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Os estudos com gêmeos voltam à
moda com o uso das novas ferramentas da genética
Joe Hermosa/Associated
Press -20.02.2000
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Gêmeos
do Texas, com 7 anos de idade, participam de concurso de
fantasias em Brownsville |
Depois de ciclo de
impopularidade, os estudos com gêmeos voltam à moda com
o uso das novas ferramentas da genética
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Kristin Ohlson
da "New Scientist"
Mais de 2.000 gêmeos e milhares
de espectadores curiosos participaram dos Dias dos Gêmeos deste
ano, o maior encontro de gêmeos do mundo, realizado anualmente em
Twinsburg, Ohio.
A cidade teve a idéia de criar o
evento, ótimo para atrair turistas, 27 anos atrás, para
comemorar os gêmeos famosos que lhe deram seu nome: os irmãos
Wilcox, mortos há muitos anos, que se casaram com irmãs e
morreram no mesmo dia, da mesma causa. Este ano, como em outros,
pares de gêmeos vieram de longe e de perto para ostentar sua
semelhança. Havia desde menininhas vestidas como pirulitos do
mesmo sabor até senhores de cabelos grisalhos, passeando numa
bicicleta feita para duas pessoas.
Onde se vêem grupos de gêmeos, também se vêem pesquisadores médicos.
No final da parada, os gêmeos formaram fila para entrar numa área
repleta de barracas de comida, entretenimento -e cientistas.
Algumas das barracas de pesquisa ofereciam brindes a quem topasse
participar; outras chegavam a oferecer dinheiro. De qualquer
maneira, os gêmeos se mostravam ansiosos por participar, e havia
longas filas para entrar e sair das barracas. Dez equipes montaram
estandes para registrar os nomes de voluntários para participar
de estudos sobre gêmeos, a maneira clássica de investigar se uma
característica médica ou psicológica específica é determinada
pela natureza ou pela criação.
É uma ferramenta de pesquisa que está vivendo uma explosão de
popularidade. Hoje em dia, os estudos de gêmeos são usados para
calcular até que ponto pode ser herdado tudo, do câncer de mama
às posições políticas. No ano passado, por exemplo,
pesquisadores do hospital St. Thomas, em Londres, declararam que
um aspecto chave da facilidade para a música, a percepção
tonal, se deve em 76% a nossos genes. Jornalistas tiraram disso a
conclusão de que as aulas de música são perda de tempo para
certas crianças.
Um sinal da popularidade do campo é a existência de cerca de 20
importantes registros de gêmeos em todo o mundo, incluindo um que
abrange 150 mil pares de gêmeos. Em março, a Comissão Européia
e outros organismos receberam uma verba de US$ 18 milhões para
unir sete bancos europeus de gêmeos num megarregistro composto de
600 pares, que será usado para estudar a obesidade, os acidentes
vasculares cerebrais e a enxaqueca, entre outras doenças.
Mas nem todos vêem os estudos de gêmeos com bons olhos, e
algumas pessoas são abertamente hostis a eles. Os críticos
afirmam que toda a discussão de natureza versus criação é
equivocada e seria motivada por pessoas que querem provar que as
desigualdades sociais se devem a nossos genes, não a nossa
cultura.
E eles a desafiam também por
motivos mais fundamentais. Indagar se uma característica se deve
à natureza ou à criação não faz sentido, dizem, já que quase
todas as características são afetadas por ambos os fatores.
Seriam os estudos de gêmeos, uma invenção do século 19,
suficientemente sofisticados para pesquisar tais interações na
era da biologia molecular e do projeto Genoma Humano?
Afinal, o esquema clássico do estudo de gêmeos ainda é muito básico.
Os cientistas analisam dois grupos: os gêmeos idênticos (ou
univitelinos), que vêm do mesmo óvulo fertilizado e compartilham
todos os genes, e os fraternos (ou bivitelinos), que nascem de
dois óvulos diferentes e têm em comum só metade de seus genes.
Se os gêmeos idênticos
forem mais semelhantes entre si do que os fraternos,
conclui-se que a hereditariedade exerce um papel no traço
estudado
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Se os gêmeos idênticos forem mais semelhantes entre si do que os
fraternos, os pesquisadores concluem que a hereditariedade exerce
um papel na característica estudada, papel esse cuja magnitude
eles podem estimar. O cientista britânico Francis Galton deu início
aos estudos de gêmeos, há mais de cem anos.
Seus estudos o levaram à
conveniente conclusão de que, por trás da hegemonia das classes
altas britânicas, havia inteligência herdada, e tomaram um rumo
mais sinistro quando ele pediu a criação de programas
governamentais para incentivar pessoas de talento a se
reproduzirem como coelhos e dissuadir os indivíduos sem dons de
ter filhos.
Depois da 2ª Guerra Mundial, o
psicólogo londrino Cyril Burt estudou gêmeos idênticos criados
separadamente e constatou que seus QIs eram muito semelhantes,
apesar das diferenças entre eles em termos dos ambientes
socioeconômicos nos quais tinham sido criados. Durante algum
tempo, a natureza ficou por cima na discussão ente natureza e
criação -até que o psicólogo americano Leon Kamin declarou
fraudulento o trabalho de Burt.
Descobriu-se que,
independentemente do número de grupos de gêmeos que Burt
afirmasse ter estudado, as cifras que ele apresentava em favor da
influência genética se mantinham iguais -resultado altamente
improvável, em termos estatísticos. Kamin mantém até hoje sua
postura crítica em relação aos estudos de gêmeos, embora
outros pesquisadores tenham voltado a endossá-los. ""O
consenso atual não é tanto uma função do "poder" dos
estudos, quanto da ideologia prevalecente", diz Kamin. Ele
receia que as estimativas quanto ao grau em que a inteligência é
herdada sejam exploradas para difundir a idéia de que investir em
educação para pessoas de QI baixo é uma perda de dinheiro público.
Colegas de útero
Outra crítica feita aos estudos de gêmeos é que as semelhanças
entre gêmeos idênticos podem ser causadas pelo ambiente que
compartilharam no útero, alem dos genes que eles possuem em
comum. A chamada ""hipótese de Barker",
apresentada nos anos 1980, diz que a dieta seguida pela mulher grávida
""ensina" a seu filho sobre o ambiente que ele pode
encontrar fora do útero, e, desse modo, afeta seu metabolismo e
sua saúde posterior. Se uma mulher tem uma dieta deficiente, por
exemplo, seu filho que ainda não nasceu passa a achar que a vida
é dura e, assim, terá tendência maior a armazenar calorias sob
a forma de gordura.
A teoria foi ganhando corpo
porque se observou que crianças com baixo peso ao nascer
apresentam probabilidade maior de tornar-se adultos com sobrepeso,
sofrendo de diabete e problemas cardíacos. Mas os pesquisadores
de gêmeos defendem seus métodos com vigor. Os gêmeos idênticos
muitas vezes apresentam diferenças de saúde geral e de peso ao
nascer, mas, mesmo assim, têm índices semelhantes de ataques
cardíacos e diabete, o que sugere que a hipótese de Barker não
seja tão importante assim, afirmam. Em vista de tais diferenças
pré-natais, é surpreendente que os gêmeos idênticos sejam tão
parecidos, diz Nancy Segal, diretora do Centro para Estudos de Gêmeos
na California State University, em Fullerton.
Quando o assunto é ideologia, os
defensores dos estudos de gêmeos afirmam que enxergar esse modelo
de pesquisas como ferramenta para pessoas com visões políticas
suspeitas já é superado. Robert Plomin, do Instituto de
Psicologia de Londres, diz: ""As pessoas se preocupam
com a genética, mas duvido que a genética fosse capaz de causar
tanto dano quanto causou a mania de atribuir a culpa pelo autismo
à mãe do autista", fazendo referência à hoje
desacreditada teoria da ""mãe geladeira". Na
verdade, é graças a estudos de gêmeos que os cientistas hoje
pensam que o autismo é geneticamente determinado em cerca de 90%
dos casos. ""Os estudos com gêmeos se tornaram muito
importantes para modificar as percepções das pessoas quanto às
causas das variações humanas e para criar agendas sociais e de
pesquisas mais racionais", disse Nick Martin, diretor de
epidemiologia genética do Instituto Queensland de Pesquisas Médicas,
na Austrália, e editor do periódico ""Twin Research".
E os estudos com gêmeos têm
sido extraordinariamente úteis nas pesquisas de doenças que, de
outro modo, teriam sido enigmas genéticos. Desordens de genes únicos,
tais como a fibrose cística e a anemia falciforme, podem ser
estudadas com relativa facilidade. Mas desordens mais comuns, tais
como osteoporose, obesidade e a condição maníaco-depressiva,
surgem quando as pessoas herdam vários genes ""de
vulnerabilidade".
Os estudos simples feitos com famílias
comuns não revelam o grau de envolvimento dos genes, já que não
é possível distinguir os efeitos genéticos do meio ambiente
familiar. Mas os gêmeos idênticos herdam todos os mesmos
conjuntos de genes, de modo que os estudos feitos com gêmeos
podem revelar até que ponto essas doenças complexas se devem a
fatores genéticos.
A chegada em cena de novas técnicas
moleculares de estudo da genética não quer dizer que os estudos
com gêmeos tenham sido superados. Na verdade, estão se mostrando
mais úteis do que nunca. Agora os cientistas podem usar novas
formas de estudos de gêmeos para decifrar os mecanismos precisos
existentes por trás das diferenças individuais.
A dimensão do DNA
Uma técnica investiga os gêmeos idênticos que diferem numa doença
ou característica específica, usando sofisticadas técnicas de
disposição de DNA, com as quais é possível examinar milhares
de genes com rapidez e eficácia. Os pesquisadores procuram
disparidades na expressão dos genes dos gêmeos, esperando
encontrar um gatilho ambiental ou uma única mutação nova que
provocou a condição.
Os estudos com gêmeos estão se
mostrando uma ferramenta poderosa para a pesquisa de cada gene
expresso, em um único par de gêmeos, quando só um deles tem
determinada doença. No mês passado, por exemplo, Jeff Murray, da
Universidade do Iowa, descobriu uma das causas genéticas do lábio
leporino ao estudar dois gêmeos idênticos, dos quais só um
tinha o problema.
A aplicação de técnicas de biologia molecular à pesquisa com gêmeos
pode lançar luz sobre uma das áreas menos conhecidas da genética.
Os críticos dos estudos com gêmeos às vezes acham que não faz
sentido estimar o grau em que qualquer característica dada pode
ser herdada, já que isso pode variar com o ambiente.
Por exemplo, calcula-se que as variações de obesidade se devam
em cerca de 70% a fatores genéticos e 30% a fatores ambientais.
No entanto, em regiões em que os humanos têm dificuldade para
garantir sua subsistência, é muito mais provável que as pessoas
sejam magras, seja qual for sua herança genética. Nesse caso, a
contribuição do ambiente seria superior a 30%. E uma pessoa que
tivesse sofrido uma mutação genética incomum talvez nunca
engordasse, por mais que comesse. Para ela, a contribuição
ambiental seria menor.
Mas os pesquisadores de gêmeos respondem que ainda é possível
fazer generalizações úteis sobre o grau em que a maioria das
características pode ser herdada ou não, dado o ambiente médio
de uma população e seu pano de fundo genético típico. E os gêmeos
estão emergindo como a ferramenta ideal para pesquisar essas
interações complexas entre genes e meio ambiente.
A razão é que, sem gêmeos, é difícil separar os efeitos de
genes ""normais" que afetariam diretamente o nível
de uma característica dos ""genes de sensibilidade
ambiental", que modificam o grau em que uma característica
é sensível a influências externas. Os gêmeos idênticos quase
sempre têm todos seus genes iguais, de modo que, quando um é
mais gordo do que outro, isso deve ser atribuído exclusivamente a
efeitos do ambiente. Se determinadas versões
(""alelos") do gene X estiverem ligados a uma
discordância de peso grande ou pequena, então você terá
encontrado o que procura.
Um dos primeiros exemplos conhecidos desse fenômeno é a relação
entre os níveis de colesterol e os grupos sanguíneos MN -uma
classificação diferente do sistema mais conhecido de tipos sanguíneos
ABO.
Por meio de estudos com gêmeos,
a equipe de Martin mostrou que pessoas do grupo sanguíneo N têm
níveis de colesterol muito mais variáveis do que as do grupo M.
Para as pessoas do grupo N, mudar de dieta, adotando um regime com
baixo teor de gordura -em outras palavras, uma mudança em seu
ambiente- era mais eficaz para reduzir os níveis de colesterol
presentes no sangue do que era para as pessoas do grupo M.
Esse trabalho parece estar a anos-luz do estudo de gêmeos clássico
de Galton. Mas quem sabe se e quando todos os enigmas serão
decifrados? Quando um par de gêmeas jovens em Twinsburg começou
a seguir as instruções de pesquisadores que estudavam diferenças
de paladar, a mãe deles, Joanie Cuff, de Buffalo, Nova York, riu
enquanto as via engolir frascos de líquido e fazer caretas.
Até um estudo de DNA mostrar que
suas filhas eram gêmeas idênticas, ela imaginara que fossem
fraternas. ""Uma delas é perfeccionista, a outra é
bagunceira", ela contou. "Uma delas estuda muito,
enquanto a outra não faz o dever de casa. Mas, nas provas, elas
tiram as mesmas notas." E isso, como se explica?
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