|
Volta
ao mundo do vinho em cem garrafas
Rio, 20 de Dezembro de
2002 - Engana-se quem pensa que os afilhados de Baco
se interessam apenas pelos aspectos diretamente
ligados ao vinho. Além do prazer etílico, um dos
grandes charmes da bebida é proporcionar a aproximação
com diversas culturas, mais a geografia e história de
cada região produtora. Ao ser colocado na taça, esse
líquido equivale a um convite a dar voltas ao mundo,
descobrindo a expressão gustativa de cada lugar. Siga
o roteiro e embarque nesta viagem de prazer proposta
no texto abaixo e na tabela ao lado. O mais barato
parte de R$ 12 (Terra-nova Cabernet-Shiraz, da Miolo),
o mais caro, R$ 1.193 Château l’ Angelus, da
Mistral):
Portugal
É na terra de nossos
colonizadores e de muitas de nossas raízes culturais
o ponto de partida. A primeira sugestão é um típico
vinho verde da região do Minho, o Portal do Fidalgo.
Ao sul do Minho, no Douro, há grandes tintos, entre
eles o aclamado Quinta da Gaivosa ou o Duas Quintas
Reserva elaborado pelo craque João Nicolau de
Almeida. A jóia do Douro é, porém, o Porto em seus
diversos estilos, do branco, passando pelos aloirados
e envelhecidos Tawnys, à nobreza dos Vintages. O
Taylor Quinta da Terra Feita 1987 está no ponto e
merece ser provado. Ainda mais ao sul, no Dão, região
em ascensão, se encontram produtoras como a Quinta
das Maias Jaen. Na Bairrada, são cobiçadas as
garrafas do maior produtor local, Luis Pato. Que tal o
Vinha Pan 1996? Tinto de raça, com cor rubi e aromas
de baunilha, coco queimado, taninos presentes, porém
finos. O Alentejo, que despontou nos últimos anos
como a mais promissora região lusitana, produz, a meu
ver, o melhor tinto do país, o Mouchão Tonel 3-4,
possivelmente a maior expressão mundial da cepa
francesa Alicante Bouchet.
Espanha
A Espanha é a terra do
aperitivo perfeito, o Jerez. O Palo Cortado Viejo é
um fortificado branco e seco de dar orgulho a qualquer
cidadão desse país. Para quem conhece a Alvarinho
como uma uva eminentemente portuguesa, a dica é
experimentar o "Albariño" Veigadares,
elegante e amadurecido em carvalho. A verdadeira vocação
da terra de Cervantes, porém, são os tintos. De regiões
clássicas como a Rioja vem o Calvário, um líquido
mastigável, feito exclusivamente de vinhas velhas,
plantadas no ano da vitória, 1945. De áreas menos
conhecidas, como Yecla, sai o Hécula, um tinto de
excelente custo-benefício. Mas o pedaço de terra
espanhola que mais se valorizou nos últimos anos foi
o Priotato. Quer saber por que? Prove o Miserere 1999,
de longa guarda, com estrutura e elegância para os
paladares mais exigentes. A Catalunha, terra de Gaudí,
Picasso, Dalí, também lega bons espumantes Cava e de
bons tintos como o Mas La Plana, um Cabernet Sauvignon
100%, que conseguiu projeção internacional.
França
A França motiva várias
viagens enológicas. São diversas as regiões clássicas
com muitos exemplares que já transcenderam a
categoria de vinho e ingressaram na de obras de arte e
de símbolos de nobreza e sofisticação. No sentido
horário, tomamos como ponto de partida o
Languedoc-Roussillon, que é um "Novo Mundo"
dentro do "Velho Mundo", por causa de seus
vinhos modernos, fáceis de beber e a preços acessíveis.
Prove o Cuvée Arthur, do belo Château Cabezac, e verá.
Dali para Bordeaux onde temos o muito bom e acessível
Château de la Croix, obras de arte como o Château
l’Angélus e vinhos luxuriantes como Sauternes Château
Suduiraut. Ao norte, numa das partes mais lindas do país,
o Val de Loire tem belos castelos e magníficos vinhos
brancos, como o seco Pouilly Fumé La Moynerie. Em
Champagne, há rótulos irresistíveis como Mumm Brut
Cordon Rouge, com aromas de frutas e textura viva e
macia, e o mais complexo e evoluído Grande Sendrée
Brut 1995. Na Alsacia, fronteira com a Alemanha, a
pedida é a untuosidade, potência aromática e doçura
do Pinot Gris Vendanges Tardives Grand Cru "Altenbourg".
Mais abaixo, em Chablis uma garrafa da Domaine Laroche
mostra a nobreza dos brancos. Nessa mesma região,
tintos como Grevrey Chambertin 1er Cru, de Louis
Latour, são lendários. Localizado a leste, o Jura
apresenta curiosidades como Château Chalon, branco
seco envelhecido e oxidado que, sem ser fortificado.
Lembra um Jerez. A festa continua com a deliciosa
futilidade de um Beaujolais - o melhor é o de Joseph
Drouhin. No Vallée du Rhône, merecem atenção
tintos clássicos como o Châteauneuf-du-pape. Na
Provence, os alegres rosados, e quem melhor os faz é
a Domaines Ott.
Itália
Pode-se visitar este
pequeno país cem vezes e jamais conhecer todas as
possibilidades que ele oferece em garrafas. O Piemonte
proporciona os tintos mais sérios e de maior guarda
do país. Os Barolos e os Langue, à base da uva
Nebbiolo, exigem tempo de garrafa e experiência do
degustador. Gaja e Icardi são artistas neste tipo de
vinho. Mais ao sul, fica a Toscana, principal região
vinícola do país. Um dos ícones da região, eleito
em 2000 o melhor do mundo pela revista "Winespectator",
é o Solaia. Também da Toscana é o vinho italiano
mais famoso no mundo, o Chianti, e o produtor
Querciabella faz um ótimo exemplar. Da vizinha Úmbria,
é possível provar grandes vinhos tintos como o
Sagrantino de Montefalco 25 anni de Arnaldo Caprai, e,
o Cervaro della Sala, feito pelo Marquês Antinori,
talvez o maior branco do país. Em Abruzzo,
econtram-se vinhos modernos como os da Vinícola
Farnese, que oferece preço e qualidade. No salto da
bota, na região da Puglia, podemos encontrar
excepcionais tintos como o Patriglione 1990, feito da
casta Nero Romano. As ilhas Sicília, Sardenha e
Pantelleria oferecem tintos encorpados e bons brancos
de sobremesa. No outro extremo, o Veneto é berço do
Prosecco e, é claro, um Amarone della Valpolicella -
neste caso, o de Allegrini, é magnífico. Quase na
fronteira está a mais importante região de brancos
italianos, o Friuli, onde há vários bons produtores,
como Shiopetto e Volpe Pasini.
Suíça
No coração da Europa,
se produz branco de classe, o Ambassadeur Fumé.
Alemanha
A Riesling, para muitos
a maior entre as uvas brancas, chega à melhor expressão
em terras germânicas, e Dr. Burklin-Wolf conhece a
casta como ninguém. Seu Foster Pechstein Riesling é
um Premier Cru com classe e estrutura.
Áustria
A terra de Mozart é
conhecida pelos brancos. Para quebrar o protocolo,
vale investir no bom tinto, o Oxhoft, uma boa
surpresa.
Hungria
A capital Budapest é
de uma beleza fria e doce como o principal vinho do país,
o Tokaji. Quem aprecia vinhos de meditação deve
provar este Tokaji 5 Puttonyos de Jean-Marc Brocard.
Israel
Da Europa, chega-se ao
Oriente Médio dos vinhos. O Grand Vin da Domaine du
Castel, um corte de Cabernet-Sauvignon e Merlot, no
melhor estilo Bordeaux, representa muito bem o país.
Líbano
Como Israel, o Líbano
tem seus vinhos pouco divulgados no Brasil. Produtores
como o Château Musar e o Château Kefraya adicionam
à tradição milenar modernidade, qualidade e
exotismo.
África do Sul
A casta mais associada
à África do Sul é a tinta francesa Pinotage e um
boa opção é o Spice Route Flagship Pinotage 1999,
com notas de chocolate, café e muitas frutas maduras.
Austrália
Quando, em 1995, a
revista "Wine Spectator" elegeu o Penfolds
Grange como o melhor do mundo, para muitos foi uma
surpresa. Até então, pensar em Austrália era pensar
em cangurus e bumerangues. Hoje, o país nos
proporciona uma ótima gama de tintos (nestes a uva símbolo
é a Shiraz), brancos, doces e até fortificados, de
diversas regiões.
Nova Zelândia
Um dos mais novos países
produtores e um dos que mais cresceu nos últimos
anos, a Nova Zelândia ficou famosa pelos Sauvignon
Blancs, como o Claudy Bay e o Palliser. Os Pinot Noirs,
entre eles Wither Hills, e Chardonnays como o Neudorf,
também merecem atenção.
Estados Unidos
A terra de Tio Sam
oferece vinhos de excelente custo-benefício, como o
Delicato Shiraz, "Cult Wines", como o
Cardinalle, Cabernet Sauvignons consistentes, como o
Buena Vista Cerneros e bebidas mais bem descritas como
"um soco no queijo", como o Dry Creek Old
Vines Zinfaldel.
Chile
Um dos campeões de
venda no Brasil, o Chile, oferece também vinhos
superpremium como o Altazor e o Montes Folly Shiraz. Lá
a uva Carmenére é uma atração e o Carmenére
Private Reserve da Canepa, bom representante.
Argentina
As maiores pechinchas
em importados hoje vêm de nossos hermanos. Desde Tops
como o Enzo Bianchi até Malbecs como os de Luigi
Bosca, são todos ótimas compras.
Uruguai
A ex-colônia
brasileira tem chamado a atenção por seus exemplares
da tinta Tannat, encorpados e acessíveis, como o Don
Pascual Tannat Roble.
Brasil
Já podemos degustar
sem medo bons tintos do Sul e do Nordeste e, acima de
tudo, estourar neste fim de ano muitos espumantes, com
excepcional qualidade.
(Fim de Semana/Página9)(Marcelo
Copello)
|