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O
crescimento do consumo de vinho no mundo não se deve
apenas a fatores econômicos
13 de
Dezembro de 2002
O
crescimento do consumo de vinho no mundo não se deve
apenas a fatores econômicos ou motivações de ordem
médica.
Há também
motivos filosóficos, culturais, sociais e psicológicos.
Podemos dizer que o nobre fermentado é a bebida do
nosso tempo, a que melhor se adapta à vida do homem pós-moderno.
Da Antigüidade à
Modernidade, nossa civilização sempre foi repleta de
aromas e sabores. Foi a pós-modernidade, idéia
dominante nas últimas décadas do século XX, que
suprimiu olfato e paladar do nosso cotidiano.
Não há
cheiros na televisão e o mundo dos computadores é
inodoro e insípido. Mas, apesar da evolução, as raízes
humanas permanecem. Assim, o vinho ao mesmo tempo
remete ao passado e compartilha de muitos traços
atribuídos à pós-modernidade. Proponho uma comparação:
A era em que vivemos
caracteriza-se por uma perda de fé em verdades
universais, como o cristianismo ou a ciência como
explicações do cotidiano, e uma correspondente ênfase
no pessoal e local.
E odores
e gostos são, por natureza, pessoais e locais. Nossa
bebida predileta adere a esta tendência por seu poder
de globalizar cheiros e gostos. Pode-se provar, através
desta bebida, a expressão gustativa de um solo e de
um tempo. Ao degustar um Solaia 1990, por exemplo,
estaremos nos deliciando com o gosto que só existiu
na Toscana, naquele ótimo ano.
Outra característica
do mundo de hoje é a mentalidade imediatista. Os
aromas e sabores de uma bebida são sensações de
momento, não podem ser preservadas. Ignoramos como
realmente eram os vinhos do passado.
Além
disso, há ainda o fato inegável de que, cada vez
mais, os vinhos são feitos para serem bebidos mais
jovens. Ninguém mais quer esperar 20 anos para abrir
uma garrafa.
A pós-modernidade é
também uma cultura de imitações e simulações, em
que as cópias predominam sobre os originais, e as
imagens sobre a substância.
Quantos
enófilos podem pagar por uma garrafa de um grande
Bordeaux ou visitar os castelos dessa região? Muitos
compram garrafas de diferentes partes do mundo, com
uvas bordalesas e que apresentam castelos ou abadias
em seus rótulos.No passado, as essências e gostos
eram intrínsecos às substâncias.
Se um
perfume tinha aroma de uma flor, significava que esta
flor realmente havia sido utilizada em sua elaboração.
Hoje os
aromas sintéticos, porém, evocam coisas que não estão
lá, presenças ausentes. Temos alimentos com gosto de
frutas que nunca existiram. Nosso fermentado não tem
nada de artificial, mas abusamos de imagens em sua
descrição. Quando dizemos que um Merlot evoca
ameixas pretas ou um Beaujolais Nouveau cheira a
banana, sabemos que estas frutas não estão lá.
Outro ponto relevante
da estética pós-moderna é o de que a diferença
agrega mais valor que a uniformidade. De uma maneira
geral, podemos dizer que onde o modernismo valorizava
o estabelecido, estável e compreensível, o pós-modernismo
prefere o flutuante, caótico e intuitivo.
E o que
é o néctar de Baco senão uma infinita combinação
de uvas, solos, gostos e aromas. Um líquido vivo, em
constante evolução, em que cada garrafa é única,
individual e mutante.Com um clique em seu mouse o
indivíduo contemporâneo pode acessar, em tempo real,
uma quantidade infinita de dados.
Enquanto
o sujeito do passado tinha uma concepção firme de
sua identidade, estabelecida no terreno estável da
razão, o sujeito pós-moderno é inundado por uma
profusão de estímulos cujo sentido muitas vezes é
apenas intuído. Ele convive com uma infinita e
imprecisa complexidade, enquanto o sujeito moderno
vivia num mundo de simplificações e certezas científicas.
E em qual outra bebida melhor cabe a qualificação de
complexa senão no vinho, em sua variedade sem limites
e evolução constante?
O homem de hoje vive à
procura das sensações, da emoção. Em sua concepção
psicológica a pós-modernidade declara que se deve
dar mais importância à sensibilidade do que à
inteligência, buscando assim o equilíbrio. E qual
bebida melhor inspira harmonia entre razão e emoção?
Como já foi dito "vinho é o único líquido
que, colocado numa taça, faz alguém pensar".
O principal alvo da
revolução pós-moderna é o próprio homem e não a
sociedade. Esta é mudada como uma conseqüência da
transformação de seus indivíduos. Uma revolução
de dentro para fora.
O
vinho é parte integrante desta revolução cultural.
Deixou, nas últimas décadas, de ser uma bebida
alimentar popular nos países do velho mundo, onde há
amplo consumo em todas as camadas, para se globalizar,
associando-se ao prazer hedonista, à sensibilidade,
à saúde, sofisticação, cultura, alegria de viver e
renovação, representada por cada nova safra. O vinho
tornou-se um símbolo nesta reconstrução do homem
por si mesmo.
Uma das únicas
características de nossa cultura contemporânea que o
nobre fermentado não veste é o isolamento. O ser pós-moderno,
apoiado em tecnologia e serviços, ameaçado pela violência
e pressionado pela competitividade tende a se tornar
"auto-suficiente" e se isolar. O vinho é o
avesso disso. É gregário, une pessoas em torno de
uma garrafa e inspira hábitos que caíram em desuso,
como o de conversar e partilhar.
(Fim de Semana/Página8)
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