Aquecimento global derrete as
geleiras no cume da montanha mais alta da África, celebrizada por
Hemingway
Neve do monte Kilimanjaro vai sumir em 20 anos
Lonnie Thompson/Science
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À
esq., a plenitude do famoso monte Kilimanjaro; à dir.,
bloco de gelo derretendo na montanha |
O cume nevado do monte Kilimanjaro, famoso na literatura e amado
pelos turistas, se formou há 11 mil anos, mas terá desaparecido
em mais duas décadas, segundo pesquisadores. Eles dizem que os
campos de gelo na montanha mais alta da África diminuíram em 80%
no último século.
Lonnie G. Thompson, da Universidade Estadual de Ohio, nos EUA,
disse que medições em amostras de gelo e com modernos satélites
de navegação mostram que as camadas de gelo mais antigas da
famosa montanha foram depositadas durante um período extremamente
úmido, iniciado 11.700 anos atrás.
Mas o aumento de temperatura em anos recentes, medido em um grau
inteiro desde 2000, está levando à erosão dos blocos de gelo de
50 metros de altura que deram ao Kilimanjaro seu cume branco.
"O gelo terá sumido até 2020", disse Thompson, o
primeiro autor de um estudo que está sendo publicado hoje pela
revista "Science" (www.sciencemag.org).
O gelo já em fase de desaparecimento reduziu a quantidade de água
em alguns rios da Tanzânia e o governo teme que, quando o
Kilimanjaro estiver sem neve, os turistas parem de vir.
"Kilimanjaro é o principal atrativo de capital estrangeiro
para o governo da Tanzânia", disse Thompson. "Tem seu
próprio aeroporto internacional e recebe 20 mil turistas todo
ano. A questão é, quantos virão se não houver campos de gelo
na montanha."
A montanha é prestigiada na literatura, notavelmente no livro de
Ernest Hemingway "As Neves do Kilimanjaro" ("The
Snows of Kilimanjaro"), e algumas crenças antigas da África
sustentam que a montanha é um local sagrado.
A água do monte abastece vilas e hospitais, e alguns deles já
estão sofrendo com a escassez, disse Thompson. Os cientistas
correm para escavar núcleos do campo de gelo em fase de
derretimento para preservar a história contada pelas camadas de
gelo a respeito do antigo clima da África e, em última análise,
do mundo todo.
Um período extremamente úmido indicado pelo gelo tem correspondência
com estudos independentes que mostram que há 11 mil anos os lagos
na África ocupavam vastas áreas do continente.
O lago Chade, por exemplo, disse Thompson, cresceu até cobrir 345
mil quilômetros quadrados, o tamanho atual do mar Cáspio. O lago
africano hoje tem apenas 17 quilômetros quadrados.
O período úmido terminou e as amostras de gelo mostram que a África
entrou em uma profunda seca há 4.000 anos. Esse período seco,
disse Thompson, também é apontado por outros registros,
inclusive nos escritos de caráter histórico. "Esse período
seco aparece no registro histórico do Egito", disse.
"Escritos nas tumbas falam de dunas de areia se movendo pelo
Nilo e de pessoas migrando. Alguns chamaram essa fase de primeira
idade das trevas da Terra."
A África não estava sozinha na seca. Thompson disse que outros
registros mostram que a civilização quase entrou em colapso no
período na Índia, no Oriente Médio e na América do Sul.
Os pesquisadores põem marcadores no topo dos blocos de gelo desde
1962 e Thompson disse que as medições de satélites mostram que
o conjunto do gelo diminuiu 17 metros nos últimos 40 anos.
Com agências internacionais
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