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Coreografia
dionisíaca para apreciar o vinho
10 de Janeiro de 2003 - Segurando a
taça por sua haste, fez girar o líquido enquanto o observava com
seriedade. Aproximou o nariz do copo e aspirou profundamente, de
olhos fechados, até encher os pulmões. Só então colocou a
bebida na boca, para em seguida bochechar ruidosamente antes de
ingerir. Todos em volta riram. O líquido era água e quem o
bebia, um menino de 6 anos, filho de um enólogo. O degustador
mirim, com sua percepção aguçada ironizou os trejeitos do pai e
tocou num tema recorrente: o gestual inerente aos apreciadores de
vinho.
Quem degusta com freqüência acaba
desenvolvendo alguns tiques característicos. Estes maneirismos já
fazem parte do rico folclore do nobre fermentado. De discreta a
espalhafatosa, passando por cômica, quantas vezes esta
coreografia peculiar não foi satirizada? Muitas das vezes com razão,
pois se o procedimento for exagerado pode beirar o ridículo. O
bom apreciador o executa com naturalidade e sem afetação.
Mas quais são estes gestos típicos
e por que são feitos? Para começar segura-se a taça por sua
haste ou sua base, nunca por seu corpo, para não esquentar a
bebida e para não deixar marcas de dedo no vidro, o que
prejudicaria a apreciação visual do líquido. Observa-se o vinho
com a taça inclinada contra um fundo branco, para avaliar sua cor
e reflexos. Em seguida o movimento que delata e distingue um
iniciado em meio à multidão, o de fazer o líquido girar dentro
da taça. Para os afilhados de Baco este gesto torna-se tão
natural que já me surpreendi muitas vezes fazendo redemoinhos em
copos de água. A prática visa aerar o vinho, fazer com que este
interaja com o oxigênio e libere seus aromas.
Existem é claro muitos estilos
para tal. Giradores rápidos, lentos, rítmicos ou abruptos. Há
os destrógiros e os sinistrógiros. Há os que seguram a taça
pela haste e os que usam sua base. Aos neófitos sempre aconselho
rodar a taça apoiada sobre uma mesa, evitando derramar bebida (não,
em hipótese alguma gira-se a mesa...). Há os que usam não só a
mão, mas todo o braço ou até todo o corpo, embora o mais
simples seja usar apenas o pulso. Neste caso, usar a munheca é
muito útil e não interfere em sua opção sexual.
Em seguida, apresenta-se o vinho ao
olfato num ato simples e natural: inclina-se a taça, aproxima-se
o nariz e inspira-se. De olhos fechados, consultando nossa mais
remota memória, procuramos associar os cheiros do fermentado a
outros já sentidos antes. Neste momento a expressão facial do
apreciador, que dirá se a amostra é realmente de classe, poderá
se comparar à que Chopin deve ter feito ao improvisar as
primeiras notas do seu mais famoso "Noturno". Pode ser
interessante cheirar com a narina esquerda e depois com a direita,
pois a sensibilidade nunca é a mesma em ambas. Usa-se também
buscar aromas na borda superior da taça ou na inferior, pois
fragrâncias mais pesadas e mais leves espalham-se por diferentes
partes do vidro. Pode-se ainda deixar a taça quieta alguns
minutos antes de, cuidadosamente, sem balançar o liquido, submetê-lo
ao olfato.
Mas é ao colocar o líquido da
boca que surgem os gestos mais caricatos deste ritual. A cartilha
manda, primeiramente, mastigar o vinho, deixar que afunde na língua
e passeie pelo palato, para que se possa sentir seu corpo, consistência,
pungência e maciez ou aspereza. Pode-se também, com o líquido
ainda na boca e fazendo biquinho, sugar ar de modo a provocar
evaporação e sentir os "aromas de boca". Após engolir
verifica-se um possível amargor percebido no fim da língua,
quase na garganta, e o calor provocado pelo álcool no descer da
bebida ao estômago.
Muitos profissionais degustam com
tanta freqüência que, sem perceber exageram estes atos, puxando
uma tragada poderosa do líquido, quase assobiando ao sugar ar e,
com muito garbo, cuspindo no balde de despejo mais próximo. Sim,
o folclórico ato de cuspir o líquido realmente existe, pode ser
desperdício, mas é uma necessidade profissional. Em eventos de
maior porte é por vezes necessário avaliar dezenas ou até
centenas de amostras em um único dia e, é claro, lembrar de
todas no dia seguinte.
Para muitas pessoas, gesticular
independe de estar degustando vinhos. Conheço muitos italianos
que gesticulam ao telefone. Cada degustador tende a desenvolver
seu próprio estilo, seus tiques, sua expressão corporal que
ajuda a apreciar a bebida. É importante apenas frisar que tudo
isso é dispensável se a garrafa tiver sido aberta por puro
prazer, como acontece na maioria das vezes. Degustações técnicas
são feitas apenas quando o intuito é avaliar uma garrafa para
uma finalidade especifica.
(Fim de Semana/Página8)
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