
Lições da Rio +10, em Johannesburgo
ROBERTO CANDELORI
ESPECIAL PARA A FOLHA
O encerramento da Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável (ocorrida entre 26 de agosto e 4 deste mês),
em Johannesburgo, na África do Sul, foi marcado pela frustração. O
propósito de renovar os compromissos políticos, econômicos e sociais
ficou apenas na retórica.
O plano de ação aprovado na Rio +10 não estabeleceu prazos nem
definiu metas a serem cumpridas. Enunciou compromissos genéricos, ações
voluntárias e nenhum plano de intervenção global em relação ao
modelo de desenvolvimento vigente.
A proposta apresentada pelo Brasil, de substituição de matrizes energéticas
poluidoras por fontes renováveis de energia em 10% até 2010, não
emplacou. Como cerca de 80% da energia mundial vem de combustíveis fósseis,
o lobby dos países árabes, somado à pressão dos EUA, barrou a
iniciativa. O mesmo ocorreu em relação ao Protocolo de Kyoto (1997)
sobre a redução em 5% das emissões de gases causadores do efeito
estufa até 2012. Os EUA se recusam a rever o modelo de desenvolvimento
centrado na lógica econômica.
Passados dez anos do encontro no Rio de Janeiro, a Eco 92, em que se
estabeleceram as diretrizes acerca da biodiversidade, das mudanças climáticas
e do desenvolvimento sustentado, conclui-se que Johannesburgo
representou um retrocesso. Seu resultado sinaliza para as dificuldades
de um modelo que pretende conciliar crescimento econômico, preservação
ambiental e justiça social, pilares do desenvolvimento sustentável.
Alguns até comemoraram, mas essa é uma luta em que não haverá
vencedores. Aos partidários da crença "fundamentalista", que
reconhece nas forças do mercado e na sua dinâmica a solução final
para todos os problemas da Terra, Johannesburgo alertou: é preciso
mobilizar-se na defesa de um mundo mais igualitário, com mais respeito
ambiental, mais humanidade e menos submetido ao mercado.
Roberto Candelori é coordenador da
Cia de Ética, professor da Escola Móbile e do Objetivo.
E-mail: rcandelori@uol.com.br
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