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Kuarup
e a lenda da criação
São Paulo, 20 de
Dezembro de 2002 - A encenação é uma das mais
importantes para os índios da região do Xingu. O
Kuarup, a cerimônia dos mortos, é a representação
da lenda da criação. O ato não é realizado para
qualquer índio que morre na aldeia. Para merecer tal
honraria, é preciso ser de linhagem. Isto significa
ter sido acompanhado pelo herói Criador, o
Mavutsinim.
O sertanista Orlando
Villas Bôas, morto no dia 12 de dezembro, é o
típico homem que vai merecer esta distinção das
comunidades indígenas do Xingu, região em que ele
viveu durante boa parte da sua vida. Se a experiência
brasileira, por exemplo, é diferente da australiana,
no que diz respeito ao contato do homem branco com os
seus aborígenes, isto se deve, em grande parte, ao
trabalho de Orlando. A política preservacionista
adotada por ele nas tribos do Xingu permitiu, apesar
de toda a pressão que sobe a cada ano, que os índios
tivessem um pouco de sua cultura, e de seu modo de
viver no cotidiano, bem preservados.
"Os mortos são
representados por toras (de madeira especial, de
origem lendária) plantadas no centro da aldeia. Cada
família adorna seu ‘morto’ com os melhores e mais
caprichosos enfeites que possuem, e a seu pé choram
um dia e uma noite. Para trás, dois contadores, com o
corpo curvado, seguram com a mão esquerda um arco que
serve como cordão, enquanto com a direita sacodem o
maracá, que marca o ritmo do canto que entoam."
A descrição da cerimônia dos mortos, acompanhada ao
vivo por Orlando Villas Bôas, consta do seu livro
"A Marcha Para Oeste" e também está
reproduzida na obra "O Xingu dos Villas
Bôas", livro concluído pouco antes da morte do
sertanista. Além de lendas do Xingu, e dos textos de
Orlando, a obra reúne reportagens, depoimentos e
fotografias sobre a Expedição Roncador-Xingu que,
entre os anos de 1943 e 1978, levou o homem branco
para o interior do Brasil e, como um de seus
principais frutos, provocou a criação do parque
indígena do Xingu em 1961. A maioria das reportagens
agora reeditadas saiu publicada nas páginas do jornal
"O Estado de S. Paulo".
Orlando Villas Bôas, o
chefe da expedição, viveu até os 88 anos. Depois da
selva, onde ele viveu por quase 30 anos entre as
décadas de 40 e de 70, resolveu se instalar, durante
a sua aposentadoria que começou em 1984, em São
Paulo. Sua mulher, a enfermeira Marina, também fazia
parte da expedição Roncador-Xingu, e viveu durante
todo o tempo ao lado do marido, também na floresta.
Juntos, ambos contraíram malária quase 300 vezes.
Ela, umas 40. Ele, 253. Na expedição, ao lado dele,
também seguiram os irmãos Claudio, Leonardo e
Álvaro. O ritual para os mortos descrito pelo
próprio Orlando, o último dos irmãos a morrer, é
de 1998. Ele ocorreu em homenagem ao irmão Claudio,
falecido no mesmo ano, e ao seu outro irmão, Álvaro,
morto em 1995. Leonardo havia morrido em 1961, quando
os quatro ainda viviam a maior parte do tempo na
selva.
Fazer a releitura da
expedição Roncador-Xingu, por intermédio das
informações agora reeditadas, propicia ao leitor
observar, com maior distanciamento, o quanto
importante foi ter sido dirigida por Orlando Villas
Bôas. E, isto, em hipótese alguma, é contaminado
pela coincidência das datas: a do lançamento da obra
e da morte do seu principal criador.
Nascido no interior de
São Paulo, mais precisamente em Santa Cruz do Rio
Pardo em 1914, Orlando teve de mudar para a capital de
São Paulo por causa de uma hemiplegia que atacou
Agnello, o pai dos quatro sertanistas e de mais sete
filhos - dois mortos ainda crianças no interior de
São Paulo. Arlinda, a mãe, morreu em 1941, cinco
meses antes do pai. Sem recursos todos os filhos do
casal, além de largar os estudos, tiveram de
trabalhar para se sustentar. Apenas depois de alguns
trabalhos burocráticos em empresas da cidade é que
veio a redenção e a vontade de seguir apenas o
caminho que os bandeirantes - a filosofia era bastante
diferente - um dia empreenderam. Eles foram aceitos na
expedição em cargos de nenhum prestígio, que, em
princípio, seriam ocupados por analfabetos.
"Não tínhamos propriamente decidido integrar a
Expedição Roncador-Xingu", escreve Orlando
Villas Bôas no texto Rompendo Fronteiras, que consta
na íntegra do livro recém-publicado. "O que
queríamos era sair de São Paulo, onde, após a morte
de nossos pais, nada nos prendia. Mas, embora
quiséssemos retornar ao interior, não teria sentido
voltar para o mesmo interior de onde havíamos saído.
Resolvemos então partir para mais longe." Depois
de serem recusados formalmente na expedição pelo
coronel Flaviano de Matos Vanique, os irmãos Villas
Bôas não se deram por satisfeitos. "Marchamos
para o Araguaia e nos engajamos na expedição como
sertanejos analfabetos. Fomos admitidos."
Muito provavelmente,
além da inspiração dos feitos do Marechal Rondon,
os livros lidos na adolescência estavam induzindo,
mesmo que de forma inconsciente, aquela
nova fase da vida dos
irmãos. "Ainda na adolescência, lemos ‘Os
Sertões’, de Euclides da Cunha, ‘Viagem ao
Araguaia’, de Couto Magalhães, bem como livros
sobre os bandeirantes Fernão Dias Paes Leme e Raposo
Tavares." Orlando não conseguiu terminar o curso
secundário, por causa da crise financeira que assolou
a família com a morte dos pais.
A missão da
Expedição Roncador-Xingu era ocupar a região do
território brasileiro que iria do Planalto Central
até a Amazônia. Aquilo, nos 40, era considerado
apenas um grande vazio. O objetivo era exclusivamente
bélico. Várias cidades que hoje existem na selva
amazônica surgiram naquela época. O mesmo vale para
alguns aeroportos e pequenas vilas. Todas as campanhas
tiveram a sustentação administrativa da Fundação
Brasil Central, entidade criada pelo próprio governo
brasileiro.
Apesar de totalmente
fora dos objetivos, foi o contato com os índios que
encantou a família Villas Bôas. Invadir aquele mundo
apresentava graus diferentes de dificuldade. Tudo
dependia da tribo encontrada. Com os txukarrmães, por
exemplo, a situação ficou bastante tensa. As
mulheres da aldeia, descontentes porque os homens
brancos haviam levado poucos presentes para elas,
resolveram sair da comunidade. Os índios,
enfurecidos, capturaram os brancos e exigiram que eles
pedissem às mulheres que voltassem. Elas voltaram com
a promessa de que da próxima vez haveria mais
presentes. Tudo parecia que iria terminar bem. Ao
voltar, as índias se revoltaram novamente. O alvo,
desta vez, eram os alimentos. "Elas tinham levado
toda a comida da aldeia, e os homens estavam com fome.
As mulheres colocaram os alimentos no chão (sobre
folhas de bananeiras) e pisaram em cima." Os
homens da tribo, furiosos, resolveram capturar os
homens brancos pela segunda vez naquele dia, mas todos
haviam fugido. Um novo contato ocorreria apenas depois
de três meses.
Com muito tato, e
alguns tiros para o ar ou em direção à água, aos
poucos o contato foi ficando mais amistoso. É verdade
que algu-mas tribos nunca chegaram a ser contactadas.
Quer pelo seu isolamento geográfico, quer pela falta
de um espírito amistoso. Depois de "lutas
antropológicas" com os índios, o homem branco
é que passou a ser o inimigo mais direto. A pressão
econômica sobre a selva começava a existir. E, hoje,
está mais forte do que nunca. Por causa disso é que
uma das maiores vitórias de Orlando Villas Bôas foi
a criação, pelo governo, do parque nacional do Xingu
- hoje denominado Parque Indígena do Xingu -, em
1961. "Percebemos mais tarde que, de fato, as
comunidades do Xingu tiveram destino menos sofrido que
as demais comunidades indígenas brasileiras. Nossa
política procurava interferir o menos possível nas
organizações tribais de modo a não afetar os usos e
costumes dos índios." No ideal dos irmãos
Villas Bôas era o homem branco que não estava
preparado para integrar os índios ao seu dia-a-dia.
Para que o espírito do
bandeirante do século XX possa continuar feliz é
imprescindível que as premissas que provocaram a
criação do parque nacional do Xingu permaneçam
claras na mente dos bandeirantes do século XXI. O
texto do artigo de Orlando Villas Bôas Filho,
presente na obra agora lançada, mostra bem o tom do
desafio que se segue. "É evidente que uma
política indigenista deixada à mercê dos
imperativos de uma economia planificada pelo Estado
não poderia admitir que os índios fossem mantidos à
margem do progresso e, sobretudo, como óbice a seu
pleno desenvolvimento. A aceitação do conteúdo
dessa crítica à política protecionista dos irmãos
Villas Bôas implica que se esteja disposto a
corroborar com suas premissas, cujas raízes nossos
velhos bandeirantes, conheciam bem."
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