Projeto internacional, liderado pelo Brasil, avalia potencial da floresta amazônica


 
      Manaus, 20 de Janeiro de 2003 - Projeto internacional, liderado pelo Brasil, avalia potencial da floresta. Em dois anos, os brasileiros terão informações confiáveis sobre os níveis de retenção de gás carbônico (CO2) pela floresta amazônica. 

O carbono lançado na atmosfera é oriundo, principalmente, da queima de combustíveis fósseis e contribui para aquecimento global. Com respaldo científico, o País terá mais força para negociar os volumes de CO2 capturados pela floresta preservada com a comunidade de países industrializados. 

As pesquisas com esse objetivo estão sendo realizadas pelo Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA, na sigla em inglês), um projeto liderado pelo Brasil e realizado em parceria com os Estados Unidos e a Comunidade Européia. No final do ano passado, a coordenação nacional do LBA foi transferida de Cachoeira Paulista (SP) para a sede do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus.

      Os trabalhos de campo do LBA começaram em 1999 e se estenderão até 2005, quando se iniciam as análises mais refinadas. "Em dois anos, por meio das análises dos dados já disponíveis, teremos condição de fornecer dados confiáveis sobre a relação da floresta com a retenção de carbono", informa o coordenador do LBA, pesquisador Flávio Luizão.

      Para o pesquisador, o Brasil recuou na pretensão de negociar no mercado de carbono o potencial de captura da sua floresta natural porque os dados disponíveis sobre essa função ainda são incipientes e contraditórios. Entretanto, em dois anos, o LBA terá um rico banco de dados sobre a física do clima, ciclos biogeoquímicos, química de atmosfera, ciclagem e armazenamento de carbono, hidrometeorologia, uso e cobertura da terra e informações demográficas da Amazônia. 

Cerca de 1,1 mil pesquisa-dores de 70 instituições parceiras - 23 delas localizadas na região - trabalham no projeto. As pesquisas de campo têm apoio de satélites brasileiros, norte-americanos, europeus e de aviões equipados com sensores remotos.


      Paradigmas obsoletos

      Luizão informa que essas pesquisas confirmam a existência de ecossistemas regionais que sorvem mais ou menos CO2. O segundo caso pôde ser observado na aérea de transição da floresta para o cerrado, ao norte do Mato Grosso, e na que se estende de Santarém (PA) até Roraima, com ocorrência de savanas. "Nessas áreas, a retenção de carbono é praticamente zero", afirma o coordenador. 

No momento, há pesquisadores dessas áreas se deslocando para ecossistemas de áreas mais baixas ou alagadas. Até então, as coletas se restringiam aos platôs, nas zonas de terra firme. O desafio é fazer uma "varredura científica" na Amazônia capaz de especificar cada um dos microecossistemas e as relações que existem entre eles. Isso dará mais segurança na formulação de políticas regionais, que hoje ainda são traçadas sobre paradigmas que não se sustentam.



      Nuvens baixas

      Para Luizão, o valor da floresta conservada está muito além dos negócios com carbono. Já se comprovou, por exemplo, que a floresta produz chuvas como os oceanos, com a formação de nuvens em baixas altitudes. Acreditava-se que as nuvens, na região, se formavam entre sete e 12 quilômetros de altura. 

Os estudos do LBA demonstraram que as árvores liberam, na transpiração, alguns componentes orgânicos voláteis que logo agregam em torno de si as gotículas de água e formam as nuvens a cerca de quatro quilômetros do solo. Essas nuvens se precipitam imediatamente e de forma bem distribuída no território amazônico.


      "A maior contribuição da floresta amazônica talvez seja para o ciclo hidrográfico", avalia Luizão, referindo-se às futuras demandas de água para a agricultura e abastecimento da população. Em Rondônia, verificou-se que as áreas desmatadas têm chuvas escassas e irregulares.



      Os cientistas acabam de comprovar o conhecimento imemorial das populações tradicionais. "Os índios estão certíssimos. Eles sempre disseram que a floresta faz chover", diz ele. E por conta dessas recentes descobertas, alguns cientistas já começaram a chamar a Amazônia de "Oceano Verde".

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