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Índios do litoral catarinense
tiveram a melhor qualidade de vida de todas as Américas
BANQUETE PRÉ-HISTÓRICO
Reprodução
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Zoólito
(escultura de pedra em forma de animal) desenterrado em um
sambaqui de Santa Catarina |
Análise de ossos de
12.500 pessoas datados de 4.000 a.C ao começo do século
20 mostra que índios do litoral catarinense tiveram a
melhor qualidade de vida de todas as Américas
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Os povos que habitaram o litoral
de Santa Catarina há mil anos tiveram a melhor qualidade de vida
de toda a população das Américas nos últimos sete milênios,
incluindo aí descendentes de europeus que viveram nos séculos 18
e 19 na América do Norte. A conclusão é de um estudo realizado
durante mais de uma década, que envolveu 35 pesquisadores -três
deles brasileiros- e acaba de ser publicado nos Estados Unidos e
na Europa.
No livro "The Backbone of History" (A Espinha Dorsal da
História), que saiu no mês passado pela Cam- bridge University
Press, o grupo de antropólogos, médicos, historiadores e
economistas coordenado por Richard Steckel, da Universidade de
Ohio, e Jerome Rose, da Universidade do Arkansas (ambas nos EUA),
apresenta a maior base de dados já construída sobre a saúde da
população do continente americano.
Foram analisados cerca de 12.500
esqueletos, datados entre 4.000 a.C e o começo do século 20. O
levantamento buscou avaliar, nos ossos, indicadores de saúde como
estatura média, estado dos dentes, grau de nutrição e doenças
crônicas.
Todas as populações representativas do continente -nativos
americanos e descendentes de europeus e de africanos- foram
estudadas e agrupadas em um índice de qualidade de vida biológica.
Esse índice ia de 0 (para indivíduos que morreram no nascimento)
a 100 (para populações de esqueletos sem sinal de patologia).
O resultado surpreendeu os pesquisadores por mostrar que grupos
indígenas americanos ocuparam tanto o primeiro quanto o último
lugar no ranking. No alto do pódio estão os ceramistas das tradições
umbu e itararé, de língua jê, que se instalaram nos sambaquis
do litoral de Santa Catarina a partir do ano 1000. Eles tiraram
nota 91,8, seguidos por povos caçadores-coletores da costa da
Carolina do Sul, nos EUA (89,2), e pelos sambaquieiros que os
antecederam também em Santa Catarina (87,1).
Num dos níveis mais baixos da escala se encontra, curiosamente,
um povo que costuma ser lembrado como sinônimo de civilização e
padrão de vida elevado: os maias da América Central, com índice
de 58,4. A julgar pelos esqueletos, a saúde dos habitantes de Copán
(atual Honduras), uma das mais opulentas cidades do Novo Mundo
antes da conquista, era tão boa quanto a dos escravos negros do
sul dos Estados Unidos, que tiveram o mesmo percentual no índice.
Só era melhor que a dos índios
pueblos do Novo México (53,5), famosos por construir edifícios
junto a paredões de pedra.
O estudo, segundo Steckel, ajuda a confirmar uma antiga suspeita
dos antropólogos: a de que a transição da vida de caça e
coleta para a agricultura e a vida nas cidades teve seu preço em
saúde. A tese foi lançada pela primeira primeira vez por Mark
Cohen e George Armelagos no livro "Paleopatologia e as
Origens da Agricultura", de 1984, mas até agora nenhum
estudo extensivo do gênero havia sido realizado com as populações
americanas.
Para boa parte dos historiadores,
o continente era uma espécie de paraíso em termos de qualidade
de vida antes da chegada dos europeus, em 1492. "Nossos métodos
põem esse debate numa perspectiva mais ampla", disse Steckel
à Folha. Segundo o pesquisador de Ohio, foi surpreendente
notar "o declínio de longo prazo na saúde na era pré-colombiana".
Ossos do ofício
Medir a qualidade de vida de populações que viveram há milênios
e cujos únicos testemunhos às vezes são um punhado de
esqueletos desconjuntados não é uma tarefa simples. Tudo o que
se pode inferir é a chamada "qualidade de vida biológica",
ou seja, os aspectos de saúde que chegaram a deixar marcas nos
ossos de um indivíduo.
Para compor o índice, o grupo coordenado por Steckel e Rose usou
sete indicadores de saúde: estatura média, saúde dental (presença
ou não de cáries e abscessos), hipoplasias de esmalte (falhas na
formação do esmalte nos dentes causadas por má nutrição ou
doenças na infância), infecções ósseas, lesões traumáticas,
doenças degenerativas nas juntas (causadas por esforços mecânicos
repetidos) e hiperostose porótica -lesões causadas por deficiência
de ferro em partes do crânio onde se produzem glóbulos vermelhos
do sangue.
Não é uma medida livre de problemas. A ocorrência de doenças
infecciosas, malária e verminoses não pode ser computada. Limitações
cognitivas, cegueira e estados emocionais também não. "No
entanto, essas limitações tendiam a expor o indivíduo a maior
risco de morrer, e isso é capturado pelo índice", dizem os
autores.
Embora não tenha sido possível avaliar todos os indicadores, por
falta de esqueletos completos, os grupos do litoral catarinense
estavam bem na fita. A análise nos crânios desenterrados em
diversos sambaquis da região mostra poucas cáries e quase nenhum
sinal de hiperostose porótica.
Segundo o antropólogo Walter
Neves, da USP, que realizou o estudo em Santa Catarina em colaboração
com Verônica Wesolowski (a terceira brasileira do projeto, Maria
Antonieta Costa, analisou esqueletos do deserto de Atacama,
Chile), o bom estado dos ossos se deve ao ambiente costeiro, rico
em peixe (fonte de proteína animal), e ao hábito de caça e
coleta.
"Com a agricultura, você perde a diversidade de
alimentos", diz Neves. Além disso, o consumo de
carboidratos, presentes especialmente em cereais como o milho,
eleva a incidência de cáries. "E nós mostramos que esses
grupos, apesar de serem ceramistas, não eram horticultores"
-a presença de cerâmica costuma ser associada à agricultura na
América do Sul.
O mas curioso, continua o antropólogo, é que os grupos que na
realidade ergueram os sambaquis, milênios antes, tinham mais cáries
que os ceramistas umbu/itararé, que os ocuparam ao redor de 1000
d.C. "O que mostra que o homem do sambaqui pode ter recorrido
a fontes vegetais, por razões que a gente desconhece."
O que dinheiro não compra
Se a alta pontuação dos ceramistas catarinenses surpreendeu, o
mau desempenho dos maias e de outras civilizações pré-colombianas
mais adiantadas não chegou a causar admiração. "A saúde
tem sido tipicamente pior em ambientes urbanos antes do século
20", diz Steckel.
Não é difícil imaginar por quê:
a alta densidade populacional requer mais esforço para obter
comida, que já tem sua variedade limitada pela agricultura. Além
disso, a facilidade de contágio de doenças era muito maior antes
da introdução dos sistemas de saúde e saneamento modernos.
O que talvez cause espanto é o fato de que uma amostra de população
urbana branca do século 19 de Belleville, no Canadá, teve 69,3
no índice -mesmo com um alto grau de cultura material. "Sua
riqueza aparentemente não os protegeu de fatores que causam má
saúde dental e doenças degenerativas de articulação",
dizem os autores.
O principal culpado, no caso, foi
o consumo excessivo de carboidratos, em especial açúcar
refinado.
O grupo de Steckel, agora, vai analisar bancos de dados de saúde
óssea da Europa, para tentar responder a uma questão que tem
causado polêmica entre os historiadores: quem tinha a melhor
qualidade de vida em 1492, os europeus ou os índios? Steckel diz
que não é possível fazer uma comparação uniforme. Mas
alfineta os partidários da visão da América como um paraíso na
pré-história arrasado pela conquista:
"O hemisfério Ocidental antes da chegada dos europeus era tão
diverso que partes dele, em algumas épocas, eram como um Jardim
do Éden ou um deserto empobrecido de saúde pelos padrões históricos
antes do século 20. Por isso, é altamente enganoso falar da saúde
ou da qualidade de vida dos nativos americanos como se ela fosse
homogênea, ou como se as condições de 1492 fossem típicas."
Claudio Angelo
editor-assistente de Ciência
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