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Briga na Justiça
contra transgênicos dura quatro anos
São Paulo, 20 de Janeiro de 2003
- A Monsanto aguarda há mais de quatro anos o sinal verde para
a comercialização de sua soja transgênica Roundup Ready, após
sua liberação, pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança
(CTNBio), em 1998.
O assunto está
pendente na Justiça porque o Instituto de Defeca do Consumidor
(Idec) conseguiu uma liminar que proíbe a negociação dos
produtos transgênicos.
Em 2002 o Tribunal Regional
Federal, de Brasília, iniciou julgamento das apelações
apresentadas pela União e Monsanto, após julgamento em
primeira instância, que havia determinado a apresentação do
Estudo de Impacto Ambiental, normas de rotulagem e segregação
de armazenagem de plantas transgênicas.
A CTBNio alega que
fez todos os estudos necessários e garante que a soja Roundup
Ready estaria apta para ser liberada ao consumo humano e que não
interfere no meio ambiente. Já o Idec alega que não foram
feitos os testes suficientes.
Segundo Luiz Antonio Ambramides
do Val, diretor de regulamentação para a América Latina da
Monsanto do Brasil Ltda., "a soja é uma planta autógama,
de autofecundação, e que portanto não cruza com outras".
Com isso, informa ele, não há neste caso os riscos alegados de
que a produção de transgênicos poderia fugir ao controle e
poder germinar de maneira aleatória.
Contrário à medida
Segundo Andrea Salazar, advogada
e coordenadora de campanhas do Idec, a entidade não é contra a
aprovação dos transgênicos por condenar a biotecnologia nem
por ideologia, mas porque eles não trazem benefícios à população.
"Não há provas suficientes de que os transgênicos são
isentos de riscos".
De acordo com a representante do
Idec, não foram avaliadas as conseqüências para o meio
ambiente e à saúde. "Há, sim, riscos de contaminação
de outros campos". Para Andrea Salazar, diferentemente do
que declara, a CTNBio não fez testes com a soja Roundup Ready,
e sim se baseou nos experimentos de países que já a plantavam,
basicamente os Estados Unidos e a Argentina.
Tanto a empresa quanto a CTNBio
contestam esta informação. Segundo Cristina Possas, secretária-executiva
da CTNBio, "após longa e cuidadosa análise de estudos
feitos no Brasil e no exterior com a soja Roundup Ready, da
Monsanto, a CTNBio aprovou a sua liberação comercial".
Segundo Cristina Possas, a competência
para exigir ou dispensar Estudo de Impacto Ambiental foi
contestada judicialmente e a ação ainda está em julgamento.
"A juíza Selene Maria de Almeida pronunciou-se favorável
em fevereiro de 2002 ao parecer da CTNBio no tocante à referida
soja", diz.
Os outros dois
juizes, segundo ela, ainda não se manifestaram, "mas ao
que tudo indica seu parecer não poderá ser muito diferente do
da juíza Selene, uma vez que o cenário jurídico hoje é
bastante diferente daquele da sentença judicial que interrompeu
a comercialização da soja RR".
Idec confiante
Para Andrea Salazar, por sua vez,
a Justiça ficará ao lado do Idec. "Temos certeza de que
os juizes seguirão as demais decisões desde 1998 e proibirão
os organismos geneticamente modificados, os chamados OGMs",
diz.
Segundo Cristina Possas, a Medida
Provisória, que alterou o texto legal, com base no artigo 225
da Constituição, deixa claro que compete à CTNBio
"identificar as atividades decorrentes do uso de OGMs e
derivados potencialmente causadoras de significativa degradação
do meio ambiente e da saúde humana", que é o pré-requisito
essencial para que o órgão ambiental realize o licenciamento e
o Estudo de Impacto Ambiental. Um recente parecer da Advocacia
Geral da União (AGU) reiterou este entendimento, diz.
A CTNBio já avaliou, segundo
informa Cristina Possas, mais de mil processos de liberação
planejada no meio ambiente. No entanto, no que diz respeito aos
processos envolvendo plantas com propriedades bioinseticidas a
situação está complicada. Ela diz que a liberação está
vinculada agora à Lei dos Agrotóxicos, que depende de emissão
de registro dos ministérios da Agricultura, da Saúde e do Meio
Ambiente, mas ainda falta revogação. "Infelizmente, as
empresas não podem solicitar experimentos com transgênicos
resistentes a insetos", diz Abramides.
Novos testes
Como os testes com transgênicos
resistentes a insetos estão paralisados, a Monsanto desenvolve
experimentos com outras culturas, como milho e algodão, também
todos tolerantes a herbicidas.
Segundo Felipe Osorio, diretor de
marketing da Monsanto, a empresa fez acordo com a Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em soja transgênica.
Desta forma, ele acredita que no momento em que a soja Roundup
Ready tiver sido liberada a parceria fará com que a Embrapa
recebe US$ 1 por hectare. Como a área ocupada com soja atinge
17 milhões de hectares, o potencial é de que a empresa obtenha
mais de US$ 9 milhões por safra, uma quantia expressiva,
levando-se em conta a disponibilidade da empresa. "O orçamento
anual da Embrapa para pesquisa e investimentos oscila em R$ 50
milhões", diz.
Colombiano, há quase dois anos
no Brasil e há 12 na empresa, Rosario já passou nas unidades
da Colômbia, de Porto Rico, de St. Louis, nos Estados Unidos,
no México e finalmente no Brasil. Ele cita o algodão
resistente a herbicidas como grande potencial. "Quase todo
algodão no mundo é transgênico". Como benefício ele diz
que há redução de custo em relação a aplicações de
inseticidas.
(Gazeta Mercantil/Página
B16)(Paulo Soares)
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