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Programas de computador
competem, se reproduzem e evoluem
Reprodução
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Tela de
"Pac Man", um dos jogos eletrônicos mais
populares da década de 80 |
Programas de
computador competem, se reproduzem e evoluem, a ponto de
alguns especialistas já defenderem a noção de que eles
de fato estariam 'vivos'
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Salvador Nogueira
da Reportagem Local
Eles nascem, se multiplicam e
morrem. Disputam espaço no ambiente e lutam uns com os outros
para deixar o maior número de descendentes. Sofrem modificações
sutis ao longo das gerações, que podem ou não favorecer o
sucesso dos descendentes -e evoluem. Mas não se engane pela
descrição: são apenas programas de computador. Ou não.
Sistemas informatizados construídos em laboratório para o estudo
da evolução biológica replicam tão fielmente os mecanismos da
natureza que resultaram na incrível variedade de formas de vida
sobre a Terra que é difícil não perguntar se eles de fato não
estariam "vivos" -embora não guardem similaridade
alguma com a vida orgânica com a qual estamos acostumados. E o
nome dado pelos cientistas a esses programas exóticos não ajuda
nada a desfazer a névoa: "organismos digitais".
Em 1990, o ecólogo norte-americano Thomas Ray criou o primeiro
software capaz de simular os mecanismos evolutivos com programas
de computador. Em seu engenho Tierra (disponível gratuitamente em
www.isd.atr.co.jp/ray/tierra/),
diversos programas simples disputavam o espaço na memória do
computador, se replicando e sofrendo mutações aleatórias que
podiam ou não favorecê-los na luta para levar seu
"genoma" (sua programação) à geração seguinte.
Organismos digitais
atingem quando muito uma complexidade equivalente à de vírus
e bactérias, e ninguém se sente mal por matá-los no
mundo real
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Com a criação do sistema, Ray estava abrindo uma caixa de
Pandora que dificilmente voltaria a ser fechada. Também pudera.
Programas como o dele ofereceriam aos cientistas a primeira
oportunidade de observar de perto o desenrolar da evolução, um
processo natural cuja lentidão se estende além do tempo de vida
de um ser humano, mas que pode ser enormemente acelerado num fac-símile
digital.
Que outra forma poderia haver de
acompanhar em curto espaço de tempo o nascimento e a morte de
milhares de gerações? Até mesmo as rápidas bactérias são
como tartarugas, comparadas ao ritmo de multiplicação de um
organismo digital. O alemão Christoph Adami é físico teórico
por formação, mas se rendeu ao fascínio exercido pelos
organismos digitais. "Eu comecei a trabalhar com biologia
evolutiva em 1992. Comecei com o Tierra, mas logo decidi
desenvolver minha própria versão do programa, que se chama Avida",
conta (o programa está disponível na internet, em dllab.caltech.edu/avida/).
Hoje Adami está no comando de um
dos mais importantes centros para essas pesquisas, o Laboratório
de Vida Digital do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia),
nos EUA. Seu trabalho consiste em dois desafios ímpares para um
cientista: o primeiro é desvendar os mistérios por trás do fenômeno
evolução.
O segundo é convencer os biólogos
de que seus resultados obtidos digitalmente são aplicáveis aos
sistemas vivos de natureza orgânica. Mas parece que o esforço
está valendo a pena. "Muitos biólogos, especialmente os que
são capazes de maior dose de pensamento abstrato, estão
aceitando esses resultados", afirma. "Claro, você nunca
vai conseguir convencer todo mundo, mas esse tipo de pesquisa está
se mostrando cada vez mais atraente."
Vida e complexidade
Não é à toa. As implicações dos estudos conduzidos por Adami
e seus colegas podem até ir além das fronteiras do que se
conhece por vida terrestre, obtendo alguns princípios básicos
que ainda são motivo de debates nos círculos da astrobiologia
-ciência que estuda as possibilidades e a natureza da vida em
outras partes do cosmos.
A mais interessante delas talvez
seja a que diz respeito à emergência da complexidade. Existe
afinal uma tendência natural e inexorável à formação de
organismos cada vez mais complexos, culminando talvez em formas de
vida inteligentes, ou o fato de existir incrível variedade biológica
e milhões de espécies de seres pluricelulares na Terra é apenas
fruto de uma grande coincidência? Haveria apenas bactérias, vírus
e organismos muito simples lá fora? "Como organismos
complexos podem emergir de formas mais simples?", pergunta
Adami. "[Richard] Dawkins, por exemplo, defende que essa
escalada de complexidade seja a rota usual.
Já [Stephen Jay] Gould não
pensa assim. Mas a resposta pode acabar vindo de nossos estudos.
Na verdade, talvez possamos criar experimentos que mostrem que há
princípios matemáticos sugerindo que a vida complexa é o único
caminho." E as respostas parecem já estar sendo
encaminhadas. Adami e seus colegas submeteram recentemente à
revista britânica "Nature" (www.nature.com)
os resultados de um experimento detalhado que aborda justamente o
tema da emergência da complexidade. Obviamente, até que o
trabalho seja aceito e publicado, Adami não se sente à vontade
discutindo o estudo, mas dá algumas dicas sobre o rumo de seus
experimentos. "O que estamos percebendo é que a evolução
de organismos complexos está relacionada com a evolução de
mundos complexos.
Você pega, por exemplo, o
planeta Netuno. Ele é bem grande, mas bem simples -basicamente
igual em todas as regiões. Então, se alguma forma de vida
emergir lá, ela deve ser bem simples.
Na Terra, você tem uma incrível
variedade de ambientes, e isso acaba gerando também maior
complexidade nas formas de vida. Coisas complexas evoluem em
mundos complexos", diz. "E é claro que há um processo
de co-evolução aí. Vida complexa gera um mundo mais complexo
que gera vida mais complexa.
Complexidade gera mais
complexidade." Outra observação interessante para o
entendimento dos mecanismos mais sutis da evolução feita com o
uso de estudos em ambiente digital é a de que, ao longo de gerações,
os organismos passam por grandes períodos de estabilidade em seus
genomas, seguidos por períodos equivalentes de mudanças frenéticas.
A idéia lembra imediatamente a célebre
teoria do equilíbrio pontuado, de Stephen Jay Gould. Segundo essa
tese, os registros fósseis, que só mostram saltos no processo
evolutivo, e não um fluxo gradual e sutil na forma dos
organismos, não estariam incompletos, mas refletiriam o próprio
mecanismo da evolução, com grandes saltos seguidos por períodos
de calmaria. Mas Adami não mergulha de cabeça nessa analogia.
"Nossos estudos mostram esse fenômeno, mas numa escala
completamente diferente. Trabalhamos com experimentos que vão de
mil a 10 mil gerações de organismos, algo muito menor do que o
tempo exigido para confirmar as idéias de Gould.
No ritmo atual, precisaríamos de
um tempo absurdo, talvez 1 milhão de anos, para ver isso
acontecer nas simulações. O equilíbrio pontuado, para mim,
segue sendo uma conjectura."
Colaboração brasileira
Se essa pergunta segue sem resposta, muitas outras sobre a
natureza da evolução podem ser abordadas com os organismos
digitais. No laboratório de Adami há dois brasileiros que
estudam organismos digitais.
Paulo Campos, 29, investiga o que
certos trechos não-codificantes do genoma podem revelar a
respeito da evolução de uma dada espécie. Sua mulher, Viviane
Moraes de Oliveira, 30, está usando as técnicas do Laboratório
de Vida Digital para investigar como são criados nichos ecológicos
num ambiente real. Ambos são físicos do Instituto de Física da
USP em São Carlos e ficarão na Califórnia por mais cinco meses,
realizando essas pesquisas no pós-doutorado.
"O campo de estudos de organismos digitais é bastante próspero",
diz Oliveira. "É como uma otimização do processo de evolução
para que possamos fazer experimentações", prossegue Campos.
"E o melhor é que você não está lidando com organismos
vivos, você pode manipular à vontade", arremata Oliveira.
Mas será?
Em um artigo de revisão publicado na revista científica "Trends
in Ecology & Evolution" (tree.trends.com), Adami e seu
colega Claus Wilke não pareciam muito certos da condição
inanimada de seus inofensivos programas de computador. O título:
"A biologia dos organismos digitais". No artigo, além
de apontar toda a utilidade dessa técnica para os estudos da
evolução, a dupla faz uma sugestão das mais intrigantes.
"Além de seu uso como uma ferramenta de entendimento da
evolução em geral, é importante estudar a biologia de formas de
vida artificial por seus próprios méritos. Recentemente, Lipson
e Pollack mostraram que os princípios de robôs simples
auto-replicantes estão ao alcance da tecnologia atual.
Eventualmente, tais robôs, e o software que os dirige, podem
evoluir sem a interação humana, ponto em que eles se tornariam
parte do ecossistema em que vivemos", escrevem.
Considerando que talvez os cientistas estejam mesmo criando formas
de vida, embora totalmente dissimilares dos organismos baseados em
carbono, não seria o caso de perguntar até quando os humanos terão
o direito de realizar um experimento e depois desligar o
computador, "aniquilando" todos os seus
"habitantes"?
Para Adami, a pergunta ética pode até vir a ser pertinente um
dia, mas isso ainda está longe de acontecer. "As pessoas
aparentemente não sentem problemas éticos quando escovam os
dentes. E estão matando zilhões de bactérias no processo",
argumenta. "Nossos organismos digitais, quando muito, atingem
a complexidade equivalente à de vírus e bactérias, e ninguém
se sente desconfortável de matar esses organismos no mundo real.
Não vejo problema ético com esses experimentos."
Apesar disso, Adami mais do que reconhece, aposta até, que o
papel dos mecanismos de evolução dos organismos digitais podem
se tornar uma peça fundamental para a criação do que seria a
coroação de qualquer trabalho de geração de vida artificial: a
criação de inteligência artificial.
Ele é totalmente cético com
relação às estratégias mais tradicionais usadas pelos
cientistas na tentativa de se chegar a uma "consciência"
artificial, como os sistemas especialistas (aqueles que buscam o
resultado pela inclusão sistemática de informação em um
sistema via programação, sem qualquer tentativa de
"ensinar" a máquina a pensar). "Ainda entendemos
muito pouco sobre como o cérebro e a consciência funcionam. Eu não
acredito em humanos tentando projetar sistemas que eles ainda não
entendem."
Por outro lado, as técnicas de evolução aplicadas hoje aos
simples organismos digitais podem vir a trazer a pitada de sal que
está faltando. "Se não podemos projetar coisas que não
entendemos, podemos tentar fazê-las evoluir. A evolução é uma
ferramenta muito poderosa", afirma Adami. "Em última análise,
qualquer desenvolvimento significativo em inteligência artificial
terá de lidar com isso."
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