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A demanda mundial por telefones
celulares, diamantes e móveis feitos com madeira tropical tem
alimentado guerras que matam milhões nos países subdesenvolvidos
Consumo de rico fomenta guerra
de pobre
A demanda mundial por telefones
celulares, diamantes e móveis feitos com madeira tropical tem
alimentado guerras que matam milhões nos países subdesenvolvidos
-especialmente na África- e pioram a situação ambiental nessas
nações. A conclusão é de um estudo que acaba de ser publicado
pelo Worldwatch Institute, uma das principais organizações
ambientais do planeta.
Segundo o relatório "Anatomy of Resource Wars"
(anatomia dos conflitos relacionados a recursos), que o Worldwatch
lançou ontem, a exploração de recursos naturais como petróleo,
madeira, cobalto e coltan (um composto usado na fabricação de
telefones celulares) rendeu, da década de 90 até o ano passado,
cerca de US$ 12 bilhões a grupos rebeldes e governos para
financiar conflitos civis e com outros países.
Nesse período, tais conflitos mataram e deslocaram 20 milhões de
pessoas em países como Angola, Ruanda, Camboja, Indonésia, Libéria
e Serra Leoa.
"É preciso ressaltar que esses US$ 12 bilhões são apenas
estimativas. Os valores reais devem ser vários bilhões de dólares
mais altos", disse à Folha o autor do relatório, Michael
Renner.
As "guerras de recursos" são assim chamadas por terem
sido provocadas ou agravadas pela presença de recursos naturais.
Um exemplo típico foi a guerra civil angolana, na qual a facção
rebelde Unita (União Nacional para a Independência Total de
Angola) comprava armas e abastecia tropas por meio da venda de
diamantes a grandes empresas, em especial a sul-africana De Beers.
O coltan (columbita-tantalita), minério usado na fabricação de
capacitores para telefones celulares, também foi explorado por
grupos beligerantes rivais na República Democrática do Congo,
onde há abundância do minério.
A partir de 1998, forças contrárias ao governo de Laurent Kabila,
apoiadas por Ruanda, Uganda e Burundi, contrabandearam coltano do
Congo com apoio de empresas européias -aviões da belga Sabena
levavam carregamentos de Ruanda para a Europa.
Segundo Renner, as guerras têm causado impacto ainda difícil de
medir em "hotspots" de biodiversidade, como as florestas
congolesas. O parque nacional de Virunga foi invadido por quase 1
milhão de refugiados ruandeses, que desmataram 75 km2 de área
protegida. Em outros parques, populações de gorilas, hipopótamos
e elefantes foram dizimadas por grupos guerrilheiros.
Renner diz que ainda faltam políticas internacionais de embargo
aos recursos "sujos". Isso começou a ser feito com os
diamantes africanos, mas "muitas empresas inescrupulosas
ainda caminham na escuridão". Segundo ele, "investir em
desenvolvimento humano e educação deve ser prioridade para os países
ricos, que até agora têm se beneficiado de suprimentos baratos
de material bruto, fechando os olhos para a destruição nas suas
fontes".
CLAUDIO ANGELO
EDITOR-ASSISTENTE DE CIÊNCIA
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