Stephen Jay Gould via o diálogo
entre ciência e religião como indispensável para a plenitude e
a sabedoria na trajetória humana
A ÁRVORE DA VIDA
Seria tentador forçar um
pouco a barra e dizer que "Pilares do Tempo" é o
testamento intelectual do paleontólogo Stephen Jay Gould, morto
aos 60 anos de idade em maio passado. Mas não seria sincero: o último
livro do pesquisador de Harvard foi "The Structure of
Evolutionary Theory", um calhamaço dedicado apenas aos
estudiosos profissionais da biologia evolutiva.
A despeito disso, porém, não é um salto de imaginação muito
grande afirmar que Gould ficaria feliz em ser lembrado por esse
livro de 1999, lançado agora no Brasil pela Rocco. Em
"Pilares do Tempo" (boa adaptação da quase intraduzível
expressão inglesa "rocks of ages"), o divulgador da ciência
dá as mãos ao contador de histórias para encarar uma tarefa
espinhosa: sugerir um modelo para um relacionamento adequado e
produtivo entre ciência e religião.
Com a montanha de desconfiança e hostilidade mútua acumulada há
séculos entre os dois lados dessa questão, era de esperar que a
proposta de Gould soasse a princípio como um armistício nervoso,
na melhor das hipóteses. Trata-se da tese dos MNI (magistérios não-interferentes),
que pode sugerir para o leitor mais apressado algo do tipo
"você fica aí, eu fico aqui, e ninguém se aborrece".
Como de costume, entretanto, as aparências enganam. O esforço
para construir uma ponte entre entrincheirados já surge na própria
inspiração da sigla, o "magisterium" da tradição
medieval católica: "Um magistério (...) é uma área onde
uma forma de ensinamento tem as ferramentas apropriadas para um
discurso e uma solução significativos. Em outras palavras, nós
debatemos e dialogamos sob a égide de um magistério",
explica Gould.
Para o paleontólogo, o que define os MNI é o paradoxo de um diálogo
constante e inevitável -uma vez que os dois magistérios tratam
de questões igualmente fundamentais- que precisa ser temperado
pela luta contra o desejo, demasiado humano, de reivindicar posse
sobre o magistério vizinho sempre que a ocasião se apresenta. Ciência
e religião precisam uma da outra, insiste Gould.
A afirmação pode parecer esquisita, vindo de quem vem -filho de
judeus nova-iorquinos que renegaram a religião ancestral, Gould
nem chegou a fazer o bar-mitzvá. "Sou um agnóstico no
sentido sábio de T.H. Huxley, que cunhou o termo ao identificar o
ceticismo tolerante como a única posição racional porque, na
verdade, não há como saber ao certo", confessa o autor. Mas
a argumentação de Gould é de uma clareza -e uma decência-
admiráveis. Se o avanço da ciência esmagou de vez a visão
primeva de um Deus que governa de forma absolutista cada detalhe
da natureza, não é menos verdade que a capacidade para lançar
luz sobre significados e propósitos, certos e errados, continua
eludindo os cientistas. E é aí, afirma Gould, que o magistério
da religião ainda precisa ser ouvido.
Para o autor, pouco importa se essa busca por sentido e decência
reflete uma mera projeção humana sobre o mundo natural, e não
uma força externa que a impulsione ou garanta.
Seja lá como for, a ciência
continua sem o direito de impor os fatos da natureza como modelos
para o que é certo -uma violação dos MNI que aconteceu mais de
uma vez desde a ascensão do darwinismo como explicação
unificadora da vida, com conseqüências no mínimo perigosas
tanto para a ciência quanto para a humanidade. O próprio Gould
teve ocasião de enfrentar o determinismo evolutivo e genético,
dentro e fora de Harvard, como uma encarnação nova e mais palatável
dessa tendência.
Embora atraente, o ideal dos MNI enfrenta mais de uma pedra no
caminho, ao menos à primeira vista. História e psicologia
parecem conspirar contra ele, mas Gould se esmera na busca de
exemplos que façam dele algo mais forte que uma utopia
aconchegante. E dois dos mais eloquentes se referem a paladinos
tradicionais da vitória científica, o naturalista inglês
Charles Darwin (1809-1882) e seu fiel escudeiro, Thomas Henry
Huxley (1825-1895).
Responsáveis pelo triunfo
da teoria evolucionista, ambos deram um golpe profundo nas
certezas religiosas do século 19 e passaram pela perda de seus
filhos mais queridos ainda pequenos -uma tragédia pessoal que
abalou qualquer fé em Deus que os dois pudessem ter tido.
Mesmo assim, Darwin e Huxley não usaram a evolução ou a tragédia
para simplesmente jogar na lata do lixo o magistério da religião.
Os dois reconheceram que, por mais útil que fosse a ciência na
hora de investigar os fatos da natureza, havia um lugar que a
especulação racional não era capaz de alcançar: "Tenho
profunda consciência de que o assunto é profundo demais para o
intelecto humano. Seria a mesma coisa que um cão especulando
sobre a mente de Newton", escreve Darwin.
Do outro lado da trincheira, Gould vê problemas muito mais históricos
do que de princípio na aplicação dos MNI, e aplaude a aprovação
da teoria evolutiva pelo papa João Paulo 2º e a ajuda de líderes
religiosos na batalha contra o ensino do criacionismo nos Estados
Unidos: "A longa lista de acusações oficiais que
contestaram com sucesso o estatuto criacionista do Arkansas incluía
alguns cientistas e educadores, mas um número ainda maior de
sacerdotes ordenados de todas as grandes religiões e de
pensadores religiosos", diz Gould.
Diálogo e respeito não são sinônimos de fusão, e o autor é
sensato o suficiente para alertar contra essa tentação. Gould
rejeita a falácia do "princípio antrópico" (segundo o
qual as leis do Universo permitem a existência e o bem-estar
humanos porque Alguém quis que o homem estivesse aqui) como uma
tentativa tola de misturar o imiscível.
Uma conversa entre iguais -se possível, amorosa e compassiva- é
a proposta de Gould, e é impossível não desejar isso como meta.
A vida humana é complexa, e há espaço para mais de uma dimensão
nela, insiste o autor. Cabe à palavra e ao diálogo -o Verbo que
a tradição cristã identifica com Deus encarnado- a tarefa de
harmonizar essas facetas. Para Gould, essa é a essência da
sabedoria -por coincidência, definida pela Bíblia (no livro dos
Provérbios) com a mesma metáfora que hoje encarna a evolução:
"Para os que conseguem alcançá-la, ela é a arvore da
vida".
Pilares do Tempo de Stephen Jay
Gould
188 págs., R$ 27,00 Editora Rocco. (r. Rodrigo Silva, 26, 5º
andar, CEP 20011-040, RJ, tel. 0/xx/21/2507-2000).
Reinaldo José Lopes
free-lance para a Folha
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