Fraude põe ética científica em questão



Houve agora tempo suficiente para examinar as descobertas do Comitê Beasley, o grupo designado pelos Laboratórios Bell para investigar as acusações de falsificação no trabalho de um grupo de pesquisa que teve o dr. Hendrik Schön como um dos coordenadores. O relatório analisa o trabalho apresentado em 25 estudos por Schön e várias combinações diferentes de 20 colegas.


A tarefa era um desafio monumental, e o comitê a enfrentou admiravelmente. Sua conclusão, de que Schön é culpado de má conduta científica em múltiplas instâncias, é convincente. O comitê também inocentou todos os co-autores de má conduta.


O que não resolve a questão, como eu descobri após passar vários dias respondendo às perguntas dos repórteres. O interesse público no caso é intenso: a pesquisa foi um esforço internacional, envolvendo co-autores de (e laboratórios em) vários países, e os Bell Labs tinham conquistado uma reputação de excelência. O trabalho foi publicado em várias revistas científicas -inclusive, proeminentemente, a "Science". Forte interesse dessa natureza levanta questões difíceis, e nós tivemos a nossa quota.


Quanto à resposta da "Science": nós temos uma política permanente de que todos os autores de um estudo estejam de acordo com sua retratação. Esperamos que os Bell Labs trabalhem com Schön e seus co-autores para obter tais acordos para cada um dos estudos questionados. Se, por alguma razão, retratações unânimes não forem possíveis, iremos buscar outros meios para notificar a comunidade científica sobre a situação dos estudos.


Perguntaram-nos se esse triste incidente nos trouxe alguma dúvida sobre o quão bem o processo de revisão por pares na "Science" funciona. Todas as experiências infelizes deveriam gerar esforços para aprender delas, e usaremos o relatório para avaliar se deveríamos ter agido diferentemente nesses casos.


Dito isso, nós acreditamos -como eu já disse em outras ocasiões- que é pedir muito da revisão por pares esperar que ela nos imunize contra fraudes inteligentes. Alguns relatos noticiosos citaram fontes científicas dizendo que somos muito interessados em estudos "luminosos" (sugerindo que poderíamos ter estado ansiosos demais para publicá-los). Não podemos lidar com essa acusação, exceto ao dizer que, quando nossos revisores nos dizem que um estudo é realmente importante, nós prestamos atenção a eles.


Há uma questão muito mais importante do que essa. É uma que o Comitê Beasley levantou, mas deixou em aberto, após questionar se os co-autores exerceram "responsabilidade profissional apropriada" para garantir a validade das afirmações dos estudos.


Ao lidar com questões autorais em vários papéis institucionais, eu encontrei argumentos vigorosos em ambos os lados dessa questão. Um diz que, dada a natureza interdisciplinar da ciência e a co-participação de pessoas com várias especialidades em um projeto, cada autor não pode ter a obrigação de assumir responsabilidade pela validade dos resultados. Outro aponta que, como todos os co-autores recebem crédito profissional pelo produto inteiro, todos deveriam compartilhar as consequências, no caso de ele ser inválido.


É claro que o Comitê Beasley lutou honrosamente com esse problema. Mas sua dificuldade é bem atestada por sua própria linguagem com respeito à conduta do co-autor: "Não há implicação aqui de má conduta científica; a questão é de responsabilidade profissional". Isso parece uma distinção sem uma diferença: isso é, afinal de contas, sobre ciência. Como poderia uma clara falha de "responsabilidade profissional" em uma questão científica não despertar a questão de má conduta científica?


A dificuldade que o comitê encontra nesse domínio reflete, como o relatório reconheceu, a ausência de um consenso da comunidade sobre a incômoda questão da responsabilidade do co-autor.


É difícil encontrar um lado positivo na tempestade gerada pelo caso Schön, mas seria bom se ele servisse como um gatilho para um exame reflexivo da questão. O Comitê de Ética da Sociedade Física Americana está bem situado para iniciar o processo, e a qualidade do Relatório Beasley fornece bom material.


O Comitê disse que "não endossava a visão de que cada co-autor fosse responsável pela completude do esforço colaborativo..." Bem, não estão todos levando por completo o crédito? E se os benefícios são gozados conjuntamente e individualmente por todos os autores, então não deveria a culpabilidade ser conjunta e individual também? A resposta precisa vir na forma de uma decisão da comunidade científica, que agora precisa se fazer presente para a tarefa. Nós apoiaremos o consenso que resultar disso.


Donald Kennedy é editor-chefe da revista "Science"

 

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