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Nossos
descendentes poderão comentar que tínhamos o hábito de discutir
o estatuto jurídico dos embriões
Marcelo Leite
editor de Ciência
No futuro, dentro talvez de uns
mil anos, nossos descendentes poderão comentar que tínhamos o hábito
de discutir o estatuto jurídico dos embriões, assim como se diz
hoje -com desdém- que um milênio atrás se debatia o sexo dos
anjos. De longe (no tempo), nenhum debate essencial parece sério.
Considere essa questão cabeluda de definir quando começa a vida
humana. Ela mobiliza crenças e paixões profundas, que não podem
ser desfeitas com um golpe de mão. Mas tem implicações de peso
para a liberdade de pesquisa.
Em qualquer debate sobre questões éticas -como o Congresso
Mundial de Bioética (www.bioethicscongress.org.br)
que começa quarta-feira em Brasília-, é inevitável que a questão
venha à tona. Foi o que ocorreu durante uma mesa-redonda de que
participei no último dia 17, em Ilhéus (BA), como parte do Fórum
de Ética em Manipulações Genéticas organizado na Universidade
Estadual de Santa Cruz (Uesc).
Já na fase dos debates, um professor da platéia perguntou se
defendíamos também o assassinato de crianças, diante da concordância
de alguns na mesa com a idéia de que seria legítimo destruir
embriões para pesquisa de células-tronco. (Essas células
guardam a capacidade de diferenciar-se em quase todos os tipos
celulares do corpo e por isso são a coqueluche da hora no
desenvolvimento de tratamentos para doenças degenerativas, por
ora pouco mais que uma promessa.)
Como de hábito, o demônio se ocultava nos detalhes. Tentei
explicar que havia um pressuposto na pergunta de que discordava: a
idéia de que o conceito biológico de vida possa e deva ser
identificado com o conceito jurídico de vida, e mais ainda com o
de constituição da pessoa humana, do sujeito titular de direitos
inalienáveis -como o direito à vida.
Dito de outro modo, não é óbvia nem cientificamente indiscutível
a noção de que a pessoa humana surge no momento mesmo da concepção,
como afirma o dogma católico vigente.
Outras denominações cristãs, como a anglicana, vêem a questão
de modo diverso -e isso decerto tem a algo a ver com o fato de o
Reino Unido ser um dos poucos países (ao lado de Israel e China)
que permitem a pesquisa com embriões humanos e, portanto, a produção
de células-tronco a partir deles (o que acarreta sua destruição).
No caso, a Lei de Fertilização Humana e Embriologia britânica,
de 1990, permite a manipulação somente até o 14º dia de
desenvolvimento do embrião. No Brasil, esse tipo de pesquisa é
vedado pela Lei de Biossegurança.
Como ensina a baronesa Warnock, presidente da Comissão de Inquérito
que resultou nessa lei do Reino Unido (e conferencista do
congresso desta semana em Brasília), nem sempre foi esse o dogma
católico. Até o século 19, a doutrina vigente era de origem
aristotélica e rezava que a alma, ou a forma plenamente racional
da vida, só era infundida no embrião vários dias depois da
concepção.
Não é o caso, aqui, de tentar reproduzir uma discussão teológica
sutil. O exemplo só foi trazido à baila para ilustrar que essas
questões variam com o tempo, mesmo no campo em que querem parecer
eternas, e que envolvem decisões práticas, ou o traçado de uma
fronteira que pode ter de ser alterado mais adiante.
Se for para buscar argumentos na biologia propriamente dita,
prefiro o seguinte: até o 14º dia, o tal de "embrião"
pode ainda dividir-se e transformar-se em gêmeos idênticos, ou
mesmo quádruplos. Não faz muito sentido tomar como um indivíduo
aquilo que ainda pode tornar-se duas, ou quatro, pessoas.
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