Vinhos: Os grandes rótulos de 2002
 
      Bloomberg, 3 de Janeiro de 2003 - Neste ano, a lista dos mais memoráveis vinhos que experimento anualmente está repleta de clássicos. Mas um grande vinho de uma região negligenciada, uma pechincha de vinho antigo e vinhos para simples diversão também lideram a seleção para 2002. Todos eles oferecem um lampejo de para onde se caminha em 2003. 

Apesar da moda de vinhos "cult" e "de garagem", saborear bordeaux tintos clássicos de uma grande safra permanece um dos maiores prazeres em beber vinho - o que é o motivo de não ter hesitado em aproveitar a oportunidade de comparar oito vinhos finos da legendária safra de 1982.


      A lista incluiu três fabulosos premiers crus da comuna de Pauillac, mas o vinho que queria levar ao jantar naquela noite era o rico e aveludado Château Pichon Lalande 1982, que fica num platô de graciosa perfeição. Embora, dificilmente, se qualifique como pechincha, o vinho é vendido por cerca da metade do preço do Château Lafite ou Latour 1982. O condimentado, vigoroso e luxuoso engarrafamento da muito elogiada (e cara) safra 2000 deveria ter uma longevidade semelhante; o deliciosamente rico 2001, destaque dessa colheita muito criticada, será a melhor aquisição.


      Uma visita ao Domaine des Comtes Lafon, um dos melhores produtores de Borgonha branco, mostrou exatamente quanto o "terroir" - um solo singular e o microclima de um vinhedo - contribui para o caráter do vinho. Os três caros, raros e esplêndidos Meursaults, todos da excelente safra de 2000, ilustraram com contundência como vinhos Chardonnay podem ter três sabores diferentes quando são obtidos de três pequenas faixas de solo, mesmo que praticamente estejam uma ao lado da outra. 

O Meursault Genevrières tinha um caráter mineral exótico com tons de anis; embora rico e profundo, apresentava delicadeza subjacente. O Meursault Charmes era maior e mais arredondado - todo cítrico, avelã e carvalho tostado - , com textura cremosa e um gosto final longo. O Meursault Perrières era cortante e intenso.



      A obsessão pelo ranking de vinhos prossegue, mas a degustação de 14 champanhes de luxo me lembra que acima de um certo nível de qualidade não existe um melhor de todos; é tudo uma questão de estilo. Para elegância e delicadeza, a escolha foi o Taittinger Comtes de Champagne 1995 Blanc de Blancs todo Chardonnay, com buquê de especiarias e limão. Para harmonia e sutileza, o predileto foi o puro e meloso Pommery Cuvée Louise 1990 e o arredondado e cremoso Roederer Cristal 1994. Para opulência, a opção foi o dramático Pol Roger Cuvée Sir Winston Churchill 1990.

Em geral, quanto mais velho o vinho, mais caro é. Tradicionalmente isso tem sido verdadeiro em relação ao vinho do Porto vintage, que deve ser envelhecido na garrafa por umas duas décadas. Mas garrafas de 1994 custam tanto quanto as dos anos 70. Uma recente degustação das quatro melhores safras da década de 70 mostrou que são pechinchas. 

Prediletos: o voluptuoso e apetitoso Fonseca 1970 e o denso, condimentado e estruturado Taylor 1970, proporcionam todo o prazer que o Porto vintage maduro pode dar. Os mesmos vinhos da surpreendente safra 2000 são magníficos, mas os preços já custam a metade daqueles dos anos 70 e estes Portos não estão prontos para o consumo até 2020.

      Uma série de novos ingressantes na minha Single Malt Sweepstakes aparecem agora todos os anos. Em 2002, a lista incluiu mais uísques que terminam envelhecidos em barris antes usados para envelhecer diversos vinhos extravagantes e destilados. 

Apesar de essa tendência estar se tornando um tolo chamativo, apaixonei-me pelo novo Glenfiddich Havana Rum Finish de 21 anos. O tempo passado em tonéis de rum cubano deu ao destilado um acabamento rico, suave e doce, bem como traços de frutas tropicais, gengibre e casca de laranja.

      Carmignano é a menos conhecida das regiões viníferas da Toscana, mas uma degustação do elegante Villa di Capezzana Carmignano que remonta a 1931 conven-ce que os grandes cortes Sangiovese-Cabernet Sauvignon da região merecem ser mais conhecidos. 

Destaque para o extraordinário 1969, ainda repleto de fruta madura, sobreposta por sabores complexos. Também se destaca o elegante 1981; o harmonioso 1988, e o vigoroso e delicioso 1995. Com o uso de mais Cabernet e carvalho no 1998 de textura aveludada e no ousado e intenso 1999, o estilo desse vinho peculiar está ficando desconfortavelmente internacional. Tomara que Capezzana não leve isso longe demais.

      Minha experiência mais surpreendente em degustação de vinho foi um jantar pela Morte da Rolha, que contou com um caixão cheio de rolhas, comida negra e 35 vinhos da vinícola Bonny Doon Vineyard da Califórnia no esplendor do Campbell Apartment, no Central Station de Nova York. 

A vinícola pretende descartar as rolhas e engarrafar todos os seus vinhos com tampas de rosca. Com Randall Grahm como anfitrião - espirituoso produtor independente de vinhos que obteve fama como o primeiro campeão de variedades Rhône na Califórnia - o jantar ressaltava a idéia de que, acima de tudo, o vinho deve ser diversão. Le Cigare Volant é um blend de ameixa e amora silvestre ao estilo do Rhône, pode ser uma bebida simplesmente deliciosa. 

Mas a degustação de todos os 17 das safras soberbas mostrou que o vinho também pode envelhecer: os 1987, 1991 e 1995 eram maravilhosos, assim como os 1999 e 2000. O Grahm’s Old Telegram, um condimentado, escuro e intenso Mourvedre, e outro predileto: destacaria os 1986 e 1995 como sucessos notáveis. Será que as futuras garrafas com tampas de rosca envelhecerão tão bem? Veremos.

RETORNAR INDEX SUBIR DOCUMENTO