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Dólar alto faz projeto proteoma
empacar
A alta do dólar está atrapalhando a realização de projetos
proteoma no país. Em São Paulo, a implantação da rede de proteômica
está atrasada devido à falta de dinheiro para compra de
equipamento. No Rio, onde a rede já existe, falta verba para
comprar reagentes e mantê-la operando.
A rede paulista, financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo), deve começar a funcionar nas
próximas semanas. A idéia original era ter convocado nove
laboratórios em julho, por meio de edital. Mas apenas um começará
a fazer o trabalho.
Ele será instalado no LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron),
em Campinas, e funcionará com equipamentos cedidos
temporariamente, para demonstração, pelas empresas Micromass
(britânica) e Applied Biosystems (americana).
Com a suspensão das importações de equipamentos pela Fapesp,
determinada em setembro devido à alta do dólar, a compra dos
espectrômetros de massa para o proteoma não pôde ser realizada.
Cada equipamento custa de US$ 500 mil a US$ 800 mil.
Segundo Rogério Meneghini, coordenador da Rede de Biologia
Molecular Estrutural da Fapesp, após várias reuniões com
representantes das empresas, decidiu-se que dois espectrômetros e
uma máquina preparadora de amostras virão "a custo
zero" para o laboratório, em esquema de empréstimo, por
seis meses.
A expectativa da fundação é que, nesse período, as incertezas
sobre o câmbio estejam resolvidas e que a Fapesp possa lançar um
edital convocando os laboratórios interessados no proteoma.
Segundo o coordenador da rede paulista, Carlos Bloch Jr., da
Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), os
equipamentos chegam ao Brasil na próxima segunda-feira.
A rede fluminense, formada por cinco laboratórios, saiu na frente
da paulista, mas enfrenta agora o "day after": conseguiu
comprar os espectrômetros antes da desvalorização do real e
começar a pesquisa, só que, agora, não tem dinheiro para
adquirir gel de eletroforese bidimensional, insumo necessário
para a análise molecular.
"É como se você fosse pintar uma parede e tivesse comprado
as broxas, mas não tivesse tinta", compara o biólogo Elias
Walter Alves, da Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense),
um dos coordenadores da rede.
Como o material é perecível, ele não pode ser comprado em
grande quantidade. Os pesquisadores do Rio têm estoque para mais
dois ou três meses e, segundo Alves, não há perspectiva
imediata de novas compras. Para piorar, as verbas para pesquisa no
Estado estão congeladas.
"Estamos atrasados, mas tocando [o projeto]", afirma
Alves. "O que nos preocupa não é o dia de hoje, mas o amanhã."
Próximo passo
O proteoma, estudo das interações entre todas as proteínas que
compõem um organismo, é o passo lógico seguinte ao
sequenciamento do genoma (o conjunto dos genes). Isso porque as
proteínas, codificadas nos genes, são as moléculas que
efetivamente fazem tudo num ser vivo. Enquanto o genoma fornece o
manual de instruções para a produção de um animal ou planta,
com a análise do proteoma é possível saber como essas instruções
são executadas nas diferentes fases da vida.
Os espectrômetros de massa servem para medir o peso de moléculas.
As técnicas que permitiram seu uso para estudar proteínas
renderam o Nobel de Química de 2002 para o americano John Fenn e
o japonês Koichi Tanaka.
São equipamentos elaborados, que carregam eletricamente as proteínas
e as forçam a atravessar um campo de vácuo. Quanto mais leve,
menor o chamado "tempo de vôo" de uma proteína na câmara.
Tal informação, combinada à da carga, permite determinar a
"assinatura" da molécula.
A rede paulista de proteômica trabalharia com organismos que já
tiveram seu DNA sequenciado pelos projetos genoma financiados pela
Fapesp. A Folha apurou que a diretoria do órgão de
fomento paulista está apostando no proteoma para obter respostas
práticas sobre o funcionamento desses organismos, como a bactéria
Xylella fastidiosa, causadora da doença do amarelinho, que afeta
os laranjais do Estado.
A estréia no proteoma será com a bactéria Xanthomonas, agente
do cancro cítrico, e com o café, cujo genoma está sendo
sequenciado em parceria com a Embrapa.
CLAUDIO ANGELO
EDITOR-ASSISTENTE DE CIÊNCIA
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