Resultado de mais de uma década
de estudo sobre interações do planeta com a biosfera estará
disponível em 2003
Programa decifra engrenagens da Terra
Os seres vivos não apenas habitam a Terra, mas ajudam a controlar
a maneira como o próprio planeta funciona. Um resumo de mais de
uma década de pesquisa sobre como isso acontece está sendo feito
por uma equipe internacional de cientistas e deverá estar disponível
no ano que vem.
"A Terra é um sistema que a própria vida ajuda a
controlar", diz o pesquisador Will Steffen, diretor-executivo
do Programa Internacional Geosfera-Biosfera, iniciativa
estabelecida em 1986 pelo ICSU (Conselho Internacional para a Ciência),
entidade que reúne as associações científicas mundiais -como
as academias nacionais de ciência.
Isso significa que a Terra é um sistema caracterizado por interações
complexas entre sua parte inanimada -a "geosfera" dos
ventos, terremotos e correntes oceânicas- e os diversos seres
vivos que integram a "biosfera".
Como idéia, não é propriamente uma novidade.
Já no final dos anos 60 do século
20 havia sido formulada a "hipótese Gaia" pelo
especialista em atmosfera britânico James Lovelock e pela
microbiologista norte-americana Lynn Margulis. Mas a idéia de que
a Terra era algo vivo foi considerada por muitos como uma forma
romântica e pouco científica de ambientalismo.
Sem conhecer o funcionamento da Terra, é impossível saber como
se dará a mudança global pela qual o planeta está passando, por
exemplo por meio do aquecimento gradual provocado pela maior emissões
de gases como o dióxido de carbono, ou CO2.
Faltavam dados experimentais para mostrar a íntima relação
geosfera-biosfera, e por isso foi criado o IGBP. Na última
assembléia geral do ICSU, que aconteceu no final de setembro no
Rio de Janeiro, foram dados vários exemplos dessa relação.
Alguns dos casos citados são preocupantes, pois mostram como a
mudança pode ocorrer de modo abrupto e perigoso, apesar de as
causas se produzirem de modo gradual. O exemplo clássico foi a rápida
transformação do norte da África em um deserto.
Segundo Steffen, houve uma mudança na radiação solar que
chegava à Terra que aconteceu aos poucos. Mas, alcançado um dado
limite, isso passou a ter um impacto forte no regime de chuvas. E,
quando a quantidade de água caiu para um determinado ponto, a
vegetação também respondeu abruptamente -a mesma diferença
entre morrer de sede e sobreviver. O resultado foi a criação, há
alguns poucos milhares de anos, do deserto do Saara.
"A dinâmica da Terra é caracterizada por limiares críticos
e mudanças abruptas. Atividades humanas podem inadvertidamente
disparar mudanças com consequências trágicas para o Sistema
Terra",diz Steffen.
Um resultado particularmente inesperado foi descobrir a relação
entre a absorção de carbono pelo oceano, a poeira do deserto de
Kalahari (sul da África) e a poluição das indústrias
sul-africanas.
Descobriu-se que em uma larga área do oceano Índico os
microrganismos vegetais (o fitoplâncton) absorviam o CO2 em
grande quantidade, e essa atividade foi correlacionada com a
poeira que chegava ao mar trazendo ferro, um nutriente importante
para as algas. "Processos biológicos são mais importantes
do que pensávamos", diz Steffen.
O papel coordenador do IGBP foi importante para a descoberta, pois
os cientistas envolvidos -os que estudam a atmosfera e os que
analisam o oceano- não conheciam os trabalhos uns dos outros.
Outras áreas do oceano, como os mares tropicais, fazem o oposto
-soltam gases para a atmosfera, como um copo de refrigerante.
Entender o papel dos mares na troca de gases é essencial para
desvendar o clima futuro.
Novas técnicas de pesquisa permitiram acompanhar a trajetória
dos gases e aerossóis (partículas sólidas), por exemplo
mostrando que a fumaça das queimadas na Indochina afeta a poluição
até mesmo em Los Angeles, na Costa Oeste dos EUA.
"Mudanças no uso da terra afetam a circulação de ar.
Estudos regionais são importantes, pois o impacto também é
global", diz ele, que exemplifica com um estudo realizado no
Brasil por centenas de pesquisadores, o Experimento de Grande
Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia -conhecido pela sigla
LBA.
O LBA procurou entender como a mudança do uso da terra está
afetando a biologia e a físico-química da Amazônia, incluindo a
sustentabilidade do sistema e sua influência no clima global.
Para Steffen, o LBA é um exemplo de como projetos internacionais
e multidisciplinares devem ser regidos e também está servindo de
modelo para programas semelhantes que o ICSU e o IGBP (www.igbp.net)
pretendem coordenar em outras áreas do planeta, por exemplo para
estudo das monções asiáticas.
RICARDO BONALUME NETO
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
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