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O recém-lançado
"Cozinha Judaica: 5000 Anos de Histórias e
Gastronomia"
São Paulo, 10 de Janeiro de 2003
- A pesar de sua riqueza, a culinária judaica não foi tema
anteriormente de um livro de fôlego que a representasse em
todos seus aspectos no Brasil. Havia, sim, obras muito simples,
em geral, destinadas aos membros da comunidade.
O recém-lançado
"Cozinha Judaica: 5000 Anos de Histórias e
Gastronomia" (Record, 344 páginas, R$ 36), de Marcia
Algranti, muda completamente esse panorama. A autora, que
escreveu também o precioso "Pequeno Dicionário da
Gula" reunindo termos gastronômicos com as devidas explicações,
planejava organizar mais uma obra em verbetes. Felizmente,
descartou essa idéia e acrescentou mais sabor e informação
para o leitor.
Nas primeiras duas partes do
livro, Algranti explica quem é o povo judeu desde a sua diáspora
pelo mundo "muitos séculos atrás". Nesse percursos
por vários países, ela vai resgatando as tendências culinárias
norteadas por duas correntes: os ashkenazim e sepharadim.
Entendam-se ashkenazim como os judeus da Alemanha, norte da França
e Europa do Leste, autores de pratos pródigos em gordura de
galinha, ideais para as regiões de baixa temperatura. No outro
extremo, os sepharadim, hebreus que se fixaram na Península Ibérica,
Espanha, norte da África e Oriente Médio. Nessas áreas de
calor intenso, produziram especialidade mais leves, com fartura
de ingredientes como olivas, tomate e sêmola. Essas diferenças
produziram culinárias distintas.
Antes de passar às receitas, a
autora apresenta um interessante painel da história judaica
sempre relacionada aos hábitos alimentares. Descreve, por
exemplo, as proibições como a da carne suína, extraída de um
animal considerado impuro, sujo. Algranti reproduz o Levítico,
um dos livro bíblicos cujas palavras são seguidas pelos judeus
ortodoxos: "O porco deve ser proscrito porque, apesar de
ter o casco fendido, partido em duas unhas, não rumina"
(11:17).
Entre os ortodoxos, só podem ser
consumidos os alimentos kasher, já que há um conjunto de rígidas
normas reguladoras, que se aplicam particularmente aos produtos
de origem animal. Além disso, nos abatedouros os animais devem
ser mortos segundo métodos rituais, com acompanhamento de um
rabino. Os alimentos vegetais não encontram restrições. Por
isso, as batatas, de origem americana, foram incorporadas aos
deliciosos varenikes. São usadas para rechear esses raviólis
cobertos por cebola dourada, um clássico ashkenazim. Pena que a
autora quando fale do Shmaltz, a gordura de galinha usada também
no recheio, se limite a dizer que os varenikes da cozinha russa
e polonesa foram absorvidos pela cozinha judaica em geral, sem
indicar a partir de quando isso ocorreu.
A escritora, que teve o cuidado
de incluir um glossário de termos para consulta rápida ao
final do volume e uma bibliografia, detalha ainda como são as
festividades e sua relação com a mesa. Pode-se conhecer os
pratos apreciados no Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, ou no
Pessach, a Páscoa dos judeus, considerado o ponto alto gastronômico
entre as festas. O Charosset, pasta doce que simboliza o barro
usado pelos judeus escravizados no Antigo Egito, é feito com
diferentes matéria-primas essenciais. O sepharadim usam tâmaras
como ingrediente básico; os ashkenazim fazem com maçãs.
Existem receitas que empregam até bananas misturadas com frutas
secas, segundo Algranti, que explica aos leitores somente as de
tâmaras e as feitas com maçãs.
A lista de receitas de Marcia
Algranti é aberta por uma seleção de pães. Este repórter
testou o Hanoch’s Olive Brot (veja receita abaixo), pão de
Hanoch Bar Shalom, em Israel. Ao sair do forno, os pães exalam
um aroma prodigioso e são deliciosos. Só que para esta receita
dar certo, depois que se acrescentaram as azeitonas à massa foi
necessária uma xícara extra de farinha, o dobro do que foi
indicado.
Como esta, muitas das receitas são
acompanhadas de histórias saborosas. Em todas elas há sempre
um comentário enriquecedor. O leitor vai se deliciar com versões
de borscht, a sopa de beterrabas de origem russa, ucraniana,
polonesa ou lituana, a sopa de alho grega de Salônica, o peixe
com molho de alcachofra italiano, os pombos recheados
israelitas, o cuscuz com sete legumes marroquinos, numa
verdadeira volta ao mundo pela culinária judaica.
(Fim de Semana/Página8)(Arnaldo
Lorençato)
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