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Era uma
verdadeira revolução gastronômica capitaneada por mestres
como Gaston Lenotre, Jean e Pierre Troisgros,...
São Paulo, 10 de Janeiro de 2003
- Em 1976, a nouvelle cuisine estava no auge. Era uma verdadeira
revolução gastronômica capitaneada por mestres como Gaston
Lenotre, Jean e Pierre Troisgros, Roger Vergé, Michel Guérard
e Paul Bocuse. Principal expoente do grupo, nesse mesmo ano
Bocuse decide escrever um livro que se tornou um clássico:
"La Cuisine du Marché", que na versão em português
agora republicada ganhou o nome de "A Cozinha de Paul
Bocuse" (Record, tradução de Vera Pedroso e Luzia Machado
da Costa, 624 págs., R$ 50).
Talvez hoje, as propostas do
mestre francês não pareçam novidade de tão assimiladas que
foram nestas últimas três décadas. A regra cardeal que
norteia o volume austero, sem quaisquers ornamentos, é o
frescor dos alimentos. Antes de decidir preparar qualquer prato,
Bocuse diz que vai ao mercado todas as manhãs. Lá escolhe o
que parece ter mais qualidade. Só assim pode decidir o que
estará no cardápio do almoço e do jantar daquele dia. Há
muito, monsieur Bocuse não vai ao mercado. Além do consagrado
restaurante que mantém na região de Lyon, três estrelas no
guia "Michelin", o cozinheiro septuagenário mantém
uma rede mundial de casas com seu nome ou sua consultoria,
inclusive na Disney da Flórida. Tem também uma embaixada
brasileira, o Saint Honoré, no Rio de Janeiro. É um empresário
igualmente talentoso, com um marketing de primeira. Apesar desse
hiato temporal, seus ensinamentos continuam preciosos.
As palavras do chef são
dirigidas não a profissionais, mas às donas de casa, com quem
estabelece um diálogo explicando o quanto o simples é difícil.
Além de apresentar algumas das arrojadas receitas, propõe uma
revisão das culinárias básica e clássica. Ainda que a
qualidade dos ingredientes seja essencial para que qualquer
prato brilhe de verdade, ela não é o único item. Bocuse
determina cortar os excessos. Nenhum alimento deve ser cozido
demais, única forma de manter a textura perfeita. O sabor de
cada ingrediente deve ser enaltecido; portanto, nada de abusar
de condimentos, o que é quase um crime inafiançável no fogão.
O ponto de partida de Bocuse é
apresentar matérias-primas e suas características. No capítulo
destinado aos ovos, por exemplo, o mestre começa por dizer que
os de tamanho médio encontrados na França devem pesar cerca de
60 gramas. E prossegue com uma dica tão simples quanto
fundamental: ao chacoalhar um deles junto da orelha, o ovo não
deve produzir barulho. Se isso acontecer, é prova de que é
velho.
Eleito pelo respeitado guia
"Gault Millau" como o cozinheiro do século, Bocuse
explica como fritar um simples ovo e dá indicações precisas
para que o resultado seja perfeito. Detalha a quantidade de
azeite, o momento ideal para frigir e indica como deve ficar o
resultado. Melhor ainda no caso das omeletes. O chef ensina uma
regra de ouro para tornar o prato do cotidiano muito mais
apetitoso: "Bater os ovos levemente com um garfo, de modo a
apenas misturar as claras com as gemas, sem que as primeiras
percam sua qualidade viscosa. Bater demasiado liquefaz o ovo,
que jogado na manteiga quente, não incha. A omelete fica então
pesada e com um gosto menos agradável."
Outro capítulo especial é o dos
molhos. Bocuse apresenta o "repertório usual" que
tornou a França o país de gastronomia mais celebrada no mundo.
Há um passo-a-passo de como preparar os caldos bases, sejam
eles claros ou escuros, de boi, ave ou caça. Na seleção dos
grandes molhos está o clássico bechamel criado por Antonin Carême
e revistado por Bocuse.
Entre os peixes, o cozinheiro
deixa transparecer seu namoro com as técnicas orientais. O
exemplo é o salmão cru à renga-ya. Escalopes de salmão cru
devem ser cortados em porções de 120 gramas antes de irem à
mesa. Dispostos em pratos muito frios, são salgados e
temperados com apenas um giro do moedor de pimenta, uma colher
de azeite, meio limão e uma pitada de cebolinha. Para
acompanhar, nada mais do que torradas quentes. Se este prato que
mescla tão diferentes culturas hoje não causa surpresa de tão
difundida que está a culinária japonesa, em sua época, foi um
marco.
Bocuse publica ainda uma ou outra
receita inspiradas por alguns de seus confrades na divulgação
da nouvelle cuisine, caso do empadão Lucas-Cartão e do
lobo-do-mar com algas à moda de Michel Guérard. Se eles
representaram o que de mais ousado se fazia nas décadas de 70 e
80, no outro extremo, Bocuse enaltece o grande cozinheiro
Fernand Point (1897-1955) com um gratinado de batatas. Mais do
que isso dedica o livro a Point e a seu pai, Georges,
"criadores da boa cozinha". Ainda no âmbito familiar,
o chef resgata memórias da infância ao colocar entre as
sobremesa os gaufres ou waffles da "Vó Bocuse".
Ao final, o livro traz ainda o
cardápio oferecido pelo então presidente Valéry Giscard d’Estaing
a Paul Bocuse ao torná-lo Cavaleiro da Legião de Honra, em
fevereiro de 1975. Entre as receitas estava a famosa sopa de
trufas Eliseu, registrada na página 92. A cerimônia era uma
das consagrações do maior astro culinário do século XX.
(Fim de Semana/Página9)(Arnaldo
Lorençato)
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