Herbicida de transgênico perde eficácia

Uso de planta resistente ao glifosato, principal produto no mercado, acelera resistência de praga nos EUA

ANDREW POLLACK
DO "THE NEW YORK TIMES"

As lavouras transgênicas mais plantadas no mundo -soja, algodão, milho e canola criados para resistir a um dado herbicida- estão enfrentando um novo desafio para seu uso no futuro. O herbicida, conhecido como Roundup, está perdendo eficiência no controle de ervas daninhas.
Nos últimos anos, ervas daninhas resistentes ao herbicida têm surgido nos Estados americanos de Delaware, Maryland, Califórnia, Tennessee, Ohio e Indiana.


O problema, dizem agrônomos, é o próprio sucesso das plantas geneticamente modificadas, em particular a soja, que hoje responde por três quartos de toda a soja plantada nos EUA. 

Os agricultores gostam dos transgênicos, conhecidos como Roundup Ready, porque podem pulverizar o herbicida diretamente sobre a lavoura.
Mas a popularidade dessas plantas fez o uso do Roundup explodir, armando um cenário no qual as raras ervas daninhas que sobrevivem ao herbicida podem florescer. 

Futuramente, os agricultores terão de reduzir o uso de cultivares transgênicas para preservar sua utilidade a longo prazo.
"A longo prazo, o que vai acontecer é um afastamento do uso contínuo de sementes Roundup Ready", disse Mark J. VanGessel, da Universidade de Delaware.
A resistência ocorre hoje em poucas ervas daninhas, dizem os agrônomos, e é possível usar outros herbicidas para matá-las.


Mas alguns cientistas se preocupam com o espalhamento da resistência, o que tornaria o glifosato -nome genérico do Roundup- menos útil. Seria um problema para os agricultores, porque esse composto é de longe o mais popular do gênero no mundo. É relativamente inofensivo ao ambiente e evita a aragem que contribui para a erosão do solo.


Especialistas em ervas daninhas dizem que pode ser difícil achar bons substitutos, em parte porque o sucesso do Roundup acabou com os lucros dos outros herbicidas, o que fez com que as indústrias agroquímicas reduzissem investimentos em desenvolvimento de novos produtos.



Carro-chefe


As ervas daninhas resistentes podem também ser um problema para a gigante agroquímica Monsanto, que desenvolveu o Roundup e as plantas Roundup Ready.


O Roundup é o principal produto da Monsanto. As plantas Roundup Ready, carro-chefe do setor de biotecnologia da empresa, renderam US$ 470 milhões em 2002.


Os executivos da empresa dizem que a resistência não é um problema significativo. "A realidade é, e os fatos são, um, que a resistência ao glifosato é rara, e dois, ela é bastante manejável nos lugares do mundo onde ocorreu", disse Kerry Preete, responsável pelo mercado doméstico.


Para o biólogo Francisco Aragão, que desenvolve plantas transgênicas na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, a resistência ao glifosato é um fenômeno esperado. "Ela acontece até no Brasil, onde o herbicida é usado em soja convencional."


O problema, diz Aragão, é que, no caso de plantas transgênicas, é preciso desenvolver sementes que resistam a outros herbicidas, "para dar ao agricultor a oportunidade de fazer rotação de culturas".


O encontro da Sociedade de Ervas Daninhas da América, no mês que vem, deve debater o uso excessivo do Roundup e talvez recomende limitações, disse o presidente da sociedade, Ian Heap.


E os concorrentes da Monsanto vêem uma oportunidade para empurrar os próprios produtos como alternativas aos da empresa. A Syngenta está recomendando aos fazendeiros que não plantem milho Roundup Ready se já estiverem plantando soja.

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