Ipen busca
fontes alternativas de geração de energia
Brasília (Agência Brasil - ABr) - A busca por processos de
desenvolvimento sem agressão ao meio ambiente é, hoje, o
grande desafio tecnológico no mundo.
Com essa visão, pesquisadores do Instituto
de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo,
implantam um projeto que visa ao estudo e o incremento
tecnológico de células de combustível para a produção de
eletricidade, como forma de buscar fontes alternativas de
geração de energia não poluente e que sejam renováveis.
No Ipen são estudadas duas concepções, as
de baixas temperaturas - células de membranas poliméricas (PEMFC)
e as de alta temperatura - células de eletrólito de óxido
sólido (SOFC).
Um dos aspectos desse projeto é a investigação do uso da
mistura etanol/vapor de água como um combustível alternativo
para as células de combustível que operam em altas
temperaturas, as chamadas SOFC (solid oxide fuel cell) .“O
grande atrativo de se desenvolver essas células de SOFC,
está na possibilidade de geração locais de energia elétrica
sempre que houver necessidade”, explica a engenheira de
materiais Sônia Mello.
“Em todo o mundo, as atenções dos centros de pesquisas e de
muitas indústrias, estão voltadas a solucionar questões que
envolvem tanto os materiais como também os processos de
fabricação e projeto das SOFC. Dentro do Ipen, um grupo de
pesquisa, do qual participo, desenvolve os materiais que
compõe tanto o núcleo (conjuntos de anodos, eletrólitos e
cátodos), como os interconectores e selantes utilizados nas
células a combustível de SOFC.
Constitui como uma das metas deste
projeto, o domínio de tecnologias e processamentos dos
materiais voltados para a fabricação destes componentes.
Também convém destacar o uso de matérias-primas nacionais
nestas tecnologias emergentes”, comenta Sônia Mello.
As células a combustíveis de óxidos sólidos operam em maior
temperatura (próximo de 1000°C) e são capazes de gerar
energia elétrica da ordem de kilo-watts a mega-watts de
potência.
Esta alta eficiência na geração de energia
faz com que esta concepção apresente grande potencial, para
ser utilizada no caso de falha no abastecimento de energia
pela rede elétrica, por exemplo, em locais onde a energia é
imprescindível, como nos hospitais.
Análoga a uma pilha, a energia elétrica de uma célula a
combustível é gerada a partir de uma reação eletroquímica,
ou seja, a energia liberada pela reação química é convertida
diretamente em energia elétrica.
Entretanto, a principal diferença, que
constitui numa grande vantagem, já que no caso da célula a
combustível, a produção de energia ocorre sempre que está é
alimentada com combustível que pode ser o gás hidrogênio,
monóxido de oxigênio, metanol, etanol ou até gás natural.
“Atualmente, é considerada uma das formas mais limpas de
geração de energia elétrica, pois os produtos destas reações
são água e calor e, em alguns casos dióxido de carbono”,
explica a pesquisadora.
O processo de reação dessa célula é feito por meio do
combustível, que é alimentado do lado do anodo - por exemplo
o hidrogênio (H²). Do lado do catodo é introduzido o
oxidante, no caso o oxigênio (O²). Num eletrólito condutor
iônico (ex. zirconia), o oxigênio na forma de íon (O=), se
difunde no sentido catodo-eletrólito-anodo.
Ao entrar em contado com o hidrogênio na
interface eletrólito/anodo, eles reagem entre si formando
água e liberando dois elétrons por cada molécula de água
formada: H²+ ½ O² ž H²O + 2 e-. Estes elétrons são
recolhidos por um condutor elétrico transformando
diretamente parte da energia de reação em eletricidade.
Segunda a engenheira, da mesma forma que a célula de
combustível apresenta várias possibilidades de aplicação,
que a coloca em uma das concepções mais atrativas ao mercado
energético, com particular destaque para a geração de
energia distribuída, esta concepção ainda necessita de
muitos desenvolvimentos, direcionados principalmente à
garantia de longevidade das células às condições extremas
(ambiente e temperatura) a que são submetidos os materiais
que as constituem.
“Muitas pesquisas têm sido centradas em estocagem e
transporte de combustível, principalmente de hidrogênio, que
pode ser estocado tanto em cilindros de alta resistência ao
impacto quanto em materiais sólidos – hidretos metálicos.
Alguns hidretos têm potencial para
armazenar inclusive maior volume de gás que o próprio
cilindro de mesmo volume aparente. Por outro lado a
co-geração permite se utilizar o combustível como o gás
natural, o etanol ou metanol diretamente na célula a
combustível, produzindo o hidrogênio ou o monóxido de
carbono necessário para a reação com o oxigênio e formar a
água”, diz Sônia.
Como a célula de alta temperatura apresenta possibilidade de
produzir um potencial elétrico bastante elevado, é
particularmente indicada para ser utilizada em lugares
afastados dos grandes centros, como o sertão nordestino ou
pequenas comunidades da Amazônia, aonde é difícil o acesso a
rede elétrica, já que ela não depende de nenhum outro
sistema de abastecimento elétrico. “Mas para isso acontecer,
tudo dependerá da concepção de fornecimento.
Acredito que o mais econômico seria a
produção próxima ao local de consumo, por exemplo, na
atividade agrícola, a partir da biomassa. Ou utilizar outros
meios de transporte como contêiners por via fluvial ou
rodoviária, sem as perdas de energia como ocorrem hoje pelos
cabos de transmissão”, acrescenta.
“Numa utilização mais ampla, os grandes centros poderão se
beneficiar desse projeto, gerando energia elétrica local, ou
seja, em suas casas, fábricas, escolas.
Economizando os custos de transporte e
perdas de energia trazidas de grandes distâncias e ainda
disponibilizarão em rede, o excedente de energia não
utilizado”, complementa a pesquisadora. Sônia Mello diz que
a possibilidade da instalação desta tecnologia na geração de
energia nas cidades, ainda está um tanto longe. “Mas se
houver, acredito que a instalação se dará no caso de energia
distribuída, em conjunto com as distribuidoras de energia
elétrica”.
De acordo com ela, até o momento, todas as previsões de
comercialização em termos mundiais desta célula não foram
cumpridas, confirmando que muitas questões tecnológicas
ainda aguardam respostas. Numa posição mais conservadora o
relatório anual do National Laboratory (Riso), da Dinamarca,
prevê mais oito anos de pesquisa até a total comercialização
deste tipo de célula a combustível.
As células a combustível podem ser definidas como
dispositivos eletroquímicos em que a energia química de um
combustível é convertida diretamente em eletricidade.
O princípio de funcionamento de uma célula
de combustível é semelhante ao de uma bateria. Estas células
utilizam o hidrogênio e oxigênio para produzir energia
elétrica, e têm como sub produto apenas calor e água.
As células de baixa temperatura são ideais para aplicações
móveis, como os automóveis, e as de alta temperatura,
responsáveis pelo abastecimento de energia em residência,
hospitais e indústrias. “A diferença entre baixa e alta
temperatura está, como o nome diz, na temperatura de
operação e, conseqüentemente, no potencial de geração de
energia de cada unidade. A de baixa temperatura utiliza como
eletrólito uma membrana polimérica (PEMFC – polymeric
electrolyte membrane fuel cell) que opera entre 80 a 100ºC,
gerando, a veicular, cerca de 50 KW.
A de alta temperatura, constituída de
materiais cerâmicos, opera entre a temperatura de 800 a
1000ºC, permitindo a geração de energia até da ordem de KW a
MW de potência. O calor gerado permite a co-geração de
energia integrando a reforma do combustível acoplado à
célula”, explica Sônia.
O conceito de célula a combustível existe há mais de 150
anos e sua paternidade é atribuída William Grove. Ele teve a
idéia durante seus experimentos sobre eletrólise da água,
quando imaginou como seria o processo inverso, ou seja,
reagir hidrogênio com oxigênio para gerar eletricidade. Mas
só em 1839, que o termo célula a combustível, foi criado por
Ludwing Mond e Charles Langer.
A primeira célula bem sucedida foi desenvolvida pelo
engenheiro Francis Bacon, em 1932. Problemas técnicos
adiaram sua concretização até 1959, quando Hary Karl Ihrig
obteve sucesso com seu experimento. No final dos anos 50, a
agência espacial norte-americana, Nasa, precisou trabalhar
com geradores de eletricidade para missões espaciais. O
projeto Apollo e as missões espaciais Shuttle fizeram uso
das células.
Camila Cotta
Fonte: 
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