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SISTEMA
DE PECUÁRIA BOVINA ORGÂNICA NO PANTANAL
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Equipe
da Embrapa Pantanal:
Sandra Aparecida Santos; Roberto Aguilar M. S. Silva;
José Aníbal Comastri Filho; Sandra Mara Araújo Crispim;
Aiesca Oliveira Pellegrin
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O
sistema de produção da pecuária de corte orgânica
baseia-se numa visão holística, que está
inserido dentro de princípios de agroecossistemas
sustentáveis, cujo enfoque engloba dois
componentes essenciais: ambiental e social. Este
sistema objetiva uma produção que mantenha o
equilíbrio ecológico dos agroecossistemas e com
a satisfação, direta, ou indireta , das
necessidades humanas.
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O
Pantanal instituido recentemente como ‘Reserva
da Biosfera’, é uma planície periodicamente
inundável, caracterizada pela presença de
extensas áreas de campos naturais, favorecendo a
atividade pastoril, razão pela qual, a região
tem sua economia voltada principalmente para a
exploração extensiva da pecuária de corte. O
Pantanal é formado por grandes propriedades
privadas, cujo manejo tradicional da pecuária
extensiva por cerca de 200 anos tem contribuído
para a conservação dessa região única no
mundo. Vários criadores pantaneiros vem se
associando, com o objetivo de beneficiar-se deste
sistema natural de criação, procurando
alternativas tecnológicas para aumentar a
produtividade animal de forma sustentável.
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O
manejo sustentável de sistemas complexos, como o
Pantanal, é extremamente difícil e constitui o
principal desafio de cientistas, técnicos e
proprietários rurais. O aproveitamento de uma área
no Pantanal não deve ser unilateral, sendo necessário
entender todo o processo (interações entre
componentes bióticos e abióticos) e o papel de
cada espécie no seu respectivo ecossistema.
Portanto, o manejo sustentável deve se basear nos
requerimentos das espécies de flora e fauna
integrado com os requerimentos dos animais exóticos
introduzidos e as necessidades do homem,
levando-se em consideração as limitações do
ambiente.
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O
Pantanal é constituído por várias
fitofisionomias (unidades de paisagem) que compõem
um conjunto de hábitats. Dentro deste conjunto de
hábitats, existem vários tipos que embora
de tamanho reduzido, constituem ambientes
chaves para a manutenção biológica do sistema,
tais como capões (ilhas circulares de matas mais
elevada que a planície inundável), cordilheiras
( cordões arenosos com altura de 1 a 3 m acima da
planície alagável, coberta por vegetação de
cerrado, cerradão e mata), lagoas permanentes (baías),
corixos, vazantes, ninhais, etc. As funções
destes hábitats são múltiplas e complexas (Junk
e Silva, 1997).
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Embora
a produção pecuária bovina no Pantanal esteja
próxima a um sistema orgânico de produção,
para a sua certificação são exigidos alguns
critérios/procedimentos básicos descritos na
Instrução Normativa nº 007 e normas da
certificadora responsável. Além do mais, deve
atender a legislação ambiental vigente Lei nº
4771, de 15 de setembro de 1965 e, de 17 de maio
de 1999. Portanto, na região do Pantanal, nem
sempre todas as propriedades terão condições viáveis
para a implantação do sistema orgânico.
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Para
a implantação
de um sistema orgânico no Pantanal, é importante
caracterizar as propriedades em função dos
diferentes de tipos fitofisionômicos e a ocorrência/intensidade
de inundação, pois
estes são fatores importantes a serem
considerados quando da tomada de decisões para a
conservação, uso e ocupação da área,
especialmente em relação a produção de
bovinos. As áreas
devem ter capacidade para manter os animais
durante o ano todo, ou seja, em condições
adversas de seca
e cheia. Para atender este requisito é necessário
mapear as invernadas (Santos et al., 2000),
visando conhecer os tipos de pastagens disponíveis
(fitofisionomias) e a proporção da área
inundada, em anos de máxima inundação.
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No
caso de propriedades que
podem sofrer inundação em toda a área
(foto 1), e que necessitam utilizar o manejo
integrado entre duas propriedades ou duas áreas
distantes uma da outra (dentro do Pantanal), ambas
as propriedades/áreas utilizadas devem estar
dentro dos critérios mínimos de produção orgânica,
ou seja, certificadas.
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Foto
1 – Vista aérea do Pantanal, durante
anos que ocorrem máxima inundação.
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As
áreas ideais devem ter como base as
fitofisionomias preferidas por bovinos para
pastejo que são campo limpo com predominância de
espécies preferidas, tais como Axonopus
purpusii, Mesosteum
chaseae, entre outras e áreas baixas como
bordas de baías permanentes, baías temporárias,
vazantes e baixadas em geral.
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A
taxa de lotação deve ser leve a mediana
(estimada em função da proporção de tipos
fitofisionômicos disponíveis), pois a pressão
de pastejo é o principal fator que influencia a
condição ecológica do ecossistema pastagem e o
nível de produção animal. Invernadas que
possuem maior proporção de áreas de campo limpo
e áreas baixas apresentam maior capacidade de
suporte, porém, esta situação depende do nível/distribuição
de precipitação,
da área inundável e tempo de inundação;
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A
estimativa da capacidade deve ser flexível em função
das condições ambientais. É recomendável que o
sistema seja auto-sustentável com a utilização
dos recursos localmente disponíveis, sendo que,
nem sempre isto será possível. Por exemplo, no
caso de inundação de grande parte das áreas
preferidas por bovinos e de não haver áreas
altas que suportem a produção animal, uma opção
seria a suplementação das vacas com alimentos de
origem orgânica, pois dentro do sistema orgânico,
os animais não devem passar por restrições
alimentares. Portanto, o produtor deve trabalhar
com estratégias de manejo, variáveis em função
das condições ambientais.
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As
áreas escolhidas devem possuir fitofisionomias o
mais natural possível, com pouca influência antrópica.
Evitar áreas com modificações antrópicas
severas como construção de diques, áreas
degradadas, etc. Evitar áreas com pastagens
degradadas. Para isto, sugere-se usar algumas espécies
indicadoras de degradação, tais como Richardia
grandiflora, Walteria
communis, Stilpnopappus
trichospiroides, entre outras. Nesta avaliação
também é de extrema importância considerar o nível
de cobertura do solo.
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Na
foto 2 pode ser visualizado algumas
fitofisionomias típicas da sub-região da Nhecolândia,
Pantanal.
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Foto
2 – Vista aérea da sub-região da
Nhecolândia durante o período de seca,
onde 1- as áreas mais baixas como
bordas de baías, vazantes e baixadas em
geral são usadas para forrageamento por
vários herbívoros silvestres como
veado campeiro (Ozotocerus
bezoarticus leucoagaster) (Soares e
Santos, 1996), capivaras (Hydrochaeris
hydrochaeris), entre outros. Além
do mais, estas áreas constituem num
banco de proteína para os bovinos e eqüinos,
pois possuem espécies de alta qualidade
nutricional, sendo altamente preferidas
por estes animais (Santos, 2001).
Portanto, estas áreas devem ser
preservadas; 2 - no caso de espécies
cultivadas, estas devem ser
introduzidas, preferencialmente, nas áreas
de campo-cerrado, capim vermelho (Andropogon
hypogynus) e também áreas pouco
usadas para pastejo como ‘caronal’ (áreas
com predominância do capim carona (Elyonurus
muticus), áreas de campo sujo (Comastri-Filho,
1997), e outras identificadas ‘in
loco’; 3 - O desmatamento de capões e
cordilheiras (áreas pouco ou não alagáveis)
não é recomendável, pois destrói hábitats
chaves, com flora e fauna específicas,
que tem a função de refúgio e sítios
de nidificação de numerosas espécies.
No Pantanal, existem cerca de 656 espécies
de aves. Em habitat de floresta, ocorrem
443 espécies de aves (67,5%), e o
restante, em habitats de alguma forma
abertos como cerrados, campos inundáveis,
rios, baías, corixos e pastagens. Um
total de 286 espécies (43,6%) ocorrem
somente em floresta (Cintra e Antas,
1996). Estudos de
Tubelis e Tomas (1996) tem
mostrado que a fragmentação das
cordilheiras tende a reduzir a
diversidade e abundância de espécies
de aves de habitats florestais no
Pantanal. Pelo menos 156 espécies de
aves (23,7%) no Pantanal vivem ou
dependem de alguma forma de ambientes
aquáticos As espécies encontradas na
planície de inundação ou áreas úmidas
do Pantanal certamente estão adaptadas
às condições de cheias e secas do rio
Paraguai (pulsos de inundação).
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Assim,
qualquer alteração antrópica de grande
magnitude, que altere esses pulsos, reduzirá a
diversidade e abundância de animais, podendo
extinguir muitas espécies ainda nem sequer
catalogadas (Lourival et al., 1999).
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Nas
propriedades que possuem grande proporção de
cordilheiras em todas as invernadas, pode-se
aceitar o desmatamento de parte desta área, desde
que não sejam áreas de reserva legal (20% da
propriedade)
e de preservação permanente, situada ao
longo dos rios ou de qualquer curso d’água, a
critério de autoridade competente. Também, deve
ser considerado a proteção de sítios ambientais
importantes para a fauna
já comentados anteriormente. Além do
mais, estas áreas constituem recursos cênicos,
importante para o ecoturismo e possuem um banco de
germoplasma forrageiro ainda pouco estudado.
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No
caso de certificar apenas parte (invernada) da
fazenda como de produção orgânica, a área
escolhida deve ser aceirada interna e externamente
para evitar queimadas/incêndios acidentais.
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As
propriedades devem dispor de infra estrutura mínima,
tais como vias de acesso facilitadas, meios de
comunicação, etc., pois o transporte dos animais
pode ter influência negativa sobre o bem estar
animal e a qualidade da carne.
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Na
implantação de qualquer sistema de produção,
especialmente o orgânico, ocorre a necessidade de
medir o impacto sobre atributos ambientais tais
como erosão do solo, estado de conservação da
pastagem, diversidade de plantas e avi-fauna,
qualidade da água, entre outros. Desta forma, será
necessário conhecer processos ecológicos chaves
que possam fornecer indicadores ambientais para
tomadas de decisões e servir como base
para desenvolver e interpretar sistemas de
monitoramento.
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Foto
3 – No Pantanal, os bovinos vivem em
conjunto com os grandes herbívoros
silvestres, como o veado campeiro. |
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Neste sistema o produtor pantaneiro deve
preocupar-se com o sistema com um todo, de modo
que a produtividade obtida seja economicamente viável,
ecologicamente saudável e socialmente justa.
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| REFERÊNCIAS |
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COMASTRI
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Centro de Pesquisa Agropecuária do Pantanal
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