País não consegue extrair todo o potencial da agricultura familiar
 
      20 de Dezembro de 2002 - "Os investimentos necessários por emprego rural são inferiores aos da geração de raros e caríssimos empregos na grande indústria, que ainda são subsidiados pela guerra fiscal". "Não deixa de ser um paradoxo, enraizado no passado colonial e escravocrata do País, que o Brasil rural represente ao mesmo tempo um extraordinário potencial de desenvolvimento e o maior repositório da miséria e da exclusão", segundo constata Ignacy Sachs em seu "Desenvolvimento Humano...". Ele mesmo propõe, para vencer esse antagonismo, a consolidação e a modernização da agricultura familiar existente e a sua ampliação através da reforma agrária.

      O livro mostra detalhes do êxodo rural, um fenômeno mundial do século passado. Cita, por exemplo, o quanto a agricultura mecanizada solapou a agricultura manual, familiar. Recusa-se a acreditar, contudo, que o êxodo rural acelerado é uma necessidade inescapável: "A inevitabilidade do êxodo rural está sendo crescentemente contestada por estudos que indicam o potencial ainda inexplorado de desenvolvimento rural no País, baseado na maior absorção da mão-de-obra disponível no setor da agricultura familiar, convenientemente modernizada, e nas amplas oportunidades de geração de empregos rurais não-agrícolas nos agronegócios, em pequenas indústrias descentralizadas, de acordo com o padrão da terceira revolução industrial, nos serviços técnicos, sociais e pessoais".

      Emprego a baixo custo

      Sachs diz: "Os investimentos necessários por emprego rural são inferiores aos da geração de raros e caríssimos empregos na grande indústria, que acabam frequentemente por serem subsidiados através das guerras fiscais entre os Estados e Municípios empenhados em atrair investidores. O desenvolvimento rural passa assim a ser encarado como um elemento de solução geral, acenando inclusive com a possibilidade de se transformar numa alavanca da expansão da economia nacional, na medida em que um campo mais próspero gera um efeito multiplicador através da demanda por produtos industriais e serviços urbanos".

      Sachs cita o historiador José Eli da Veiga para afirmar que estudos recentes contribuíram para uma apreciação mais realista da distribuição espacial da população brasileira: "O Brasil urbano é menor do que se acreditava. No ano 2000, 96,3 milhões de brasileiros, ou seja, 58% do total (e não mais de 80%, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE), viviam nos 455 municípios urbanos; 51,6 milhões se encontravam no Brasil rural, nos 4.485 municípios rurais, e outros 21,7 milhões, nos 567 municípios qualificados de ambivalentes (ao mesmo tempo rurais e urbanos)".

      Força da família

      Para Ignacy Sachs, os imensos desafios à frente para combater o atraso e a pobreza rurais não devem ser menosprezados, mas a realidade é bem distante da visão da decadência geral e final do campo brasileiro, que só excetua o setor dinâmico de agricultura e pecuária "modernas", que tem participação destacada nas exportações brasileiras.

      Em 2001, relembra o autor, o agronegócio brasileiro foi responsável por quase US$ 24 bilhões de vendas externas, ou sejam, 41,2% das exportações do País, com um saldo positivo de US$ 19 bilhões. A agricultura e a pecuária brasileiras- em t ermos convencionais, sem considerar custos ambientais- são altamente competitivas. O custo de produção da soja no Mato Grosso representa 53% apenas do custo americano. Os dois setores geram poucos empregos diretos, mas têm efeito multiplicador sobre as demais atividades econômicas.

      É neste contexto, segundo Ignacy Sachs, que deve ser apreciado o futuro dos agricultores familiares, que constituem, em termos quantitativos, o maior contingente de pequenos produtores do Brasil.

      Os dados do censo agropecuário de 1995/96 indicam a existência de 4.139.369 estabelecimentos de agricultores familiares, com uma área total de 107.768.450 hectares, ou seja, 85,2% do total dos estabelecimentos e 30,5% da área total. O Valor Bruto da Produção (VBP) da agricultura familiar corresponde a 37,9% da produção agropecuária. Das 17,3 milhões de pessoas ocupadas na agricultura brasileira, 13.780.201, ou sejam, 76,9%, estão empregadas na agricultura familiar.

      Mercado é amplo

      Sachs aponta para a conclusão de que a consolidação da agricultura familiar e a promoção do desenvolvimento rural exigem o acesso simultâneo à terra, aos conhecimentos, às tecnologias apropriadas, às infra-estruturas (estradas, água para irrigação e energia), ao crédito e aos mercados. É preciso, segundo o autor, desmistificar a tese de que os alimentos produzidos pelas unidades familiares se defrontarão rapidamente com uma demanda saturada. Num país onde, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), um terço dos brasileiros ganha menos de R$ 80,00 por mês, o mercado interno tem ainda um potencial considerável, enquanto não for propiciada segurança alimentar a toda a população.

      Para ele, é necessário considerar ainda a existência de numerosos nichos de mercado constituídos por produtos de qualidade cuja produção no Brasil é ainda incipiente. O problema aí é assegurar aos agricultores familiares uma parcela razoável do valor agregado aos produtos primários, o que implica participação bem maior de pequenas unidades de transformação local, de preferência coletivas, em vez de reservar o processamento às empresas de grande porte, relegando os agricultores ao papel de meros fornecedores de matéria-prima.

      Compras Públicas

      Sachs mostra ainda que a busca pela melhoria da agricultura familiar deve chegar às compras públicas e ao acesso às grandes redes de distribuição. Nas compras públicas, destacam-se a merenda escolar e o abastecimento das casernas, dos hospitais e das prisões. A merenda escolar é objeto de um programa nacional, o maior programa de auxílio alimentar no mundo, fornecendo diariamente mais de 37 milhões de refeições durante os 200 dias do ano letivo. Só a Prefeitura de São Paulo é responsável por um milhão de merendas por dia.

      Já o acesso às grandes redes de distribuição exige, no que diz respeito à intermediação, iniciativas institucionais, no âmbito do empreendedorismo compartilhado: criação de cooperativas de produtores, de centrais de compra, de consórcios de exportação. Para que os produtos perecíveis da pequena agricultura cheguem regularmente às prateleiras dos supermercados, é preciso resolver as questões de controle de qualidade, de respeito às normas sanitárias- que nas suas formas atuais discriminam os pequenos produtores- além do transporte rápido, o que nos remete à melhoria das infra-estruturas e a do sistema de transportes.

      Baraúnas, um case

      O livro traz alguns cases de sucesso dos empreendimentos agrícolas familiares, entre os quais o do município de Baraúnas, na região noroeste do Rio Grande do Norte. Ali, segundo relata o autor, surgiu o mais novo polo de fruticultura irrigada do Brasil com a descoberta do potencial das águas subterrâneas da região.

      Sachs mostra que o dinamismo do município é resultado de uma saudável diversidade de empreendimentos agrícolas, onde a agricultura familiar responde por iniciativas empreendedoras importantes e convive com a produção em grande escala: "A primeira destas iniciativas relaciona-se ao próprio crescimento da agricultura familiar, a partir da da segunda metade dos anos 1980, com a criação dos primeiros projetos de reforma agrária. Em 2000, já havia 12 assentamentos nos municípios de Baraúnas, Apodi e Mossoró, envolvendo 700 famílias.

      (Gazeta Estado de São Paulo/Página 2)

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