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De todos os heróis da exploração
da Antártida, nenhum entrou tão mal para a história quanto
Robert Falcon Scott
Andy Soloman -
16.jan.1999/Reuters
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Cabana
da expedição de Scott, montada no cabo Evans |
De todos os heróis da
exploração da Antártida, nenhum entrou tão mal para a história
quanto Robert Falcon Scott. Afinal, não bastasse ter perdido a
corrida ao pólo Sul para o norueguês Roald Amundsen -que alcançou
o local quase um mês antes dele, em 14 de dezembro de 1911-, o
capitão da Marinha Real britânica ainda morreu no caminho de
volta, assim como quatro de seus companheiros, em março de
1912.
O mito criado em torno de Scott
fala em imprudência, inépcia e imperícia. Reza a lenda que ele
morreu -e matou seus homens- porque planejou mal a expedição.
Usou pôneis para sua marcha no gelo, enquanto Amundsen lançou mão
de cães, mais leves e rápidos.
Desprezou os esquis, confiando na
tração humana para percorrer os quase 1.300 km até o pólo.
Levou pouca comida e pouco combustível, era um péssimo navegador
e não entendia nada do clima antártico. Foram necessários 90
anos para que a lenda do Scott incompetente recebesse o seu
primeiro golpe fundamentado pelos argumentos menos sujeitos a paixões
da ciência moderna.
Quem o desfere é a
climatologista Susan Solomon, da Agência Nacional para Oceanos e
Atmosfera dos EUA. No livro "The Coldest March" (que
pode ser traduzido tanto como "A Marcha Mais Fria"
quanto como "O Março Mais Frio"), que saiu nos EUA em
2001, ela argumenta que só os erros -que não foram poucos-
cometidos pelo capitão no planejamento da viagem não bastariam
para dar cabo do grupo. Scott, na verdade, fora vitimado pelo
inverno mais inclemente do começo do século 20 na Antártida
Ocidental.
Para comprovar sua tese, Solomon
usou dados coletados desde a década de 60 por estações meteorológicas
automáticas no pólo Sul e ao longo da barreira de Ross, a
colossal plataforma de gelo onde morreram Scott e seus
companheiros Edward Wilson, Lawrence Oates, Henry Bowers e Edgar
Evans. Os registros, apresentados no livro, mostram que as
temperaturas caem abaixo dos 40C negativos no mês de março um
ano a cada dez ou mais (provavelmente mais) na barreira.
E o ano de 1912 foi um deles. A
americana pode ser acusada de muita coisa, menos de não saber do
que fala. Há 20 anos ela tem pesquisado a atmosfera do sexto
continente. Foi uma das cientistas que descobriram o famigerado
buraco na camada de ozônio e tem até uma geleira batizada com
seu nome. Para Solomon, o mito em torno de Scott foi criado por críticos
sem nenhuma experiência de Antártida. Quem já esteve no
continente sabe que o tempo ali está longe de ser previsível,
especialmente entre os meses de março e abril, quando começa o
que ela chama de inverno "sem fundo".
Em vez de uma queda gradual nas
temperaturas com a aproximação do inverno, como acontece no
resto do planeta, o termômetro despenca de uma vez só,
geralmente em março. Scott partiu para o pólo de sua base no
cabo Evans, na região do estreito de McMurdo (onde hoje se
localiza a maior base científica do continente, dos EUA), em
novembro de 1911.
Seus pôneis não poderiam
suportar o frio de setembro/outubro, quando a temperatura
normalmente fica ao redor dos 25C negativos na barreira de Ross.
(Os cães de Amundsen resistiam bem ao frio, o que permitiu ao
norueguês sair em outubro.) O britânico sabia que seria apanhado
pelo inverno no final de sua viagem de volta.
O problema foi que todos os
estudos feitos por ele e por seu meteorologista, George Simpson,
mais as medições realizadas na própria barreira em março de
1911, indicavam temperaturas de, no mínimo, -30C -e não os -40C
enfrentados. O frio intenso causa enregelamento quase instantâneo
de qualquer parte exposta do corpo, o que pode ter contribuído
para a debilitação física dos homens. Mas também muda a
textura da neve, que fica áspera, "impraticável" para
os trenós, como descreveu Scott. Algo fatal para cinco homens
fracos e famintos que precisavam arrastar a própria carga.
O cientista
O mito da morte causada por incompetência não é o único que
"The Coldest March" tenta rever. Solomon apresenta Scott
como um apaixonado pela ciência, em vez do militar bronco e de
visão estreita retratado pela lenda. Um homem que procurou
incorporar o maior número possível de cientistas à expedição
-Amundsen não levou nenhum, pois não queria perder tempo com
observações- e que confiava na experimentação e no registro
científico.
Talvez, argumenta a autora, o excesso de confiança nas condições
meteorológicas que ele mesmo cuidadosamente observara em sua
viagem anterior ao continente (em 1902) e ao longo dos
preparativos para a expedição ao pólo o tenham feito planejar a
instalação dos depósitos de alimentos ao longo da rota com a
quantidade exata de comida para a viagem sob condições normais.
Amundsen sempre trabalhou com excesso.
O mito de que os ingleses consideravam indigno comer carne fresca
de foca, razão pela qual alguns -inclusive Edgar Evans, o
primeiro membro da equipe polar a morrer na barreira- teriam
sofrido de escorbuto durante a expedição, também é contestado
por Solomon, e com base nos próprios diários da expedição.
Outra acusação que não se pode fazer nem ao britânico nem a
Susan Solomon é a de chatice. O estilo literário de Scott tornou
seus diários (publicados em português só no começo deste ano),
além de leitura obrigatória, uma das obras-primas da exploração
polar. Em "The Coldest March", a cientista americana
parece diretamente inspirada pelo espírito de Scott e narra a
saga dos heróis britânicos como se a tivesse vivido.
Para isso, Solomon muitas vezes deixa que os próprios homens
falem, usando trechos dos diários da expedição. Outro dos
truques da americana para lançar o leitor no ambiente antártico
foi a criação de um personagem fictício: um visitante das bases
americanas que, mesmo com toda a tecnologia e a segurança
modernas, passa por maus bocados na Antártida devido a condições
climáticas excepcionais. As experiências do visitante foram
recolhidas de conversas com colegas cientistas e vividas pela própria
autora no continente.
Mas a mais impressionante das façanhas de "The Coldest
March" é o fato de ele ser, ao mesmo tempo, um livro de história,
aventura e ainda um manual de ciência que dá gosto -e frio- de
ler. Scott saiu em grande estilo de sua geladeira histórica.
The Coldest March de Susan
Solomon
383 págs., US$ 29,95 Yale University Press, New Haven, EUA.
(www.yale.edu/yup)
Claudio Angelo
editor-assistente de Ciência
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