Substituídos
por motos e bicicletas, animais teriam se tornado obsoletos
e, abandonados, estariam causando acidentes
Jarbas Oliveira/Folha Imagem
Jumentos abandonados presos em um dos currais do
Departamento de Edificações, Rodovias e Transportes, em
Quixeramobim
ALESSANDRA KORMANN
DA AGÊNCIA FOLHA
Centenas de jumentos estariam sendo enterrados vivos em
Quixeramobim (município a 200 km de Fortaleza).
O motivo: como se tornaram obsoletos e
estão sendo substituídos por motos e bicicletas, os animais
são abandonados e têm causado muitos acidentes nas estradas
da região.
Esse é o teor da representação criminal que a Comissão do
Meio Ambiente da OAB do Ceará, em parceria com a Uipa (União
Internacional Protetora dos Animais), pretende encaminhar ao
Ministério Público Estadual, pedindo a responsabilização
criminal de funcionários do Dert (Departamento de
Edificações, Rodovias e Transportes), acusados do crime.
"O jumento é de uma docilidade incomensurável, de uma
mansidão que não dá para descrever. É totalmente inofensivo,
a única função dele é ajudar os nordestinos", disse o
advogado Arimá Rocha, presidente da Comissão do Meio
Ambiente da OAB-CE.
O superintendente-adjunto do Dert, Guaraci Diniz de Aguiar,
nega que isso tenha ocorrido, mas afirma que abriu um
procedimento para investigar o caso (leia texto nesta pág.).
A denúncia foi feita à Uipa há 15 dias, por moradores.
Segundo os relatos, os animais seriam recolhidos das
estradas por funcionários do Dert e depois levados para um
cercado, onde ficariam sem comer por uma semana.
Depois, seriam levados para um local, com covas
previamente cavadas, e receberiam apenas uma pancada na
cabeça, sendo empurrados para dentro do buraco ainda vivos.
A seguir, os funcionários cobririam os animais com terra.
De acordo com a denúncia, seriam cerca de 150 por semana.
"Uma pessoa disse que isso vinha acontecendo toda
sexta-feira, e às vezes mais de uma vez por semana", afirmou
a advogada Gelsa Leitão, da Uipa.
A entidade enviou um funcionário a Quixeramobim para apurar
a história. Ele passou oito dias na cidade e afirma ter
testemunhado a mortandade a uma distância de cerca de 50
metros.
"Eles batiam com uma espécie de machado na cabeça dos
animais. Os jumentos ficavam agonizando, os outros que viam
a cena queriam fugir. Aí empurravam os animais vivos para
dentro do buraco. Sou capaz de jurar pela alma de minha
mãe", disse o funcionário da Uipa, que não quis se
identificar.
"Os animais iam caindo um em cima do outro. Fui embora
porque não consegui ficar até o final", afirmou o
funcionário.
Segundo o funcionário, as mortes ocorreram em uma fazenda
entre Quixeramobim e Senador Pompeu. Teriam começado por
volta das 19h de sexta-feira e teriam ocorrido até cerca da
meia-noite, de acordo com outros moradores ouvidos por ele.
De acordo com Marcos, havia cinco covas fundas, do tamanho
aproximado de um caminhão. Os funcionários do Dert teriam
trazido os jumentos em três caminhões, em várias viagens.
"O jumento é um símbolo do Nordeste. É um animal muito bom,
silencioso, que sofre calado e muitas vezes carrega um peso
superior a suas forças", disse a advogada da Uipa.
Também chamado de jegue, o jumento é mais usado como
reprodutor do que como meio de transporte: ao cruzar com a
égua, produz filhos mais resistentes e maiores, os burros e
as mulas, que são estéreis.
Como os jumentos se reproduzem em grande quantidade,
acabaram sendo desvalorizados.
Colaborou KAMILA FERNANDES, da Agência Folha, em Fortaleza
Mais:
Departamento nega que tenha havido
matança
DA AGÊNCIA FOLHA
O superintendente-adjunto Guaraci Diniz de Aguiar disse que
abriu procedimento investigativo para apurar denúncias de
matança de jumentos. "Se isso existiu no passado, a
determinação é de que a prática seja suspensa", afirmou.
Aguiar negou que a matança tenha ocorrido. Segundo ele, o
órgão apenas se encarrega de enterrar animais que morrem
atropelados ou por doença.
Os animais recolhidos seriam levados a um curral e depois
doados ou leiloados, segundo Aguiar. Ele admite que os
jumentos causam muitos acidentes nas estradas.
O superintendente-adjunto afirmou que, caso seja comprovada
a prática, o gerente operacional do Dert em Quixeramobim,
Ademir Monteiro, irá responder a um processo administrativo.
Monteiro negou que tenha determinado a morte dos jumentos
apreendidos. "Não existe isso, é uma história fantasiosa",
afirmou. Segundo ele, são apreendidos em média cinco
jumentos por dia. Há atualmente 120 animais no curral do
Dert -os outros teriam sido doados ou leiloados.
A lei 9.605/98 diz que praticar maus-tratos contra animais
dá pena de três meses a um ano de detenção, além de multa.
Com a morte, a pena pode ser aumentada em até um terço.
A OAB-CE e a Uipa também pretendem abrir uma ação contra o
Estado do Ceará. A indenização iria para um fundo de ajuda
aos jumentos. (AK)
+
Animal foi substituído por motos
TIAGO ORNAGHI
DA AGÊNCIA FOLHA
O motivo apontado para o excesso de jumentos no Ceará é a
substituição do animal por motos e bicicletas.
A frota de motos no Estado aumentou 10,21% desde 2000,
segundo estatísticas do Denatran (Departamento Nacional de
Trânsito), chegando a 36,2% do total de veículos no Estado
-222.601 motocicletas regulares. Esse é o segundo maior
índice do país, atrás apenas de São Paulo.
A perda de utilidade do jumento fez com que seu preço no
mercado cearense despencasse.
O valor oficial do jumento vivo -usado por leilões oficiais
do governo estadual e pela Bolsa de Mercadorias do Ceará-
está no seu mais baixo índice na história, cotado ao preço
simbólico de R$ 1. Mesmo assim, os leilões não atraem
compradores.
O preço do "burro em pé", como ficou conhecida a cotação do
valor do animal vivo, despencou 80% no período de quatro
anos. Em 1999, o animal vivo podia ser negociado por R$ 5 no
mercado.
Abandono
Os proprietários, desinteressados em vender os animais,
apenas abandonam os jumentos nas ruas -ou pagam para que os
animais sejam mortos.
A desvalorização do jumento já foi inspiração para o poeta
popular Patativa do Assaré (1909-2002) em um de seus poemas,
"Meu Caro Jumento".
"Você, meu caro jumento/Foi quem teve a grande sorte/O
grande merecimento/De servir como transporte/Na noite desta
fugida/Defendendo a santa vida/De Cristo Nosso Senhor/Até no
livro sagrado/Seu nome está carimbado/Mas ninguém te dá
valor."
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