Nasa quer atingir águas do
Vostok, que pode abrigar um ecossistema intocado; europeus temem
contaminação
Sonda em lago polar divide especialistas
Um lago coberto por quase 4 quilômetros verticais de gelo na Antártida
promete virar o mais novo palco de disputa entre os
norte-americanos e o resto do mundo. Como em várias brigas do
tipo, o motivo inicial parece fútil: a Nasa, agência espacial
dos Estados Unidos, quer usar uma sonda para perfurar o gelo e
atingir as águas do lago. Só que ninguém mais concorda.
Seria mesmo uma discussão fútil, se esse lago não se chamasse
Vostok e não fosse um dos últimos ambientes da Terra onde o
homem jamais esteve.
O fato de ter água líquida a temperaturas tão baixas e sob uma
pressão tão grande pode significar que o Vostok abriga seres
vivos -quase certamente micróbios- diferentes de tudo o que se
conhece no planeta. Um belo indício de que a vida pode florescer
em outros mundos, como a lua gelada Europa, de Júpiter.
É justamente esse o mistério que os cientistas americanos querem
resolver. Eles estão ansiosos para mandar uma sonda batizada ICE
(sigla em inglês para Integrated Cryobot Experimental Probe, ou
sonda experimental integrada Cryobot) para atingir a massa d'água
do Vostok, que se estende por 10 mil quilômetros quadrados (quase
uma Jamaica) e tem profundidades de até 500 metros.
O problema é que ninguém garante que seja possível enviar um
artefato humano para o Vostok sem risco de contaminação. Até
agora, o mais perto que se chegou da lâmina d'água foi 120 m,
com um buraco no gelo de 3.623 m de profundidade. Pesquisadores
que trabalham na coleta e análise da coluna de gelo sobre o lago
-que guarda em bolhas de ar aprisionadas o testemunho de como o
clima terrestre variou nos últimos 420 mil anos- acham que, por
enquanto, esse é o limite seguro.
O consenso foi quebrado por cientistas dos EUA em julho, durante
reunião do Scar (Comitê Científico para Pesquisa Antártica, na
sigla em inglês) na China.
"Eles se posicionaram muito fortemente a favor [da perfuração"",
disse o glaciologista Jefferson Cardia Simões, da UFRGS
(Universidade Federal do Rio Grande do Sul), membro do grupo de
glaciologia do Scar. "A recomendação do comitê é que não
se fure antes de todos os testes possíveis de descontaminação.
Só que o Scar não tem poder de polícia."
O Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, que criou a
tecnologia do Cryobot, afirma que ela é segura. A sonda, de 1 m
de comprimento, 12 cm de diâmetro e movida a eletricidade, tem
uma ponta metálica que aquece e derrete o gelo e possui
equipamentos capazes de transmitir dados enquanto perfura. É esse
instrumento que a Nasa quer enviar às capas de gelo de Marte e
Europa.
A princípio, é um instrumento mais delicado que as brocas de
gelo usadas hoje, que precisam usar querosene e freon -poluentes-
para evitar que o buraco feche. Mas os cientistas do Scar,
especialmente os europeus, preferem não correr riscos. A idéia
é convencer os americanos a fazer as sondagens em algum outro dos
cerca de 60 lagos do gênero que se estima haver na Antártida.
A última fatia
Enquanto a arenga não se resolve, os pesquisadores continuam
tentando entender como o Vostok se formou. Simões, juntamente com
um grupo da França, analisou os últimos 89 metros de gelo
glacial (ou seja, originado fora do lago, por queda de neve) do
testemunho de gelo do lago.
Os resultados, que saem na próxima edição da revista "Annals
of Glaciology", mostram que o registro climático do lago já
deu o que tinha de dar.
Nessa camada profunda, a mistura do gelo originado de fora com o
gelo de acreção (formado pela água do lago) é tão grande que
a análise química das bolhas de ar já não permite verificar a
alternância de períodos mais quentes e mais frios detectada no
restante do testemunho.
Em compensação, o grupo de Simões encontrou no gelo partículas
grandes demais para terem ido parar ali sopradas pelo vento. Essa
"farinha glacial" é resultado do atrito do gelo com o
leito rochoso e indica que, antes de flutuar sobre o lago, a
imensa massa de gelo cobria rocha.
Segundo Simões, isso é um dado importante para entender a formação
do Vostok. "Não sabemos qual é o tipo de rocha embaixo dele
até hoje", disse. Também pode ser uma dica preciosa sobre
se o lago já existia antes de ser coberto pelo gelo.
"Achamos que ele é preexistente", diz o brasileiro.
CLAUDIO ANGELO
EDITOR-ASSISTENTE DE CIÊNCIA
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