índios levou Orlando e os irmãos Cláudio, Leonardo e Álvaro, a relançarem no Brasil a base humanista da política indigenista.


      O objetivo imediato da expedição Roncador-Xingu era fixar núcleos de povoamento na região central do Brasil e seguir até Manaus. O lema de Rondon, "Morrer, se necessário, for, matar nunca". Durante o contato com os nativos , os Villas Bôas promoveram a paz entre as comunidades indígenas em guerra há anos. Os irmãos acreditavam que unidas, as tribos seriam capazes de manter a hegemonia de suas terras e o seu modo de vida.


      Em co-autoria com o irmão Cláudio, Orlando publicou 12 livros e diversos artigos em jornais e revistas internacionais. Entre as revistas, a National Geographic Magazine. Juntos, ou individualmente, os irmãos Villas Bôas, receberam honras acadêmicas, cidada-nias e títulos honorários, além de homenagens a sua atuação na política de proteção à cultura indígena. Eles também foram indicados duas vezes para o Prêmio Nobel da Paz.

      História começou em 41

      A história de Orlando e seus três irmãos começou em 1941, quando resolveram se unir à expedição Roncador-Xingu. Só depois de mais de 40 anos deixaram a mata. Orlando declarou em diversas entrevistas que a criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961, foi conseguida de forma rápida por conta das boas relações dos Villas Bôas com o governo do então presidente, Jânio Quadros.


      Em outra declaração, Orlando Villas Bôas disse que esperava envelhecer como os índios. "Espero chegar à idade avançada sem passar pela senilidade. É curioso, mas entre os índios não existem velhos caducos. Quando eles percebem que essa degradação se aproxima, que vão depender de alguém, os velhos abreviam a morte, deixando de alimentar-se, expondo-se às intempéries e às doenças".


      Em 1978, Orlando deixou definitivamente seu cargo de diretor no Parque do Xingu. Em 1984, aposentou-se. Até morrer, viveu em uma casa confortável no bairro do Alto da Lapa, em São Paulo. O sertanista costumava dizer que a menina dos olhos era um grande galpão nos fundos da residência. No local, guardava centenas de objetos indígenas.

      Orlando era casado com a enfermeira Marina Villas Bôas e tinha dois filhos (Orlando Villas Boas Filho e Noel Villas Bôas). Ele contraiu ao longo de sua permanência em tribos indígenas malária por mais de 200 vezes.

      Internado no Hospital Albert Einstein, em 14 de novembro seu estado já era grave na última terça-feira, quando passou a respirar artificialmente. Orlando será enterrado no Cemitério do Morumbi, hoje às 14h.

      (Gazeta Mercantil/Página C7)(Adriana Miranda)

 

 

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