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Da
horta ao estrelato
São Paulo, 10 de Janeiro
de 2003 - A abóbora que se transforma em carruagem...
uma doce imagem da infância. Para mim, por sorte, ela não
ficou distante, presa somente a um conto de fadas: de
uma certa forma, faz parte do dia-a-dia de quem abraça
o mundo da gastronomia. A mágica se faz cada vez que um
prato parte do mais básico dos ingredientes - como a própria
abóbora da Gata Borralheira (que nas panelas pode
virar, por exemplo, um incomparável recheio de massa
fresca, ao aroma de mostarda de cremona e licor Amareto)
ou um outro legume da horta - e se transforma em
estrela. Cheia de detalhes, elaboração, sofisticação.
O que pode ser o ponto de
partida? As possibilidades são incontáveis. A
erva-doce, o tomate, a cebola, as favas, o milho, a
batata, o pimentão, o repolho... Parecem simples
demais? Mas imagine uma berinjela. Aberta ao meio,
recheada de bocadinhos do mais puro queijo de cabra,
carne de javali, folhas de ervas aromáticas, cebolas e
tomates, entre outros ingredientes. Tudo ao forno, de
maneira que chegue dourado e fumegante à mesa e ao
paladar de quem for degustá-la.
Não se trata de nada inédito.
Pelo contrário, o conceito de valorizar ingredientes
aparentemente simples é milenar. Na alimentação
mediterrânea, por exemplo, é dos mais utilizados. O
importante é dar a chance de reencontrar tudo isso de
forma renovada. É acrescentar um toque pessoal, o que
fica mais fácil com os incríveis recursos culinários
hoje disponíveis.
Antes de mais nada, há
de se soltar a imaginação. Mas com critério: nem toda
combinação dá certo. A intuição e a prática nos
ajudam, no entanto nada mais seguro do que provar. E,
quando preciso, não ter preguiça de recomeçar. As
alcachofras, por exemplo, me dão muitas idéias que
procuro pôr em prática na época desses maravilhosos
botões. Certa vez, transformei seus fundos carnudos em
uma espécie de "Tarte Tatin" salgada. Ou
seja, com os "gomos" de alcachofra para cima,
a "massa" (que na verdade foi feita de risoto)
para baixo. Relembrando o princípio da famosa torta de
maçãs com a qual as irmãs Tatin, no início do século
XX, deliciavam os comensais, em seu hotel-restaurante em
Lamotte-Beuvron, na França (maçãs em cima, massa
embaixo).
A alcachofra, com os
cuidados que o cultivo exige, acaba sendo cara para o
consumidor. Mas há tantas outras escolhas acessíveis!
O tomate é um desses casos. Inseparável companheiro,
nem concebo a cozinha sem ele. Pois também pode se
tornar uma estrela - e das brilhantes. Até doce pode
virar! (uma deliciosa compota). E muito mais. Por
exemplo, dá para transformá-lo em apreciados nhoques
(com o tomate seco no ponto adequado), servidos ao lado
de outros, de berinjela e de batatas ao parmesão, com
molho cremoso de alho assado entre ervas, num processo
que o torna suave e aromático.
E a cebola, então? Está
aí outra coadjuvante que pode bem ser protagonista -
com muitas honras. Só para dar uma idéia, pode-se
fazer com ela uma cipollata em forma de galette. A
cipollata em si é um prato antigo, típico da Umbria,
preparado com especiarias, ervas frescas, uvas-passas e
ameixas. O detalhe especial é embrulhá-la em finíssimas
"folhas" crocantes de berinjela (lá vem ela
de novo!). Fica diferente e requintado.
Os caminhos que esses
ingredientes da horta nos oferecem me parecem infinitos.
Se bem trabalhados, podem conduzir a resultados muito
ricos - mesmo que para ser adquiridos não exijam tanta
riqueza assim... E essa é a parte mais interessante da
história, a meu ver: são elementos básicos (quem não
os tem em sua cozinha?) que podem produzir verdadeiros
"milagres". Ao alcance de todos os que gostam
de se lançar às aventuras do universo do paladar.
Instigantes, às vezes perigosas (a balança que o
diga!), mas em geral divertidas e deliciosas.
Lyndinha Sayon
é proprietária do
restaurante Dolce Villa (tel. 11 3167-2882)
(Fim de Semana/Página9)(Lyndinha
Sayon - Especial para a Gazeta Mercantil)
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